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Ronilso Pacheco

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Datafolha: Apoio a Lula mostra que base evangélica resiste a bolsonarismo

Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro - Amanda Perobelli/Reuters e Marcos Corrêa/Presidência da República
Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro Imagem: Amanda Perobelli/Reuters e Marcos Corrêa/Presidência da República
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

15/05/2021 04h00

Pesquisa do Instituto Datafolha divulgada nesta semana revelou a preferência de alguns segmentos quanto à eleição para presidente em 2022. O grupo que mais se destaca, em razão da expectativa em torno de sua influência, é o evangélico.

Grande parte da imprensa traduziu o resultado da pesquisa apontando que "Bolsonaro e Lula empatam entre os evangélicos". O resultado traz Lula com 35% da preferência dos evangélicos, contra 34% de Bolsonaro. Um empate técnico.

Mas eu diria que a chamada mais coerente não é "Lula e Bolsonaro empatam entre os evangélicos", mas sim "Bolsonaro empata com Lula". Assim é possível se perguntar sobre o projeto de tornar Bolsonaro um aglutinador do voto evangélico e a quem esse projeto interessaria.

Esta perspectiva é importante porque tira a condição dos dois presidenciáveis de uma suposta "igualdade", como se ambos tivessem construído afinidade e adesão da base de um segmento de maneira orgânica. Evidentemente não é isso.

Lula sempre transitou em bons números entre os evangélicos das classes mais populares, principalmente pentecostais. Isso tinha pouco a ver com sua mensagem religiosa e muito por uma capacidade singular de conexão com os mais pobres e as características de suas políticas, de maior apelo popular e ênfase nos mais pobres.

O movimento "evangélicos com Lula" acompanha o ex-presidente desde sua primeira candidatura, quando Benedita da Silva, deputada federal (PT-RJ) evangélica, era uma de suas principais articuladoras já na década de 90.

Evangélicos progressistas sempre acompanharam Lula, que possui uma crescente base popular pentecostal, incluindo lideranças comunitárias e de movimentos rurais.

Sim, é verdade que os "barões da fé", como Silas Malafaia e Edir Macedo, também apoiaram Lula em outros tempos. No entanto, o jogo deles envolvia basicamente poder, dinheiro, influência e benefícios pessoais.

E, claro, também envolvia algum falso moralismo, como o permanente ataque à comunidade LGBTQI e a histeria em torno do aborto, em nome de uma tal defesa da família.

Esse grupo segue, desde a ditadura militar, bajulando o poder —seja lá quem fosse ou quem tivesse chances de chegar lá. Pela manutenção do poder, orbitaram em torno não apenas de Lula, mas de FHC, de Collor, Sarney. Quem quer que fosse.

Mas Bolsonaro não veio dessa organicidade ou desse carisma. Bolsonaro se tornou um produto do campo ultraconservador e fundamentalista evangélico. Ele é peça fundamental de um projeto de controle e imposição de uma supremacia cristã fundamentalista no país.

Quando Bolsonaro surge em 2018, aglutina todo esse núcleo que viu a chance de ter na presidência alguém que não hesitaria em impor a fé cristã conservadora como orientadora de política de Estado.

Em 2018, pesquisas apontavam Bolsonaro com vantagem sobre Lula (na ocasião, a candidatura do petista aguardava decisão judicial). Levantamento do Instituto Big Data, encomendado em julho daquele ano pela revista Veja, mostrava Bolsonaro com 25% entre os pentecostais, e Lula 24%. Entre os batistas, Bolsonaro aumentava a vantagem, com 28% contra 22% de Lula.

A vitória de Bolsonaro veio com apoio determinante do campo evangélico, e uma visão distorcida dos fatos atribui essa vitória aos pentecostais e neopentecostais. Mas a última pesquisa Datafolha corrobora que, muitas vezes, há um fosso entre a liderança evangélica religiosa, incluindo os mega pastores e sua base.

Bolsonaro foi implantado por um projeto que está decidido a transformar o Brasil numa "teocracia democrática", isto é, a democracia opera até que o cristianismo conservador do Estado não seja questionado.

Com Bolsonaro estão os conhecidos nomes de sempre do fundamentalismo evangélico e da bancada evangélica, mas também um grupo calvinista ultraconservador que está pouco interessado em concessões de TV ou isenção de dízimos. Importa mesmo é que o presidente tenha mão firme e frieza para defender o Brasil do que eles consideram a tal "cristofobia".

É por conta desse projeto que Bolsonaro empata com Lula entre os evangélicos. Mas vocês precisam entender. Uma base popular e uma liderança evangélica e suas igrejas comprometidas com a democracia, a justiça e a garantia de direitos e igualdade estão prontos para votar contra esse projeto de destruição da política para todos e todas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL