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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI: Para conter irritação de Bolsonaro, Terra mente e reforça negacionismo

22.jun.2021 - O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) presta depoimento à CPI da Covid - Edilson Rodrigues/Agência Senado
22.jun.2021 - O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) presta depoimento à CPI da Covid Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

22/06/2021 14h22

Um dos líderes do negacionismo à brasileira, o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) fez uma participação na CPI da Covid em que abusou do cinismo. O tom com que rebateu evidências óbvias dessa postura de minimizar a gravidade da pandemia — registradas nas redes sociais e nas entrevistas que ele mesmo concedeu — reforça um aspecto típico do bolsonarismo que tem sustentado o governo federal: o desdém com os fatos para criar realidades inexistentes.

A morte é o fato mais concreto que existe. Com 500 mil vidas perdidas para a covid-19, não é possível defender o a imunidade de rebanho sem vacina, bandeira principal do deputado e ex-ministro Terra. Tampouco é honesto defender a cloroquina como tratamento para combater o novo coronavírus, comportamento que ele assumiu para não contrariar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que tem estado nervoso nos últimos dias.

Terra participou de reuniões do "gabinete paralelo", mas diz que foi acaso, "uma vez só", ou seja, foi quase sem querer que ele esteve sentado ao lado de Bolsonaro, ou com a médica Nise Yamaguchi, ou com o ex-ministro Pazuello, sem mencionar o encontro com o ex-assessor do presidente Arthur Weintraub, grande fornecedor de informações sobre cloroquina ao Palácio do Planalto.

O deputado, que também é médico, apoiou todas as fases de negação assumidas pelo presidente, começando pela "gripezinha", recusando o isolamento social, defendendo o uso de cloroquina para, no final, emplacar a tese da "imunidade de rebanho" sem vacina, que virou a política pública do governo federal.

Buscar a imunidade de rebanho sem vacina é aceitar a morte passivamente, é impor a dor e o luto à população como se não tivesse responsabilidade em gerir a crise sanitária, social e econômica.

Terra chegou a afirmar que Bolsonaro tem "bom senso" para dizer o que quiser, como se ele fosse qualquer pessoa, mesmo o presidente tendo tirado a máscara e mandado uma jornalista calar a boca ontem mesmo. E agora quer se livrar da maneira como atuou tratando de convencer a audiência de que a culpa é das variantes.

O deputado Osmar Terra mentiu durante todos os meses da pandemia, com suas previsões e apoio ao negacionismo do governo federal. Hoje, na CPI, mentiu de novo, sem constrangimento, com a soberba própria de quem tem a certeza de que não haverá consequências.

Mas o fato é incontestável: as 500 mil vidas perdidas para a covid-19 no Brasil são o atestado absoluto de que o governo Bolsonaro fracassou e a maior evidência de que tolerar as mortes foi uma decisão oficial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL