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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

"Impedrejável", Bolsonaro evita falar em corrupção e mira "comunistas"

Bolsonaro e seus apoiadores: ajudando o pessoal "a voltar a qualquer custo" - Reprodução/Foco do Brasil
Bolsonaro e seus apoiadores: ajudando o pessoal "a voltar a qualquer custo" Imagem: Reprodução/Foco do Brasil
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

14/06/2021 11h22

"Eles querem voltar a qualquer custo", alertou o presidente Jair Bolsonaro à claque cativa que mantém no cercadinho do Palácio da Alvorada.

"Eles" são a turma que "dominava o Brasil", incluindo o "pessoal do nove dedos" e toda gente "mal acostumada aí".

Com a proximidade das eleições, Bolsonaro, que nesta manhã se declarou "impedrejável", voltou a atacar o PT.

Por razões de rabo preso, porém, tem tomado o cuidado de evitar relacionar o partido de Lula à prática da corrupção (vai que um engraçadinho resolve fazer piada de mau-gosto com membros da sua família ou a ficha corrida de aliados do Centrão).

Assim, o presidente que prometeu em seus primeiros meses de governo "acabar com o co-co" (corrupção e comunismo), prefere agora enfatizar apenas o "comunismo" — aqui entendido não como a doutrina política sobrevivente apenas na Coreia do Norte e lembrada de vez em quando em centros acadêmicos de faculdades de ciências sociais, mas como um xingamento genérico para tudo o que for "de esquerda".

"O que nós estamos enfrentando é uma luta espiritual. É só olhar para o outro lado, as pautas que eles defendem. É aborto, ideologia de gênero, o fim das liberdades", disse ontem em uma live o líder de um dos movimentos conservadores que apoiam Bolsonaro.

"Drogas!", interrompeu o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, convidado do evento. "Eles defendem as drogas! Defendem a proibição e o fechamento e a destruição de igrejas!"

"E doses 'seguras' de crack", completou o terceiro bolsonarista, que se auto-define como "anti-comunista e anti-socialista".

Os organizadores da live pertencem a um movimento dito conservador que tem 197 mil seguidores no Twitter e acredita que o arquibilionário George Soros lidera uma conspiração para dominar o mundo (já propuseram inclusive a criação do "Dia Global contra George Soros"). O movimento, que certa vez "decretou" a "destituição" dos ministros do STF, organiza uma vez por ano um encontro de ditos conservadores de todo o Brasil, em que metade dos palestrantes ou já responde a inquéritos por disseminação de fake news ou há de responder em breve.

O bolsonarismo igualou "conservadorismo" a retrocesso civilizatório.

O bolsonarismo desmoralizou a direita.

Mas seu baixo nível, sua obtusidade e seu mau-gosto são a melhor coisa que a esquerda poderia pedir a Deus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL