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Cotidiano

Santiago tinha medo de cobrir protestos, lembra amigo cinegrafista

Gustavo Maia

Do UOL, no Rio

13/02/2014 09h52Atualizada em 13/02/2014 13h32

Santiago Ilídio Andrade, 49, “era um cara bem alegre, que brincava com todo mundo” e que não gostava de cobrir manifestações. Foi assim que Edeilton Macedo, cinegrafista da Band há 13 anos, lembrou do colega durante o velório que acontece nesta quinta-feira (13), no cemitério do Caju, na Zona Portuária da capital fluminense, quatro dias depois da manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus, no centro do Rio, na qual Andrade foi atingido fatalmente na cabeça por um rojão.

Veja o momento em que Santiago é atingido

“Ele era muito precavido, cuidadoso, mas tinha até medo de cobrir protestos. E olhe que ele também cobria conflito em morros”, disse Macedo.

O cinegrafista conta que desde sexta-feira (7), quando chega ao prédio da emissora, olha para o lugar onde o colega e amigo costumava sentar quando estava na redação. “Não dá pra acreditar. Acho que minha ficha ainda não caiu”, disse. “Eu trabalhava no período anterior ao dele. No dia que aconteceu [6 de fevereiro], antes de chegar na Band, ele desviou do caminho dele para me dar carona e me deixar em casa.”

O cinegrafista da Band Sérgio Colonesi, que entrou na emissora na mesma época que Santiago, também ressaltou que o colega evitava correr riscos. "As pessoas dizem que nós, cinegrafistas, abusamos um pouco [do perigo]. O Santiago era o contrário. Ele era cauteloso. Quando ele chegava num local e estava tendo um tiroteio, ele ficava longe. Se tinha uma confusão, ele ficava longe. Ele dizia: 'eu não tô aqui pra tomar pancada de ninguém, vou só fazer as imagens que é pra fazer'".

De acordo com a repórter Camila Grecco, também da Band, que está participando da cobertura do velório, Santiago “sempre se preocupava com a equipe”. “Se ele soubesse que estava numa situação de muito risco, ele jamais estaria ali”, declarou, entre lágrimas, a jornalista, que fez diversas reportagens em parceria com o cinegrafista.

Também amigo de Santiago, o repórter da Band Alexandre Tortoriello falou aos colegas que pediu para participar da cobertura do velório e da cremação do cinegrafista “em homenagem a ele”. “O momento mais difícil que eu tive na minha carreira foi anunciar ao vivo a morte do Santiago. Eu achei que não fosse conseguir, a voz embargou”, lembrou o jornalista.

Ao comentar a ação dos black blocs no caso, ele ressaltou que "não se pode fazer jornalismo com o fígado, e sim com a cabeça". "É muito difícil se distanciar nesse momento, mas não dá pra querer vingança", disse.

Já o diretor nacional de jornalismo da Band, Fernando Mitre, não poupou críticas aos chamados aos manifestantes. "Não se pode imaginar que um grupo de mascarados seja representante de alguma coisa legítima", declarou. "Não vamos descansar enquanto não se fizer o jornalismo crítico que precisa ser feito. Tem que se descobrir o que está por trás disso", afirmou.

O jornalista lamentou a morte do cinegrafista e disse que ela foi "uma tragédia que poderia ter sido evitada caso algumas providências tivessem sido tomadas". "É lamentável que haja uma tragédia para se tome providências."

Melhores condições

Entre os jornalistas que foram ao cemitério do Caju, um dos assuntos mais recorrentes foi a falta de condições de trabalho adequadas enfrentada pelos cinegrafistas da Band no Rio de Janeiro. A falta de um auxiliar, que faz com que os cinegrafistas da emissora acumulem a função, e ainda tenham que dirigir os carros de reportagem, foram criticadas por muitos colegas de Santiago.

De acordo com o cinegrafista Edeilton Santos, Santiago era um dos funcionários que mais reclamava da ausência de assistente. “Já tem uns cinco anos que nós não temos assistente. Estamos brigando por isso”, afirmou.

A morte de outro cinegrafista da emissora, Gelson Domingos da Silva, em novembro de 2011, também foi lembrada. “O Gelson também estava sem auxiliar. É o segundo que morre assim em quase três anos. O Santiago sentiu muito a morte dele”, disse Edeilton.

Alguns colegas de Santiago chegaram ao Cemitério do Caju vestindo uma camisa com um desenho do cinegrafista, sentado em uma nuvem com uma câmera no ombro e dizendo "uau, que ângulo". Na parte de trás, uma mensagem de alerta: "Poderia ter sido qualquer um de nós".

A filha de Santiago, a jornalista Vanessa Andrade, disse em um desabafo aos amigos e familiares que estavam no local que cobraria melhores condições de trabalho da direção da emissora. "Não vou deixar o nome do meu pai em vão. Não vou deixar essa história morrer. Já falei com o Daruiz [Paranhos, diretor-geral da Band Rio] que quero, ou melhor, que vou exigir que a Band dê segurança aos seus funcionários", declarou, após agradecer a presença e o apoio de todos os presentes.  

Carta 

Durante o velório, funcionários da Band leram uma carta em homenagem a Santiago. Confira a íntegra:

"Era um homem de sorriso largo e fácil. De longos abraços. E de passos lentos. Gostava de falar com a gente olhando no olho. Colocava a mão na nossa cintura. Uma voz doce. Não era de grito, nem de falar rápido. Cuidava da imagem como cuidava da gente. Com muita delicadeza. Todo dia a mesma rotina. Chegava... se benzia antes de entrar na redação e cumprimentava um a um. Um ritual que começava lá embaixo... recepcionistas, seguranças, o povo da faxina, a galera do estúdio... por isso é uma perda tão difícil de engolir. Porque ele era diferente... especial nos detalhes. Se empolgava com uma matéria nova, pedia pra continuar na história... Ia na chefia mexendo as mãos e falando... me deixa nessa matéria... tô com o Torto. Mas, seguia direto pra produção para avisar as meninas que já tinha pedido... sempre com tanta doçura. Ligava da Argentina rindo, perguntando se já tínhamos visto ele dançando com a Camila. Ou se emocionava com as crianças mortas na Tasso da Silveira. Seguia feliz para qualquer viagem... Adorava pegar a estrada em busca de uma matéria: "pode me colocar que eu vou". E ia feliz. Chegava e contava: a Camila é maluca... tem muita raça. Viu o que ela fez? No dia seguinte estava todo bobo com a matéria da Nati. Porque era assim... ele se apaixonava por todos os repórteres... pelas matérias que faziam juntos... pela rapaziada que estava começando na profissão. Adotava um pra tomar conta, depois se encantava com outro. Mas, nunca abandonava as crias antigas. Tem uma legião de jovens, e não tão jovens, jornalistas sem chão. Era padrinho desta galera, para alguns um paizão. E fazia questão de ser. Sem nenhuma vaidade, com uma humildade desconcertante. Amor mesmo... amor que estava presente no dia a dia da redação, na rua... ou na cervejinha do fim do dia. No beijo carinhoso que dava na gente no início ou no fim da jornada. Porque não ia embora sem se despedir... agora foi. E a gente não consegue entender o porquê. Não se despediu. Foi tão rápido. Tão injusto. Não deu tempo. Está todo mundo esperando o abraço apertado... o beijo estalado... mas não vem. Ninguém é assim de graça. Nossa personalidade vai sendo moldada por aqueles que estão à nossa volta. Pelo que damos e recebemos. No caso do Santi, pelo amor que ele dava e recebia. Por isso, agradecemos à família Andrade. Por ter aceitado dividir conosco esse cara maravilhoso. Um presente que Deus e, por tabela, vocês colocaram no nosso caminho. Ele é, sim, inesquecível! Nas ruas, jovens de comportamento violento dizem que são sonhadores. Querem mudar o mundo. E conseguiram... O mundo se tornou um lugar muito pior sem Santiago Ilídio Andrade. Santi... tá duro demais. É uma falta absurda. Nos faltam imagens e palavras. Nos falta você!" 

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