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Ronilso Pacheco

Trump sabe que base de evangélicos brancos o aplaude em silêncio nos EUA

O presidente dos EUA, Donald Trump, posa com uma Bíblia em frente a igreja em Washington - Brendan Smialowski/AFP
O presidente dos EUA, Donald Trump, posa com uma Bíblia em frente a igreja em Washington Imagem: Brendan Smialowski/AFP
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

11/09/2020 04h05

Em janeiro de 2016, Donald Trump fez um discurso de campanha na capela de uma faculdade cristã, na pequena cidade de Sioux Center, do estado de Iowa. Um discurso em uma cidade com menos de 8 mil habitantes, em um estado pouco expressivo nacionalmente e que não está entre os considerados decisivos na corrida eleitoral americana.

Mas neste discurso, que poderia passar despercebido, está uma frase-chave, que, para muitos, apontou para a virada daquele candidato improvável, desqualificado até mesmo entre politicos republicanos, superasse Hillary Clinton nas eleições daquele ano.

"Os cristãos constituem a esmagadora maioria do país, e ainda não exercemos o poder que deveríamos", disse Trump. Após os aplausos, ele completa com sua promessa central: "O cristianismo terá poder. Se eu estiver lá, você terá bastante poder, não precisa de mais ninguém. Você terá alguém representando você muito, muito bem. Lembre-se disso."

O fator "evangélicos brancos" conservadores se mantém como um embaraçoso fiel da balança, que precisa ser considerado e levado à sério, para se entender a eleição americana e as condições reais de uma reeleição de Trump, mesmo em meio à aparente ascensão de Biden. O presidente confia nisso, e todas as suas declarações e posturas mostram o quanto ele confia.

É apressado imaginar que declarações nitidamente racistas, incitação da violência, ou mesmo a péssima gestão de Trump frente à covid-19 o fragilizariam a ponto de garantir uma vitória de Biden.

Uma pesquisa de julho deste ano, do Pew Research Center, apontou que nada menos do que 82% dos eleitores evangélicos brancos votariam em Trump e apenas 17% deles votariam em Biden. Oito em cada dez eleitores evangélicos brancos votariam em Trump.

O presidente não é o louco de palavras ao vento, como muitos imaginam. Ele conhece esta base, e sabe o que ela quer. Se está seguro de ignorar a violência policial contra a população negra, se nitidamente defende pessoas brancas armadas e atirando contra manifestantes antirracismo, se faz declarações racistas e deliberadamente minimiza o efeito devastador da pandemia, é porque, provavelmente, trata-se de riscos calculados. No fundo, ele sabe que sua base, em silêncio, o aplaude.

O chamado "nacionalismo cristão" continua mais forte do que nunca nos Estados Unidos, e ele tem força e ramificações que vem da mais remota formação da sociedade americana, controlando a política, defendendo a segregação, e conspirando contra a liberdade democrática para outros grupos da sociedade (negros, latinos, mulheres, gays, etc.).

O nacionalismo cristão afirma que os EUA são uma nação cristã, e que esta "identidade" deve ser defendida até a morte. Para esta crença, a identidade religiosa e a identidade nacional se sobrepõem de tal maneira que beira uma "teocracia" com aparência de Estado laico. É a defesa do que é ser "verdadeiramente americano". O que significa interditar a vida e os desejos de todos aqueles e aquelas que não fossem "legítimos".

De Trump, esperam tão somente que ele se mantenha inflexível contra a legalização do aborto, contra a ameaça à permanência de símbolos cristãos nas escolas, a indicação de nomes conservadores e ultraconservadores para a Suprema Corte, além de blindar as igrejas das cobranças de impostos, mesmo quando estas lucram, e lucram muito, com suas escolas e faculdades, muitas destas ainda hoje permanecendo praticamente segregadas (ainda que não oficialmente).

Em meio ao caos que se tem instalado no país com os sucessivos protestos de reação à violência policial, Trump, quando se posiciona, o faz em defesa da polícia, dos proprietários de estabelecimentos destruídos (na maioria das vezes, proprietários são brancos) e de igrejas depredadas. Este é o "lado certo da história" de Trump e do nacionalismo cristão.

Muitos acreditam que visitar a família de Jacob Blake, o homem negro baleado sete vezes por policiais brancos, seria uma ação de generosidade cristã do presidente, ao visitar Kenosha, onde tudo aconteceu. Mas o cristianismo do nacionalismo cristão não é exatamente o mesmo do Jesus que lava os pés dos pobres ou consola os que choram. O movimento é Lei e Ordem, para negros e imigrantes.

Recentemente, o premiado documentarista Michael Moore agitou leitores e seguidores, ao afirmar que o entusiasmo da base de Trump não "estaria nos gráficos" das pesquisas. Moore tem o crédito de ter sido um dos poucos a duvidar da vitória de Hillary, e chamar a atenção para a chegada de Trump à Casa Branca, em 2016.

Nas eleições americanas de 2020, é preciso dimensionar o papel que o nacionalismo cristão, bem como o papel dos evangélicos brancos conservadores tem como ponto de sustentação de Trump. Qualquer semelhança com o Brasil também pode não ser mera coincidência.