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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

País precisa de consenso agora e pós-Bolsonaro, diz Maria Hermínia Tavares

Caminhoneiros permanecem ocupando parte da Esplanada dos Ministérios mesmo após fim do ato de protesto de 7 de setembro - Luiz Souza/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Caminhoneiros permanecem ocupando parte da Esplanada dos Ministérios mesmo após fim do ato de protesto de 7 de setembro Imagem: Luiz Souza/Fotoarena/Estadão Conteúdo
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

15/09/2021 13h41

A carta que Michel Temer (MDB) escreveu para Jair Bolsonaro (sem partido) assinar serviu para baixar a tensão entre os Poderes e sinalizar à militância bolsonarista radical que não há adesão para um golpe, teste que o presidente encampou nas manifestações de 7 de Setembro.

Com essa trégua, foi possível à oposição propor uma reorganização das forças democráticas contra o golpismo de Bolsonaro. Neta quarta (15) acontece uma reunião entre partidos de diferentes matizes como PSDB, MDB, DEM, PDT, PT, PSOL, PCdoB, Rede, PSD, Solidariedade e Cidadania. O grupo propõe uma manifestação de frente ampla para o próximo 2 de outubro.

À noite, haverá uma "vigília pela democracia", convocada pelo grupo Direitos Já, com a participação de lideranças partidárias como Simone Tebet (MDB), Alessandro Molon (PSB), José Aníbal (PSDB), Gleisi Hoffman (PT), Luiz Henrique Mandetta (DEM), José Luiz Penna (PV), Fabio Trad (PSD), Antonio Neto (PDT), Igor Soares (Podemos), Junior Bozzella (PSL), Heloísa Helena (Rede), Marcelo Ramos (PL), Roberto Freire (Cidadania), Luciana Santos (PCdoB) e Fernanda Melchionna (PSOL).

É um começo de uma frente ampla. Junta políticos que sempre foram oposição à Bolsonaro com aqueles que se arrependeram de ter apoiado o presidente. Esta quarta é um marco importante na defesa da democracia.

Para compreender melhor este momento, a coluna ouviu Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular aposentada de ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap. Para ela, Bolsonaro operou um estrago no país. Para recuperar o Brasil será necessário consenso.

Maria Hermínia Tavares de Almeida - Reprodução - Reprodução
Maria Herminia Tavares de Almeida fala sobre frente ampla, democracia, o Brasil de Bolsonaro e 2022
Imagem: Reprodução

Como a senhora vê a reacomodação de forças desde 7 de setembro, com a intervenção do ex-presidente Michel Temer, a manifestação do MBL e a aglutinação dos partidos por uma frente ampla?

Há uma percepção de setores importantes da sociedade, como a área econômica, por exemplo, de que Bolsonaro fez uma trégua momentânea mas que vai voltar a fazer [discurso golpista]. Acho que sim, deu uma trégua, mas a percepção é de que é um equilíbrio instável e que ele vai voltar ao seu estado natural.

A escalada [até 7 de setembro] tinha sido muito grande, não sei o que se poderia acontecer dali adiante. Foi uma escalada retórica muito forte. E teve um momento de descontrole da base: enquanto ele assinava a carta, os caminhoneiros continuavam fazendo bloqueios. Então, é uma demonstração de que tem uma massa que ele põe na rua e tem certos setores que ele não controla.

Na sua opinião, é possível construir uma frente ampla de apoio à democracia mesmo em um cenário tão polarizado?

Sim. Os atos no Anhangabaú no dia 7/9 e na Avenida Paulista no dia 12/9, mostram que nenhuma força sozinha consegue segurar o tranco. O MBL é muito mais fraco na mobilização mas a da esquerda também foi pequena. Para ser um movimento de rua maior é preciso engrossar com várias forças por uma mobilização maior.

Tem um aprendizado aí que talvez redunde em alguma coisa mais substantiva: há muita manifestação convergente fora da rua. Universos de empresários, pronunciamento de gente ligada ao setor financeiro, todos na mesma direção, na oposição a Bolsonaro. Ao mesmo tempo, você tem no horizonte uma eleição e a as pessoas estão se colocando. É um ajuste delicado.

Que concessões são necessárias para essa mobilização conjunta?

Primeiro é preciso esquecer o passado e as [desavenças nas] eleições de 2016. É difícil, as pessoas se enfrentaram na rua. Agora, precisamos de um processo mais longo e mais delicado que requer maturidade das lideranças políticas. O último lugar onde essas forças devem se juntar é a rua. Porque a rua é a militância e a militância é mais aguerrida. Antes é preciso juntar forças no Congresso, em outras manifestações como essa do Direitos Já, com gente de tudo o que é partido, que não só a oposição de esquerda. As lideranças estão se aproximando. O último lugar em que vão se juntar será na rua mesmo.

É possível que os partidos abandonem as bandeiras das eleições em nome de uma agenda mais ampla de defesa da democracia?

É difícil abandonar essas coisas. O ideal é que fosse assim, separar a agenda da defesa da democracia da agenda eleitoral, mas não é uma costura fácil. Como você tem o Bolsonaro de um lado, com um quarto do eleitorado, e o apoio ao Lula do outro, todas as outras forças estão no meio do caminho. E as forças que podem convergir têm que se colocar também na disputa eleitoral.

É muito cedo para eleição, ela foi antecipada por Bolsonaro. O ideal seria separar essas agendas, mas isso tem muita dificuldade de se concretizar. Quem busca uma alternativa diferente do Lula e do Bolsonaro tem que se diferenciar dos dois. E por isso precisa fazer algo mais agressivo, dificultando a agenda da democracia. Como a gente nunca viu esse contexto, é difícil prever, é tudo muito diferente como estrutura. Para barrar Bolsonaro precisa de uma frente ampla a democrática, mas não tem como evitar que as pessoas façam campanha antecipada.

Neste momento, estamos mais próximos de um impeachment ou de um golpe?

É difícil dizer. Acho que estamos longe do impeachment. Sempre estivemos, apesar de ter motivos de sobra e crimes de responsabilidade. Com o apoio que o Bolsonaro tem e a capacidade de mobilizar que ele tem, o impeachment fica difícil. Porque os atores políticos não fazem só o calculo sobre a Câmara. Se você é presidente da Câmara, o primeiro cálculo que você faz antes de colocar a proposta em discussão é se ela vai ser aprovada ou não. Ninguém põe proposta para ser derrotado.

Por outro lado, tem o cálculo do que pode acontecer caso o impeachment ande. Seriam três, quatro ou cinco meses com um alto grau de turbulência que o presidente pode provocar caso o impeachment siga adiante. É um cálculo real.

Golpe eu não sei. Tenho a impressão de que não vai acontecer. Não é tão fácil de fazer. Nos outros momentos, os militares deram o golpe para destituir o governo, havia apoio maior na sociedade para o golpe e também da elite econômica e da mídia. Estavam muito mais coesos do que agora.

Uma possibilidade com a qual a gente nunca trabalhou é ocorrer algo como na Bolívia. Se o tumulto ficar muito grande, você tem um golpe [dos militares] e logo em seguida eles devolvem o poder aos civis. Foi o que aconteceu na Bolívia. O golpe não está descartado. É difícil fazer essa previsão.

O que é pior em termos de turbulência: um impeachment ou Bolsonaro até o fim do mandato?

Uma coisa é ter Bolsonaro berrando em um dia e no outro ele dizer que não era bem isso. Aí, nesse caso, ele tira a base da rua, uma base que tem fanáticos e grupos fascistoides. Outra coisa é deixar essa gente na rua e dizer "quebrem". Mas o que importa não é a minha opinião, o que importa é o cálculo dos atores que realmente são relevantes. Esses atores estão fazendo vários cálculos. Há grupos que acham que a via do impeachment é melhor.

Esse processo que vivemos até aqui de deterioração da democracia serviu para que o Brasil, a sociedade e os atores políticas amadurecessem?

Está muito pouco claro ainda. O que está claro é que o PT está se preparando para ganhar a eleição e também para ter uma base para governar depois, com outro discurso econômico. Mas está muito fluído. Temos uma situação sanitária difícil, uma situação econômica horrível, com muita pobreza. Não tinha isso há seis meses, de tantas pessoas dormindo nas ruas, com fome. É uma tristeza, vai ser difícil recuperar. Será preciso algum consenso em torno de políticas. Esse clima muito radicalizado, muito polarizado, não é bom. Quem ganhar - acho que Bolsonaro não ganha - terá de fazer um enorme esforço de conciliação, de juntar as pessoas, porque a situação é muito triste, inacreditavelmente triste. O Brasil já teve muita pobreza, mas nos últimos muitos anos eu nunca vi uma coisa dessas.

Por isso, a disputa não pode ser muito azeda. Depois será necessário produzir algum consenso em torno de políticas que recuperem o país. O estrago que Bolsonaro fez é muito grande, é nacional, internacional, morrem de rir da gente aqui. É uma vergonha, um desprestígio. Horrível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL