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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com armas e aborto, Bolsonaro tenta ganhar tempo enquanto inflação não cai

31.mai.2022 - Bolsonaro fazendo campanha eleitoral em Jataí (GO) durante horário de expediente  - Reprodução/Facebook
31.mai.2022 - Bolsonaro fazendo campanha eleitoral em Jataí (GO) durante horário de expediente Imagem: Reprodução/Facebook
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/06/2022 09h19

Incapaz de dar boas notícias sobre a inflação (cujos dois dígitos vão devorando a comida na mesa das famílias) e sobre a renda dos trabalhadores (que caiu 7,9% em um ano, segundo o IBGE), Jair Bolsonaro desembesta a falar de armas, aborto, gênero, religião e comunismo a fim de entreter e distrair a multidão. O povo tem fome? Que coma motociata.

Foi o que ele fez em mais um ato de campanha eleitoral, desta vez em Jataí (GO), nesta terça (31), quando adotou o combo completo junto a um público que lhe é simpático.

Defendendo coisas como "um povo armado jamais será escravizado" e alertando para o fantasma (inexistente) de uma ditadura comunista no Brasil, tenta preencher com bobagens o estômago de parte dos brasileiros.

O problema é que, como sempre alerta a mãe da gente, comer bobagem engana, mas não alimenta. Até porque, segundo pesquisa Datafolha divulgada também nesta terça, 72% da população discordam que a sociedade seria mais segura se as pessoas andassem armadas, como prega Jair.

Os principais críticos são as mulheres, os negros e os pobres, ou seja, três maiorias numéricas tratadas como minorias em direitos.

A estratégia busca ganhar tempo, enquanto seus sócios no Congresso Nacional tentam reduzir na marra o preço dos combustíveis (planejando tirar recursos que iriam para educação e saúde dos mais pobres, por exemplo) e na expectativa de que a inflação reduza naturalmente com uma mudança da conjuntura. O que melhoraria sua popularidade e, assim, as intenções de voto.

Claro que o discurso que incentiva a compra de armas também ajuda a preparar seus seguidores para uma tentativa de golpe, em caso de derrota do bolsonarismo em outubro. Mas o presidente já deixou claro que prefere ser chamado de golpista do que de Bolsocaro, até porque, apesar de ameaças de golpe serem gravíssimas, o povão está mais preocupado - e com toda a razão - se vai ter comida no jantar dos filhos. E não perdoará governante que deixar faltar.

Ele também abraça a estratégia porque há um eleitorado flutuante de olho na pauta econômica, mas que também se preocupa com a pauta comportamental.

Bolsonaro busca quem está em dúvida entre votar pela segurança material ou por costumes

O Datafolha divulgou, na sexta (27), que 20% dos eleitores de Jair Bolsonaro optam por Lula caso não votem no atual presidente na eleição de outubro. Já 17% dos eleitores do ex-presidente escolhem Bolsonaro como segundo voto. Isso é difícil de ser compreendido quem está imerso na polarização, mas é simples se você lembrar que, aos olhos de muitos, nenhum candidato é perfeito.

Existe um eleitor atraído tanto pela segurança material do legado de Lula quanto pelo discurso de costumes e comportamento de Bolsonaro.

"Esse eleitor, sobretudo nas classes C e D, movido fundamentalmente por uma urgência material, lembra de como era o governo Lula no passado e reativa a sua memória. E o legado lulista é algo poderoso: 'eu comia carne, pagava contas, chegava ao final do mês' ", explicou à coluna Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Unifesp, que vem desenvolvendo uma extensa pesquisa de campo sobre o comportamento dos eleitores de ambos.

E, diante de uma escalada da inflação nos alimentos, o Auxílio Brasil já perdeu muito de seu poder de compra de R$ 400, reduzindo seu impacto eleitoral.

Mas, se uma parte se reconecta a Lula, com base no legado de cuidado dos pobres do passado, outra se desconecta dele pela pauta moral, simbólica e de costumes ligada a Bolsonaro. "Entrevistei público que disse 'eu queria votar no Lula porque ele cuidava dos pobres, a gente conseguia comer bem naquele tempo, mas se ele continuar falando de aborto, eu voto no Bolsonaro."

Nesse sentido, responder a Bolsonaro no seu campo de batalha, ou seja, retrucando declarações sobre costumes em um momento em que o principal problema nacional é a inflação e a fome, é garantir exatamente o que ele quer.

Melhor reagiriam os candidatos que desejam derrota-lo se evitassem fornecer munição para ele e, ao mesmo tempo, tirassem-no da zona de conforto, trazendo de volta o debate para as necessidades materiais.

Perguntando, por exemplo, como o seu governo permitiu que a cesta básica subisse 27% em abril em São Paulo, passando a custar mais de R$ 800? Por que você se escora em bobagens como "a culpa é do fique em casa" se há países que adotaram o distanciamento para salvar vidas na pandemia e não estão passando fome como nós? Ou mesmo questionar a razão da folga de carnaval que ele tirou ter custado R$ 783 mil aos cofres públicos num momento em que trabalhadores evitam comprar um iogurte para os filhos por falta de dinheiro?

Tradutor: O povo tem fome? Bolsonaro oferece motociata, armas, aborto e comunismo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL