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6 meses

Bolsonaro mente sobre ações na pandemia e cita 2021 como "ano da vacinação"

Rafael Bragança e Sara Baptista

Do UOL, em São Paulo

23/03/2021 20h40Atualizada em 24/03/2021 17h32

O presidente Jair Bolsonaro recorreu na noite desta terça-feira a um pronunciamento em rede nacional para falar das ações de seu governo no combate à pandemia, mas mentiu ao exaltar tudo o que fez na tentativa de garantir a compra das vacinas.

No momento de sua fala, foi alvo de panelaços em várias cidades do Brasil. Hoje o país bateu um novo e triste recorde: 3.158 pessoas morreram pela covid em 24 horas.

O discurso também marca uma mudança de tom, com a defesa da imunização, ao dizer que "2021 será o ano da vacinação dos brasileiros". Em posicionamentos anteriores, Bolsonaro havia minimizado a gravidade da pandemia, tendo usado o termo "gripezinha" para se referir à doença, em março do ano passado.

Por reiteradas vezes, o presidente já desacreditou a vacinação como forma de combate à covid-19. Além disso, seu governo tomou atitudes que atrasaram a compra de imunizantes e o calendário de vacinação no país.

No pronunciamento de três minutos, o presidente falou da liberação de R$ 1,9 bilhão para vacinas em agosto, mas omitiu a demora em fechar o acordo com o Instituto Butantan para a produção da CoronaVac, tendo inclusive recusado oferta de compra de 160 milhões de doses. A proposta foi feita novamente em agosto, outubro e dezembro, sem resposta da pasta.

Em outubro, o governo também ignorou pedido do Tribunal de Contas da União para que apresentasse um plano de vacinação da população.

Dias depois, Bolsonaro desautorizou o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, e rejeitou a compra de 45 milhões de doses da CoronaVac até dezembro de 2020 e outros 15 milhões no primeiro trimestre de 2021. Isso garantiria ao menos 60 milhões de doses na primeira fase de vacinação.

Sobre a Pfizer, que agora teve a compra negociada e exaltada pelo presidente, o governo federal recusou três ofertas feitas pela farmacêutica, alegando que cláusulas do contrato eram abusivas.

Bolsonaro ainda citou acordos pela Covax Facility, que ajuda na distribuição de vacinas pelo mundo. Contudo, o Brasil só aderiu à iniciativa meses depois de seu início, ficando de fora da primeira reunião, realizada em maio de 2020. Com isso, também não recebeu as primeiras levas das vacinas distribuídas por meio do consórcio internacional.

"Sempre afirmei que adotaríamos qualquer vacina desde que aprovada pela Anvisa, e assim foi feito. Hoje somos produtores de vacina em território nacional. Em poucos meses, seremos autossuficientes na produção de vacinas", disse.

Mas o país teve dificuldades para liberar uma carga de 2 milhões de doses da vacina de Oxford, produzida pelo governo da Índia em parceria com o instituto indiano Serum. O atraso afetou a produção brasileira de imunizantes, realizada pela Fiocruz.

Em março, o UOL publicou uma reportagem sobre impasses que atrasam o cronograma de vacinação no país, incluindo o anúncio de compra de 68 milhões de doses de vacinas ainda não aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Bem diferente do que propagandeou Bolsonaro hoje, dizendo que só comprou vacinas liberadas pela agência reguladora.

Além disso, o Ministério da Saúde já reduziu a previsão de distribuição de vacinas diversas vezes, a última delas hoje.

Desta vez, Bolsonaro não citou medicamentos como a cloroquina, comprovadamente ineficaz contra a covid-19, ou o tratamento precoce, que, segundo especialistas, não existe. E se solidarizou com as famílias das vítimas do coronavírus.

"Não sabemos por quanto tempo teremos que enfrentar essa doença, mas a produção nacional vai garantir que possamos vacinar brasileiros todos os anos, independente das variantes que possam surgir", afirmou Bolsonaro.

Comparação com outros países

O presidente disse ainda, de maneira correta, que o país hoje é a quinta nação que mais aplicou doses de vacinas contra a covid-19 no mundo. Bolsonaro, entretanto, não mencionou que há quase 60 países na nossa frente quando consideramos o número de doses em relação à população de cada nação.

No ranking atualizado do Our World In Data, o Brasil é apenas o 58º país no mundo que mais aplicaram doses para cada 100 habitantes, com 6,7 doses. Na nossa frente estão países vizinhos como Uruguai (10 doses) e Argentina (7,1). Na América do Sul, o Chile figura entre os dez países que mais vacinaram, com 47 doses para cada 100 chilenos.

O ranking é liderado por Israel, com 110 doses a cada 100 habitantes. O país tem hoje mais da metade dos seus habitantes com o ciclo de imunização completos, tendo recebido duas doses.

Entre as dez nações que mais vacinaram por habitantes, também estão os Estados Unidos (38 doses), que fazem um esforço de imunização desde que o presidente Joe Biden assumiu o cargo, em janeiro. Em 59 dias sob sua Presidência, o país já aplicou 100 milhões de doses. No Brasil, apenas 6% da população está imunizada.

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