PUBLICIDADE
Topo

Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Centrão tem Bolsonaro atravessado na garganta, mas não vai cuspi-lo agora

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

22/03/2021 12h09

As coisas se precipitaram.

Que o casamento do Centrão com Jair Bolsonaro era uma união sem amor, e duraria apenas o tempo que durassem as conveniências, já se sabia. A autorizar a constatação está o histórico do bloco de partidos — que apoiou os ex-presidentes Lula, Dilma e Temer e abandonou os últimos dois assim que sentiu cheiro de sangue.

Mas o comportamento de Bolsonaro diante da pandemia, suas recentes investidas populistas na economia e a iminência da volta de Lula ao palco de 2022 fizeram o humor do bloco se voltar mais cedo contra Jair Bolsonaro.

Representantes do PP, PL, PTB e Republicanos, alguns dos partidos que compõem o centrão, comungam da percepção (de resto partilhada por todo mundo tirando o presidente) de que a economia só terá chances de se recuperar com uma campanha de vacinação massiva e eficiente. E à parte à preocupação com os destinos do país, suas excelências não desejam ver respingar em suas cabeças a tragédia das mortes pelo coronavírus - com os prejuízos eleitorais que isso possa causar (os diretos e os dos setores que elas representam e que as patrocinam).

Com suas muitas milhas de águas navegadas, o centrão sabe que a crise tem um nome e esse nome é Jair Bolsonaro. Sabe também que a entrada do ex-presidente Lula na raia eleitoral tem a capacidade de mudar a maré, e ameaçar ainda mais as chances de reeleição do ex-capitão.

Mas, mesmo com tudo isso, é certo que o bloco mais notório da Câmara não abandonará o barco de Bolsonaro agora e nem se movimentará pelo seu impeachment. Como diz um parlamentar conhecedor do ethos do centrão, "o apego dessa turma por cargos e emendas é maior que a responsabilidade para com o país".

Além disso, lembra o político, "governos frágeis são um prato cheio para eles". Os tubarões do centrão, como fizeram com Dilma Rousseff, preferirão "sorver até a última gota o sangue de Bolsonaro".

E só então, quando, e se, as ruas se incendiarem e a economia colapsar, cuspirão o que restou dele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL