Leonardo Sakamoto

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Reportagem

Lula tenta conter Maduro com 'morde e assopra' na crise com a Guiana

O Brasil vem aplicando a política do "morde e assopra" diante da Venezuela, segundo fontes do Palácio do Planalto e do Ministério das Relações Exteriores ouvidas pela coluna. Isso explica uma declaração diplomaticamente dura dada por Lula, neste domingo (3), sobre o referendo realizado pelo governo de Nicolás Maduro sobre a anexação de mais de 70% do território da Guiana.

"Obviamente, o referendo vai dar o que o Maduro quer. Porque é um chamamento ao povo para aumentar aquilo que entende que seja o território dele", afirmou a jornalista, em Dubai, durante a COP28, a cúpula da ONU sobre o clima. Ou seja, o governo venezuelano convocou uma votação não para consultar a população, mas para fortalecer a sua posição pró-anexação e, claro, sua própria imagem.

Dos mais de 20 milhões de eleitores registrados no país, mais de 10,5 milhões compareceram às urnas neste domingo para se manifestar sobre cinco perguntas postas pelo governo sobre anexação da região do Essequibo. A posição de Maduro venceu com 96% de apoio. Diplomatas apontam que as perguntas formuladas induziam a respostas.

A província é reivindicada pela Venezuela desde o século 19, mas não estava na órbita dos governos bolivarianos até a Guiana começar a explorar grandes jazidas de petróleo no mar e a conceder à iniciativa privada a prospecção.

Membros do governo Lula afirmaram que o Brasil ficou quase seis anos sem acompanhar de perto a política interna na Venezuela, tendo até retirado o corpo diplomático de Caracas. Com isso, estão tentando entender como está a composição de forças de apoio a Maduro.

O ex-presidente Jair Bolsonaro quase chegou às vias de fato com fazendo um teatro com um pequeno caminhão que invadiria o país vizinho levando "ajuda humanitária".

Neste momento, o governo Lula quer mostrar que está disposto a ajudar na normalização das relações deles com a América do Sul, mas, ao mesmo tempo, deixar claro que há limites para aventuras que a Venezuela pode iniciar na região. A eclosão de um conflito armado seria uma tragédia econômica e geopolítica, gerando uma crise gigantesca de refugiados.

Na diplomacia, gestos são importantes. Lula afirmou na coletiva de imprensa que conversou duas vezes por telefone com o presidente da Guiana, Irfaan Ali. Mas não falou diretamente com Maduro, tarefa que ficou a cargo do assessor especial da Presidência da República, o ex-chanceler Celso Amorim.

O governo brasileiro está, neste momento, tentando calibrar os incentivos para que a Venezuela deixe de ser um elemento de desestabilização da política regional.

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Ouvidos pela coluna que atuaram na Venezuela duvidam que Maduro tente ocupar militarmente o Essequibo e que a ação serve para fomentar o nacionalismo visando às eleições gerais do ano que vem.

Citam que também é uma cortina de fumaça para os problemas internos - mesmo com a redução das sanções impostas por outros países, como os Estados Unidos, por conta do cerceamento da democracia, a produção e a exportação de petróleo são hoje apenas sombras do que eram.

Independente de qual seja a razão, ela bebe na estratégia do "em apuros, crie uma guerra" - prática adotada por governos em todo o mundo, de democracias a ditaduras.

Mas como lembra um outro ouvido pela coluna, grande parte da lógica do governo venezuelano é a defesa nacional e a questão da soberania sobre os recursos naturais. Se Maduro se meter em uma aventura militar e sair derrotado, toda a lógica que legitima esse controle social desaba. Na Argentina, a derrota nas Malvinas acelerou a crise que levou ao fim da ditadura.

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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