PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro veste quatro carapuças, e reconhece ser uma ameaça à democracia

03.ago.2022 - O presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (PL), durante o Culto de Santa Ceia, organizado pela Frente Parlamentar Evangélica, no auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, em Brasília. - WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
03.ago.2022 - O presidente da República, Jair Messias Bolsonaro (PL), durante o Culto de Santa Ceia, organizado pela Frente Parlamentar Evangélica, no auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Imagem: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
só para assinantes
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/08/2022 11h59Atualizada em 05/08/2022 14h07

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido

O presidente Jair Bolsonaro vestiu com gosto quatro carapuças que estavam passando no debate público, todas elas relacionadas a ataques e ameaças à democracia e ao sistema eleitoral brasileiro.

De fato, ele era o sujeito oculto do manifesto "Em Defesa da Democracia e da Justiça", articulado pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), da "Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito!", divulgada pela Faculdade de Direito da USP, do discurso do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, em prol do sistema eleitoral, e da abertura dos trabalhos do TSE pelo ministro Edson Fachin. Era. Mas diante de sua reação descontrolada, demonstra que sentiu. Ah, sentiu.

Apesar de o presidente não ser citado diretamente em nenhum desses casos, todos os quatro foram uma defesa enfática das urnas eletrônicas, do sistema eletrônico de votação, das instituições do Poder Judiciário responsáveis por conduzir o processo eleitoral. Enfim, itens mínimos de respeito à vida em sociedade, como não arrotar à mesa ou lavar as mãos após usar o sanitário.

Mas como Bolsonaro é quem vem ameaçando ignorar os resultados das urnas, incitando seus seguidores contra o STF e o TSE e preparando terreno para uma tentativa de golpe de Estado, sentiu-se pessoalmente ofendido com as críticas.

Seria difícil que ele abraçasse o cinismo e subscrevesse os documentos, afinal defendem as mesmas urnas que são tratadas por ele como o cocô do cavalo do bandido. Agora, poderia ter feito a egípcia e ignorado. Poderia. Resolveu tomar outro caminho.

Por conta das manifestações, ele chamou os grandes empresários signatários de "mamíferos", "cara de pau" e "sem caráter". Inventou a mentira de que banqueiros (que estão lucrando como nunca) estão perdendo dinheiro por conta da introdução do PIX. Ficou tão ressentido de estar sendo abandonado por uma parte da elite que chamou os manifestos de "cartinhas" e até criou a sua própria versão no Twitter.

Particularmente, acredito que, a esta altura do campeonato, quando o presidente sapateia cotidianamente sobre a República e joga fora das quatro linhas da Constituição, o cuidado de não citar o nome do principal fator de instabilidade do país em cartas e discursos tornou-se obsoleto.

Pois isso permite apelar por "pacificação" de forma genérica, como se todos os candidatos agissem com o mesmo desapreço à paz que o presidente. Mesmo a justificativa de que ele deseja que se faça referência a seu nome para se vitimizar e atacar as instituições também caiu por terra, pois ele demonstrou que vai agredi-las de qualquer jeito.

Mas também compreendo as batalhas que estão sendo disputadas no seio de organizações empresariais, em que uma parte está legitimamente preocupada com a manutenção da democracia, sem a qual não há ambiente saudável para os negócios, enquanto outra aceita que a democracia se exploda, contanto que continue lucrando - e, por isso, bate palma para o "mito".

Vestido com as carapuças, Bolsonaro passou um recibo monstruoso em todos os casos - um prato cheio para psicanalistas discutirem horas a fio sobre quais traumas, medos e ressentimentos moldaram Jair desde menino, passando pelos anos como militar insubordinado e como parlamentar incompetente e folclórico no Congresso Nacional até chegar ao momento em que começou a passear de jet ski usando cartão corporativo do governo e planejar golpe.

É muita frustração acumulada. Pena que ele esteja tentando descontar tudo isso num país ao invés de procurar terapia.