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PF se infiltrou em reunião e monitorou cidadãos nos atos de junho de 2013

20.jun.2013 - Manifestantes em confronto com PMs durante protesto contra a Copa das Confederações, no Congresso Nacional, em Brasília - Ueslei Marcelino/Reuters
20.jun.2013 - Manifestantes em confronto com PMs durante protesto contra a Copa das Confederações, no Congresso Nacional, em Brasília
Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Marco Britto

Do UOL, em São Paulo*

11/09/2019 04h01

A Polícia Federal (PF) acompanhou atentamente as movimentações dos protestos no Brasil em junho de 2013, quando milhares foram às ruas pedir melhorias nos transportes, educação e diversos outros temas em uma série de manifestações.

Documentos até então secretos, e agora revelados pelo Fiquem Sabendo, agência de dados independente e especializada na Lei de Acesso à Informação, mostram a ação de agentes infiltrados em uma reunião de um dos movimentos e também como observadores nos protestos.

Líderes são identificados, documentos de cidadãos compartilhados, eventos de Facebook, opiniões, carros usados pelos manifestantes e detalhes dos atos são descritos nos relatórios examinados pelo UOL.

Os black blocks, grupos dedicados à depredação de bancos e lojas, também estiveram sob escrutínio dos agentes da lei. Documento de 14 de junho de 2013 menciona a máscara inspirada no filme "V de Vingança", e expõe fotos de manifestações no Rio e em São Paulo.

Os "grupos violentos", como classifica a PF, são descritos com média de 25 anos de idade e líderes mais velhos.

Um memorando informa detalhes de uma reunião no Instituto de Filosofia, no centro do Rio. O documento cita a presença de "aproximadamente 600 pessoas no salão nobre" da instituição e os temas discutidos no encontro, destacando o desejo dos manifestantes de "paralisar a cidade".

A Polícia Federal afirmou ao UOL, por meio de sua Divisão de Comunicação Social, que agiu legalmente, cumprindo seu trabalho. Também argumentou que usou informações públicas em documentos reservados que não apontam a prática de nenhum crime.

Os documentos, reforçou a corporação, contêm o aviso de que serviam somente para orientar os trabalhos e sequer poderiam ser usados em processos judiciais e administrativos.

"Cenas de guerra"

Um dos relatórios descreve episódios violentos no Rio no dia 17 de junho daquele ano. "Uma parte dos policiais militares ficou acuada na [Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro] Alerj enquanto outra parte corria. Essa minoria de manifestantes (em torno de 400), que praticou atos de vandalismo, demonstrou-se realmente muito perigosa".

"Ainda na rua São José, alguns manifestantes viraram um veículo, ateando-lhe fogo em seguida. Ato continuo, uma tubulação de gás foi explodida, o que, semelhante a cenas de guerra, gerou uma enorme labareda."

Os agentes da PF observaram inclusive a falta de preparo da Polícia Militar (PM) para controlar a manifestação.

"Pôde ser verificado que o aparato policial para acompanhamento da passeata não estava adequado, uma vez que só havia policiais militares do 50º BPM, possivelmente recrutas, aparentemente sem preparação para esse tipo de situação e sem qualquer apoio para reforço uma vez que ficaram cercados."

"Aparentemente, a má repercussão devido ao emprego de tropas de choque em manifestações anteriores, resultou na decisão de não serem utilizadas tais tropas."

Dias antes, durante protestos na avenida Paulista, em São Paulo, uma repórter da Folha de S.Paulo foi atingida com um tiro de bala de borracha no olho, entre outros atos de violência policial relatados pela mídia.

Líder trouxe "vários problemas"

Em documento que informava uma manifestação no Galeão, aeroporto internacional do Rio, prevista para o dia 21 de junho, um líder do Sindicato Nacional dos Aeroviários é citado como alguém que já trouxe "vários problemas" à Infraero.

O papel traz um documento da pessoa citada impresso, porém para a divulgação obtida pela imprensa, o nome está coberto por tarjas.

Mapa das manifestações

"Os discursos e as pautas de simpatizantes e manifestantes não se resumem mais ao simples aumento dos preços das passagens de ônibus, mas já incluem temas como corrupção, gastos com grandes eventos e qualidade de vida", informa um dos relatórios de junho de 2013.

O Brasil se preparava para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, que aconteceriam respectivamente em 2014 e 2016.

Documento de 17 de junho lista 51 eventos previstos no Brasil, em capitais e no interior, e 27 cidades no exterior.

Entre as anotações também aparecem referências a protestos de taxistas "piratas" e o histórico de brigas da categoria, que, segundo a PF, ocasionava então "um cenário de insegurança para os passageiros do Rio de Janeiro".

"Recentemente cenas de violência gratuita na área de desembarque do Galeão foram flagradas pelas câmeras de segurança. Um casal gay foi espancado por motoristas de táxis piratas ao recusar uma oferta de corrida. Durante a briga, um dos criminosos deu um chute no rosto da vítima, que teve os ossos da cabeça e da face quebrados."

Câmeras do UOL mostram protesto na av. Faria Lima em 30s

UOL Notícias

Maracanã

Documento de 26 de junho detalha os líderes de um protesto nas imediações do Maracanã no dia 16 daquele mês, com fotos dos citados censuradas por tarjas pretas.

Os carros usados por eles são registrados no documento. É possível ver apenas os modelos dos automóveis, devido às tarjas, e a informação de que tinham a inscrição Sintuff (Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Universidade Federal Fluminense).

Entre várias fotos, o comentário sobre um deles: "Somente o homem cuja imagem consta na Foto 12 teria sido visto entre as pessoas que praticaram os atos de vandalismo, após a passeata."

Uma suposta "invasão do Maracanã" é prevista em documento de 19 de junho. Um dos mobilizadores seria fundador do PT (Partido dos Trabalhadores) e dirigente da CUT (Central Únicas dos Trabalhadores) e ainda membro do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) desde a fundação da sigla, como se pode ver no relatório da PF.

No jogo entre Espanha e Taiti, pela Copa das Confederações, os torcedores levaram cartazes e o clima de protesto político ao estádio.

*Colaborou Victória Damasceno

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