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Rio: nas favelas, quase 70% veem falência de UPPs, mas maioria quer permanência

Márcia Foletto/Agência O Globo
Imagem: Márcia Foletto/Agência O Globo

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

2017-08-22T10:00:00

22/08/2017 10h00

Prestes a completar dez anos, o projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) passa por seu pior momento. Com 38 unidades em diferentes comunidades do Rio de Janeiro e cerca de 10 mil policiais, o programa enfrenta críticas de moradores, denúncias de abuso policial e falta de recursos; entre os dez bairros com mais tiroteios na cidade do Rio, oito são ocupados pela polícia.

De acordo com o estudo "UPP: Última Chamada -Visões e expectativas dos moradores de favelas ocupadas pela Polícia Militar na cidade do Rio de Janeiro", realizado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, 66% dos moradores consideram que a UPP é um “projeto falido”. Ao mesmo tempo, 59,7% defendem a manutenção da ocupação da polícia, desde que com mudanças.

A maior parte dos moradores que desejam a permanência das UPPs vivem em favelas da zona sul, são brancos, tem 35 anos ou mais e nunca foram revistados pela polícia. Entre os 35,4% que pedem a saída dos PMs das comunidades, destacam-se os moradores das comunidades na zona oeste e aqueles que já tiveram suas casas revistadas.

Também chama atenção a indiferença relatada pelos moradores frente aos benefícios trazidos pelo programa. Ao serem questionados sobre os aspectos tanto negativos quanto positivos da ocupação da polícia, entre 55% e 68% disseram que as UPPs "não fizeram diferença".

Para os pesquisadores, o atual momento de descrédito “reforça a sensação de que as ações foram projetadas para durar até as Olimpíadas e que a política de confronto, reforçada pela retórica de ‘guerra às drogas’, voltou a ser a tônica da política de segurança pública no Estado” em contraponto à ideia de policiamento de proximidade defendida pelas UPPs no início.

Entre os principais aspectos positivos elencados pelos moradores, destacam-se o acesso a serviços públicos e privados, obras de infraestrutura, projetos sociais e liberdade de ir e vir. Entre os problemas, aumento dos alugueis, roubos, furtos e estupros e, em especial, os tiroteios.

Levantamento feito pelo UOL com base nos dados do aplicativo Fogo Cruzado, da Anistia Internacional, mostrou que, desde o começo do ano, ao menos uma pessoa perdeu a vida a cada dois dias em decorrência de conflitos armados nas favelas ocupadas pela polícia.

“Antigamente você sabia quando ia ter um tiroteio, quando ia ter uma operação, qualquer coisa do tipo. Hoje em dia você não sabe. Você sai e não sabe se vai poder voltar (...). Quando a polícia entrava, a gente já sabia que a polícia estava entrando, então a gente ficava dentro de casa, se [protegia] da melhor forma. Agora, com a UPP, não. Corre o risco constante. Eu vou na padaria comprar um pão e do nada pode acontecer algum tiroteio” (morador de favela com UPP)”, afirmou um morador ouvido pelo estudo.

Segundo os pesquisadores, é possível perceber uma demanda pela retomada ao projeto original das UPPs. Os moradores, segundo o estudo, pedem um aprofundamento da polícia de proximidade, em que eles sejam vistos como "atores e interlocutores das políticas públicas implementadas nas favelas".

"Durante muito tempo a avaliação sobre o sucesso das UPPs se concentrou no controle dos territórios, redução da violência letal e diminuição dos tiroteios, deixando em segundo plano a necessária reforma institucional da polícia", diz Leonarda Musumeci, uma das coordenadoras da pesquisadora.

O próprio secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, reconheceu recentemente que a UPP foi uma tentativa “ousada demais” e que é preciso reformulá-la. 

Em entrevista na tarde de segunda-feira (21), quando uma operação integrada entre Forças Armadas de polícias prendeu 39 suspeitos em sete comunidades e deixou quase 27 mil estudantes da zona norte sem aula, Sá afirmou que a população deve apoiar as UPPs, mesmo com problemas enfrentados nas áreas onde estão instaladas.

"Reconhecemos que não tem o mesmo resultado de 2008 e 2009. A UPP, mesmo com problema, merece apoio. Nosso dever é não desistir. Se o crime aumentar na sua área, você vai pedir polícia e não que não haja polícia. Em breve, teremos notícia do que vamos fazer com as UPPs e o policiamento", afirmou o secretário.

A pesquisa ouviu com 2.479 moradores de favelas ocupadas pela polícia em toda a cidade entre agosto e outubro de 2016. A margem de erro é de 4%.

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