PUBLICIDADE
Topo

Rogério Gentile

Apóstolo Valdemiro recebeu cifra milionária da Igreja Mundial, diz juiz

Rogério Gentile

Rogério Gentile é jornalista formado pela PUC-SP. Durante 15 anos, ocupou cargos de comando na redação da Folha de S.Paulo, liderando coberturas como a dos ataques da facção criminosa PCC, dos protestos de 2013 e das eleições presidenciais de 2010 e 2014, entre outras. Editou a coluna Painel e o caderno Cotidiano e foi secretário de Redação, função em que era responsável pelas áreas de produção e edição do jornal. Atuou como repórter especial da Folha de 2017 a 2020 e atualmente é colunista.

Colunista do UOL

04/08/2021 10h20Atualizada em 04/08/2021 20h39

O apóstolo Valdemiro Santiago recebeu nos últimos anos uma "cifra milionária" da Igreja Mundial do Poder de Deus, de acordo com o juiz Mário Roberto Negreiros Velloso.

"Há fortes indícios de que a igreja esteja transferindo seu patrimônio a Valdemiro", declarou o magistrado, destacando que a Mundial, fundada pelo líder religioso em 1998, pagou mais de R$ 1,2 milhão a ele no último ano, mais de R$ 100 mil por mês.

A afirmação, publicada no "Diário da Justiça Eletrônico" em 30 de julho, foi feita em um processo no qual J.F., proprietária de um imóvel em São Vicente, cobra uma dívida em aluguéis não pagos entre junho de 2018 e julho de 2021.

No local funciona um templo da Mundial. A dívida seria de mais de R$ 500 mil (incluindo juros, correção monetária, multas e impostos não pagos, além de honorários advocatícios).

"Com efeito, chama atenção o fato de a igreja despender, com apenas uma única pessoa [Valdemiro], quantia de altíssima monta, enquanto suas contas bancárias encontram-se desprovidas de quaisquer ativos financeiros para satisfação do débito", afirmou o juiz na decisão em que considerou que o apóstolo pode ser cobrado pela dívida da igreja.

A transferência de valores para a conta do apóstolo, segundo o magistrado, poderia ser um modo de evitar que os credores pudessem obter a penhora de valores nas contas bancárias da igreja.

Uma das maiores igrejas evangélicas do país, a Mundial passa por uma grave crise econômica, que foi agravada pela pandemia do coronavírus. A coluna localizou mais de 30 ações de cobrança contra a igreja no Judiciário paulista.

Três dias após as afirmações do juiz no processo, a Igreja Mundial entrou em acordo com a proprietária do imóvel, comprometendo-se a pagar toda a dívida, de modo parcelado, até o final do ano. O acordo foi homologado pela Justiça e o processo, suspenso.

A Mundial afirmou no processo que o apostolo não podia ser alvo da cobrança, pois não faz parte do estatuto social da igreja, tampouco assinou o contrato de locação.

Segundo a igreja, Valdemiro é apenas um líder eclesiástico e não há confusão alguma entre o seu patrimônio e o da Mundial. "São apenas suposições construídas pela mídia."

Em nota enviada à coluna, a defesa do apóstolo disse que a "Igreja Mundial tem o objetivo de pregar a palavra de Deus e que todas as igrejas do Brasil, independentemente de sua denominação, vivem e sobrevivem de ofertas, dízimos e doações".

"Infelizmente, com o advento da pandemia, todas as nossas despesas estão sendo renegociadas, inclusive aluguéis, mas, se Deus quiser, dentro em breve, com a retomada das atividades, todas as nossas despesas serão colocadas em dia, como sempre fizemos e honramos ao longo desses anos de existência", afirmou o advogado Felipe Palhares Guerra Lages.

"Sobre a alegação de confusão patrimonial, desvio de recursos e demais insinuações e alegações são totalmente infundadas, inverídicas e descabidas sem quaisquer provas carreadas aos autos. O próprio Tribunal de Justiça já se pronunciou, contrario à quebra de sigilo fiscal e bancário", declarou, na nota.

"A Política da Igreja Mundial é procurar sempre agir com ética e integridade como nos ensina o próprio evangelho de Cristo", afirmou.