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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

ONU: não há discurso de Bolsonaro capaz de salvar imagem do Brasil

Jair Bolsonaro discursa nesta terça-feira (21) na abertura da Assembleia Geral da ONU  - Foto: Alan Santos/PR
Jair Bolsonaro discursa nesta terça-feira (21) na abertura da Assembleia Geral da ONU Imagem: Foto: Alan Santos/PR
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

21/09/2021 11h03

"Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões", assim começou o discurso do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, na Assembleia Geral da ONU nesta terça (21), em Nova York. "O Brasil mudou e muito", disse, citando a fantasiosa ausência de corrupção e um suposto salvamento da nação, operado por seu governo, de um iminente regime socialista.

Bolsonaro deu números da vacinação contra a covid-19 — que ele boicotou —, afirmou ser contrário ao passaporte da vacina e reforçou o uso de medicamentos ineficazes e perigosos para o tratamento precoce da covid-19, que ele mesmo afirmou ter utilizado. Colocou-se como um protetor dos indígenas e mentiu sobre o desmatamento recorde da Amazônia em sua gestão. Terminou com "Deus abençoe a todos."

Nem Deus recupera a imagem do país.

O discurso de António Guterres, secretário-geral da ONU, sobre desigualdade no mundo e crise climática foi o oposto da postura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas. "Em lugar da solidariedade, estamos a caminho da destruição", afirmou Guterres, reconhecendo os problemas que o mundo enfrenta. Pediu igualdade, justiça, paz e solidariedade. Condenou a misoginia e a xenofobia. "É hora de inspirar esperança." Ao final, propôs um plano de vacinação global.

O posicionamento de Guterres se antagoniza à gestão de Bolsonaro no Brasil e à conduta da comitiva brasileira que foi à ONU. Em poucas horas em Nova York, o presidente e seus ministros demonstraram ao mundo o que o Brasil vive diariamente: Jair Bolsonaro e seu governo são incapazes de respeitar o entorno por onde passam. Também não toleram críticas.

O inconveniente começou na noite de domingo (19), com a ida à pizzaria. Comemorada pelo ministro general Luiz Eduardo Ramos (Secretaria Geral) como símbolo de humildade, a imagem do grupo de homens comendo em pé foi, na verdade, o primeiro sinal de que um líder mundial anti-vacina, que pregou o uso de medicamentos ineficazes e perigosos e deixou à morte a sua população, não é bem-vindo.

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, em entrevista coletiva, verbalizou o desgosto com o posicionamento e a presença de Bolsonaro na cidade. "Precisamos mandar uma mensagem a todos os líderes mundiais, especialmente Bolsonaro, do Brasil, de que se você pretende vir aqui, você precisa ser vacinado. E se você não quer se vacinar, nem venha, porque todos devem estar seguros juntos. Isso significa que todo mundo deve estar vacinado", alertou de Blasio.

Bolsonaro é o único dos 19 chefes de Estado do G20 que declarou não ter se imunizado contra a covid-19, segundo levantamento da BBC. A prefeitura de NY colocou um ônibus com vacinas contra a covid-19 à disposição de quem quiser se vacinar em frente à sede da Nações Unidas.

Na segunda (20), o encontro com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foi mais uma vergonha para o Brasil. Serviu para passar vergonha: Johnson debochou de Bolsonaro ao lhe convidar a se vacinar com AstraZeneca. Horas antes da reunião bilateral, Ramos recomendou ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que botasse "o pau na mesa". A recomendação foi flagrada por jornalistas do Estadão. O jargão corrobora a obsessão fálica de integrantes do governo Bolsonaro para qualquer situação. O Brasil continua na lista vermelha dos países que precisam de quarentena para entrar em território britânico, embora as regras tenham sido flexibilizadas para outras nações.

Na mesma tarde, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, foi às compras. Ao entrar na Apple Store da 5ª Avenida, foi vaiado. Ele compõe a comitiva do pai e está na cidade a serviço do Brasil.

À noite, novo vexame: o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros foram recebidos com protestos diante da residência oficial do embaixador do Brasil na ONU. Um caminhão de neon estacionado na entrada chamava Bolsonaro de "mentiroso" e mostrava um letreiro com frases como "Amazônia ou Bolsonaro", "Bolsonaro, criminoso climático" e "prendam Bolsonaro". O presidente foi chamado de "genocida" por um grupo de manifestantes.

A sequência de protestos irritou ministros e presidente. Jair fez sinal de "menos" com as mãos e postou um vídeo em que desqualifica o protesto. "Tem aproximadamente dez pessoas aqui fazendo um escarcéu. As pessoas estão fora de si. Esse bando que está aqui nem sabe o que está falando, deveria estar num país socialista, não aqui nos Estados Unidos", afirmou.

Queiroga xingou outros manifestantes de dentro da van que transportava a comitiva brasileira. O ministro da Saúde do Brasil mostrou o dedo do meio ao grupo, em sinal de raiva, descontrole e descompostura. Foi acompanhado do chanceler Carlos França, que fez sinal de arminha. O primeiro, enfrenta a realidade de ter descontinuado a vacinação para adolescentes sem nenhuma justificativa, o segundo demonstra que diplomacia não é o seu forte e dá recado ao mundo.

Esse comportamento do presidente e de seus ministros se configura em uma síntese do que é o governo Bolsonaro: agressivo, desrespeitoso, incompetente e indecente. O desgaste político, econômico e social é irreversível. Somos o país com 600 mil mortos pela covid-19, que está destruindo a Amazônia e dizimando os indígenas. Somos o país que deixou a fome voltar a 19 milhões de pessoas. A presença de Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da ONU comprova tudo isso.

A esta altura, não há discurso que salve a imagem do Brasil. Ao contrário, estamos cada vez mais afundados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL