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Bolsonaro mente ao dizer que não negligenciou vacinas contra covid

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarou em mais de uma ocasião que não pretendia ser vacinado contra a covid-19 - UOL Confere
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarou em mais de uma ocasião que não pretendia ser vacinado contra a covid-19 Imagem: UOL Confere

Juliana Arreguy

Do UOL, em São Paulo

22/03/2021 16h45Atualizada em 08/05/2021 14h42

O governo de Jair Bolsonaro mentiu ao dizer que não negligenciou a compra de vacinas contra covid-19. O UOL Confere analisou postagem feita em 21 de março pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República) no Twitter — e republicada neste sábado (8) — afirmando que o governo federal busca a imunização desde março de 2020.

O conteúdo foi feito em forma de posts e vídeos publicados no Twitter e no Telegram da Secom, de Bolsonaro e de aliados do presidente. Ainda em março, Bolsonaro usou as mesmas falas em discurso em rede nacional, apontando que 2021 será "o ano da vacinação dos brasileiros".

No entanto, por reiteradas vezes o chefe do Executivo desacreditou a vacinação como forma de combate à covid-19. Além disso, seu governo tomou atitudes que atrasaram a compra de imunizantes e o calendário de vacinação no país.

Em 23 de março, data do pronunciamento de Bolsonaro sobre a vacinação, o Brasil teve 3.158 mortos pela covid em 24 horas. Foi a primeira vez da marca alcançada num mesmo dia. Enquanto isso, a vacinação continuava em ritmo lento, com apenas 6% da população imunizada.

Os fatos apresentados na rede social, embora verdadeiros, foram retirados de contexto. Confira, abaixo, as frases analisadas pelo UOL Confere de acordo com a cronologia apresentada pelo setor de comunicação do governo.

06/08/20: Presidente assina MP de R$ 1,9 bilhão para a vacina.
Secretaria de Comunicação da Presidência da República no Twitter

Em julho de 2020, um mês antes, o governo recusou oferta de compra de 160 milhões de doses da CoronaVac. O fato foi revelado pelo presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, em fevereiro deste ano. A oferta foi feita novamente em agosto, outubro e dezembro, sem resposta da pasta.

Já em agosto —mês em que foi assinada a medida provisória para a compra de vacinas—, o governo recusou três ofertas feitas pela farmacêutica norte-americana Pfizer para a compra de até 70 milhões de doses do imunizante, alegando que cláusulas do contrato eram abusivas.

Os mesmos termos foram aceitos por outros países que compraram o imunizante, como Estados Unidos, Colômbia, Chile, Reino Unido, Japão e Equador, além da União Europeia.

10/09/20: OMS convida Brasil para coalizão mundial pela vacina.

O Brasil só aderiu à iniciativa meses depois, mas de início ficou de fora da ação mundial e não participou da primeira reunião, realizada em maio de 2020. Com isso, também não recebeu as primeiras levas das vacinas distribuídas por meio do consórcio internacional.

No mês de setembro, Bolsonaro incorporou em seus discursos a defesa ao direito de não querer se vacinar. Órgãos oficiais de comunicação do governo, como as redes sociais da Secom, também foram utilizados para propagar a argumentação.

Em outubro, o governo ignorou pedido do Tribunal de Contas da União para que apresentasse um plano de vacinação da população brasileira.

Dias depois, Bolsonaro desautorizou o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, e rejeitou a compra de 45 milhões de doses da CoronaVac até dezembro de 2020 e outros 15 milhões no primeiro trimestre de 2021. Isso garantiria ao menos 60 milhões de doses na primeira fase de vacinação.

O imunizante desenvolvido em São Paulo tornou-se alvo de briga política entre o governador do estado, João Doria (PSDB), e o presidente da República.

Em novembro, Bolsonaro celebrou a suspensão, por dois dias, dos testes da CoronaVac, para que fossem averiguadas possíveis relações da substância com a morte de um voluntário. O óbito, apurado pelo UOL, não teve relação com a vacina.

16/12/20: Presidente apresenta Plano Nacional de Vacinação.

Em 12 de dezembro, quatro dias antes da data apontada pela secretaria de Comunicação, o governo apresentou um plano impreciso e incompleto de vacinação, atendendo a pedido do STF (Supremo Tribunal Federal), sem definir datas para início e término da campanha. Um grupo de cientistas contestou o fato de aparecerem como signatários do documento.

No dia 15, em entrevista à Band, Bolsonaro declarou que não tomaria a vacina contra covid-19.

17/12/20: MP libera mais R$ 20 bilhões para vacinas.

No mesmo dia, o presidente voltou a dizer que não tomaria vacina, por já ter contraído a doença, e ironizou possíveis efeitos colaterais do imunizante produzido pela Pfizer, dizendo que pessoas podem virar "jacaré".

Em 20 de dezembro, durante entrevista concedida ao filho Eduardo, Bolsonaro disse que a pandemia estava chegando ao fim "A pressa pela vacina não se justifica".

No dia 11 de janeiro de 2021, em meio ao colapso do sistema de saúde de Manaus, Pazuello ironizou a vacinação ao ser cobrado sobre prazos, dizendo aconteceriam "no dia D, na hora H".

O país teve dificuldades para liberar uma carga de 2 milhões de doses da vacina de Oxford, produzida pelo governo da Índia em parceria com o instituto indiano Serum. O atraso afetou a produção brasileira de imunizantes, realizada pela Fiocruz.

18/03/2021: Mais de 562 milhões de doses compradas, sendo 25,2 milhões já entregues aos estados.

No mesmo dia, o UOL publicou uma reportagem sobre impasses que atrasam o cronograma de vacinação no país, incluindo o anúncio de compra de 68 milhões de doses de vacinas ainda não aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Enquanto ministro, Pazuello já reduziu a previsão de distribuição de vacinas quatro vezes só no mês de março. A princípio, seriam 46 milhões de doses até o fim do mês. Após três correções, o general declarou que devem ser entregues entre 22 milhões e 25 milhões de doses.

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