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Thaís Oyama

Bolsonaro mira novo militar vice em 22, para animar Exército e frear Mourão

O presidente pensa em resolver dois problemas com um vice só em 2022 - Marcos Corrêa/Presidência da República
O presidente pensa em resolver dois problemas com um vice só em 2022 Imagem: Marcos Corrêa/Presidência da República
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

13/11/2020 09h56

Até recentemente, havia apenas dois perfis possíveis para o candidato a vice na chapa de Jair Bolsonaro para 2022. O escolhido seria uma liderança evangélica ou um político do Centrão. Com isso estavam de acordo o presidente, seus familiares e assessores mais próximos.

Circunstâncias, porém, fizeram com que o grupo adicionasse ao catálogo de vices uma terceira categoria — a dos militares, atualmente a preferida de Bolsonaro. Essas circunstâncias incluem a deterioração da relação de Bolsonaro com o Exército e a ascensão ameaçadora do vice, Hamilton Mourão, como possível candidato e portanto rival na disputa pela reeleição.

Se a relação entre o presidente e as Forças Armadas, o Exército em especial, há tempos já andava fria, ela ficou gelada depois da sucessão de humilhações impingidas a ministros generais — Luiz Eduardo Ramos foi chamado de "maria fofoca" pelo ministro Ricardo Salles e Eduardo Pazuello viu-se publicamente desautorizado pelo presidente no episódio do anúncio da compra da vacina de patente chinesa.

Ver representantes da Força — da ativa inclusive, como é o caso de Pazuello— serem fustigados em praça pública fez o Alto Comando do Exército cerrar os dentes e oficiais da reserva quedarem-se apopléticos. Militares alocados no núcleo do Palácio do Planalto não esconderam o mal-estar: alguns chegaram a ser cobrados por colegas de farda e familiares para deixar o governo. E isso foi antes de Bolsonaro falar em substituir "a saliva por pólvora". A patética ameaça presidencial de declarar guerra aos Estados Unidos cobriu os militares de vergonha.

A presença de um general de alto coturno na chapa do ex-capitão seria uma forma de o presidente se reabilitar junto à categoria e, ao mesmo tempo, mostrar à população que as Forças Armadas continuam ao seu lado.

Uma segunda circunstância reforçou a oportunidade da ideia —e essa tem nome. Chama-se Hamilton Mourão.

O vice já negou publicamente e de pés juntos a intenção de concorrer contra o atual chefe na eleição para a Presidência da República.

Mas Bolsonaro não acredita e tem lá seus motivos. O presidente fica furioso a cada vez que vê o general ocupar generosos minutos na TV a pretexto de "explicar" o que ele disse no dia anterior.

Estrategistas do Palácio não desprezam a viabilidade eleitoral de Mourão. Num momento em que nenhum nome do campo da centro-direita se apresentou ainda, o vice teria chances de ocupar esse lugar. Entre os seus ativos, estariam o preparo, o trânsito entre o empresariado e a simpatia que boa parte do eleitorado de direita nutre por representantes das Forças.

Assim, na visão desses estrategistas, nada cairia melhor do que a ideia de inserir algumas estrelas na chapa do ex-capitão. Contra um general, outro general.

Mesmo porque, na batalha em curso, o comandante parece um tanto atordoado.