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Maria Carolina Trevisan

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Presidente Bolsonaro, por que tanto medo das mulheres?

Bolsonaro e o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, durante passeio de moto com apoiadores na cidade de Chapecó (SC) - Tarla Wolski/Futura Press/Folhapress
Bolsonaro e o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, durante passeio de moto com apoiadores na cidade de Chapecó (SC) Imagem: Tarla Wolski/Futura Press/Folhapress
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

27/06/2021 15h55Atualizada em 28/06/2021 12h48

Não tem sido fácil ser Jair Bolsonaro (sem partido). Um dos sinais mais expressivos de que o presidente passa por momentos difíceis é seu descontrole direcionado às mulheres: sempre que se sente acuado, o presidente ofende as mulheres. Ao mesmo tempo, reforça o apoio de homens ao seu governo. Neste sábado (26), fez questão de passear de moto em Chapecó (SC), levando o prefeito da cidade, João Rodrigues (PSD), na garupa. Um passeio na companhia de outros homens, que se identificam com o bordão "imorrível, imbrochável e incomível", sustentado por Jair. A maioria não usava máscara.

Com o avanço das investigações acerca da compra bilionária e irregular de vacinas Covaxin, Bolsonaro proferiu ofensas a três jornalistas mulheres: na segunda (21), insultou Laurene Santos, da TV Vanguarda; na sexta (25), hostilizou Adriana de Lucca, da CNN e Victória Abel, da Rádio CBN, que o questionaram sobre o escândalo da Covaxin. Ainda em junho, Bolsonaro xingou a jornalista Daniela Lima, apresentadora da CNN.

Em viagem ao Rio Grande do Norte, na quarta (24), outra afronta às mulheres: o presidente Jair Bolsonaro mandou que uma menina tirasse a máscara durante um evento e arrancou a proteção do rosto de uma criança em seu colo, expondo ambos à covid-19. Dessa forma, agrediu, em última instância, as mães das crianças, que tiveram seus direitos violados, as mães que testemunharam o ato e quem perdeu um amor para o vírus. É simbólico.

O presidente da República deve ter ficado ainda mais enfurecido ao constatar que foi a atuação de uma senadora, Simone Tebet (MDB-MS), que fez o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) revelar o nome do deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, como operador do suposto esquema da Covaxin. A revelação implica Bolsonaro porque o nome de Barros teria sido dito pelo próprio presidente. Agora, outra mulher pode preocupa-lo: a ex-esposa de Pazuello, Andrea Barbosa, quer falar à CPI da Pandemia, como revelou O Globo neste domingo (27).

Bolsonaro tem mesmo que temer as mulheres. As pesquisas mais recentes confirmam que elas compõem a parcela da população que mais resiste ao presidente, em especial as mulheres com renda baixa e as nordestinas. Na pesquisa IPEC divulgada na sexta (25), Bolsonaro registrou intenção de voto bem menor entre as mulheres, com apoio de 19% das eleitoras. Entre os homens, o percentual chegou a 28%.

Em consequência ao comportamento abusivo do presidente Jair Bolsonaro contra as mulheres, no final da semana passada, a Justiça Federal em São Paulo condenou o governo federal a pagar uma multa por danos morais coletivos no valor de R$ 5 milhões por ofensas contra as mulheres em declarações públicas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e por outros membros da atual gestão, como Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), Paulo Guedes (Economia), o ex-ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente.

A União também foi condenada a realizar campanhas de conscientização sobre violência doméstica e assédio sexual contra mulheres, no valor de R$ 10 milhões. Ainda cabe recurso.

O que Bolsonaro fala, a maneira como se comporta, tanto no que se refere ao enfrentamento à covid-19 quanto em relação às mulheres, se reflete na sociedade e legitima abusos, ofensas, assédio e violência de gênero. O mesmo se aplica a seus filhos, que no domingo (27) debocharam da atriz Leandra Leal, que fez uma declaração contrária ao presidente em sua participação no programa Altas Horas. Mais uma mulher que alguém do clã ofende.

Dia do orgulho LGBTQIA+

Roberta Silva, 32 anos, uma mulher trans, foi queimada viva no Recife (PE), na madrugada de sexta (25). É um crime tremendamente cruel. Roberta teve 40% do corpo queimado, teve de amputar um dos braços, sofreu lesões no tórax, abdômen, mãos e braços. Ela está intubada e seu estado é grave.

O caso teve repúdio do prefeito de Recife, João Campos (PSB), e do Governo de Pernambuco, que ofereceu assistência à vítima e a seus familiares, além de ajuda na investigação.

João Campos está correto: essa violência atinge a todos nós. Menos o presidente Jair Bolsonaro, que se calou sobre o caso. Tampouco ressoou em seus filhos. Neste domingo, véspera do Dia do Orgulho LGBTQIA+, Eduardo Bolsonaro publicou um tuíte com uma provocação ao Fluminense diante da homenagem que a equipe faria aos direitos LGBTQIA+, uma bandeira mais que necessária.

Bolsonaro e seus filhos são homens públicos. Devem se comportar como tal. No mínimo, devem ter respeito por todos os brasileiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL