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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Debandada é só reflexo da política econômica de gambiarras de Bolsonaro

Bolsonaro e Guedes: ministro admite influência eleitoral sobre medidas econômicas - Edu Andrade
Bolsonaro e Guedes: ministro admite influência eleitoral sobre medidas econômicas Imagem: Edu Andrade
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

22/10/2021 13h28

O primeiro grande reflexo negativo para a popularidade de Jair Bolsonaro (sem partido) foi a péssima gestão da pandemia. A CPI da Covid revelou uma estratégia que Bolsonaro repete para gerir a crise econômica: fabrica soluções mágicas, como a cloroquina, e oferece remendos aos problemas reais. São respostas que não se sustentam ao longo do tempo e aprofundam as crises.

Na economia, Bolsonaro operou com a mesma estratégia equivocada, o que acabou derrubando ainda mais a sua aprovação, impactada, agora, também pela inflação em alta. É o que mostra a pesquisa Exame/Ideia, do Instituto IDEIA, publicada nesta sexta (22): 53% dos entrevistados consideram o governo de Jair Bolsonaro "ruim/péssimo". É uma tendência difícil de ser estancada nos próximos meses porque o governo apresentou respostas que são, na realidade, gambiarras cujo objetivo final é eleitoreiro, mesma tática para a crise da pandemia.

O pior índice de reiejção do governo ocorreu em julho, quando 57% consideravam o governo Bolsonaro "ruim/péssimo", segundo a pesquisa Exame/Ideia. Trata-se exatamente do período em que a CPI demonstrou que o governo adiou a compra de vacinas, o que provocou milhares de mortes evitáveis.

A população já se deu conta da estratégia inconsistente e eleitoreira. O anúncio do furo no teto de gastos para viabilizar um Bolsa Família desfigurado, como é a proposta do Auxílio Brasil, provocou a alta do dólar e a debandada de quatro secretários do Ministério da Economia. A manobra aprofundou a crise e deve impactar na preço dos alimentos, que levará ao aumento da pobreza extrema e da fome. Tudo completamente equivocado para um país em que 20 milhões de pessoas passam fome, um problema gravíssimo.

Com a pandemia, a população reagiu apesar do boicote do principal mandatário do país. É a vacinação em massa — que Bolsonaro é contra — que proporciona ao país a possibilidade de uma retomada das atividades. A defesa da cloroquina não operou para a saída da pandemia, ao contrário, ajudou a retardar o fim da crise sanitária e pessoas morreram acreditando no tratamento precoce.

Agora, a pandemia deixou de ser o principal problema do Brasil. Para 79% dos brasileiros, a inflação e o aumento de preços são o grande problema do dia a dia, principalmente em relação aos combustíveis (43%), aos alimentos e bebidas (40%) e à energia elétrica (11%). Essa percepção está espalhada pelas classes sociais: quem ganha mais de 5 salários mínimos reconhece a alta dos combustíveis para o principal problema (63%) e quem ganha até 1 salário mínimo sente a alta dos alimentos como o que mais preocupa (44%).

A pesquisa mostra também que não há expectativa de melhora. Para 61% dos entrevistados, os preços devem seguir aumentando nos próximos seis meses. Ou seja, nem com os prometidos R$ 400 reais do Auxílio Brasil a população tem esperança.

A forma de Bolsonaro e seus ministros operarem nas crises que tiveram e têm de gerir se mostrou errada e destrutiva. Acabou primeiro com o Ministério da Saúde e, agora, o Ministério da Economia está desmoronando. É o fracasso de apostar na eleição como objetivo final, sem pensamento estratégico, sem consistência. Gambiarras, apenas. O governo federal está perdendo o apoio do mercado, do agro e também dos evangélicos. No parlamento, ficou o centrão, que determina os próximos passos.

Mas, no momento, não parece que exista melhora possível. Há, sim, grandes chances de Bolsonaro se tornar o primeiro presidente do país a perder uma reeleição. Como mostrou a professora e cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida em sua coluna desta quinta (21), "estudo da consultoria Eurasia Group mostra que, em 224 confrontos presidenciais pelo mundo afora, o incumbente só foi derrotado em 32. Outro levantamento, realizado pela Ipsos Public Affairs com base em 300 votações, concluiu que o incumbente é imbatível quando aprovado por 40% do eleitorado. Já se contar com o apoio de 30%, sua chance de êxito cai para 19%, despencando para 8% quando apenas 1/4 da população o avalia bem".

Neste momento, 23% dos brasileiros consideram o governo Bolsonaro "ótimo/bom", de acordo com a pesquisa do Instituto IDEIA. Perder a reeleição seria seu grande feito — e um alívio ao país. Mas ainda há riscos de um segundo mandato. A reconstrução do Brasil arrasado será dura para quem quer que ganhe o pleito de 2022.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL