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O que explica seguranças terem chicoteado jovem que tentou furtar mercado?

Valdir Bispo dos Santos e David de Oliveira Fernandes, seguranças presos sob suspeita de torturarem jovem em mercado de SP - Reprodução/Polícia Civil
Valdir Bispo dos Santos e David de Oliveira Fernandes, seguranças presos sob suspeita de torturarem jovem em mercado de SP Imagem: Reprodução/Polícia Civil

Alex Tajra e Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

18/09/2019 04h00

Falta de valores éticos e morais, vontade de fazer justiça com as próprias mãos e revanchismo. É difícil conseguir explicar o que levou dois seguranças de um supermercado a torturar um jovem de 17 anos que tentou furtar barras de chocolate, mas, segundo especialistas ouvidos pelo UOL, esses aspectos ajudam a entender o caso.

Os seguranças David de Oliveira Fernandes, 37, e Valdir Bispo dos Santos, 49, estão presos sob suspeita do crime, que ocorreu em um comércio da zona sul de São Paulo. A Justiça decretou a prisão preventiva (sem prazo) de ambos na segunda-feira (16) e ontem os dois viraram réus. Em depoimento prestado à polícia, Santos informou que falaria apenas em juízo. Já Fernandes disse, num primeiro momento, que havia filmado a tortura; depois, recuou e mudou seu depoimento.

A tortura a que o jovem foi submetido teria sido gravada com o celular de um dos seguranças —que foi apreendido pela polícia e será submetido a perícia. As imagens do jovem sendo chicoteado repercutiram nas redes sociais. Com problemas decorrentes do consumo de crack, o jovem foi acolhido em um abrigo da prefeitura da capital.

A reportagem questionou o professor aposentado do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) José Leon Crochick, que leciona atualmente na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o psiquiatra forense Guido Palomba, conhecido por perícias de crimes de repercussão, e o psicanalista e professor da USP Christian Dunker sobre o que poderia influenciar na ação dos seguranças.

Eles são unânimes em dizer que a ação dos seguranças é condenável em todos os aspectos.

A tortura nunca é justificável e, nesse caso, que parece ser uma punição, não faz nenhum sentido razoável. De fato, é nos agressores que devemos procurar os motivos desse ato.
José Leon Crochick, professor da Unifesp

Podiam ter imobilizado, chamado a polícia, mas jamais agido dessa forma, com violência, fosse qualquer tipo de delito. De início, temos que falar que a ação é lamentável e inadmissível sob qualquer perspectiva.
Guido Palomba, psiquiatra forense

Uma cultura que se percebe ineficaz no enfrentamento da violência e que se vê convencida de que o melhor tratamento para ela é o aumento das punições terminará por empresariar a justiça como vingança e revanche.
Christian Dunker, psicanalista e professor da USP

Jovem chicoteado por seguranças de supermercado mostra costas após sofrer agressões - 03.set.2019 - Reprodução/TV Globo
Jovem chicoteado por seguranças de supermercado mostra costas após sofrer agressões
Imagem: 03.set.2019 - Reprodução/TV Globo

Sentimento de revanche

"A ação do funcionário pode ter sido motivada por um sentimento de 'revanche': o funcionário se sentiu humilhado, envergonhado, pelo fato de o adolescente tentar enganá-lo e, assim, ele se vinga. Talvez, por sentir prazer em fazer o outro sofrer, justifica a ação pelo que julgou ser um furto", diz Crochick.

Para o professor, a tentativa de furto pode ter dado vazão a uma fúria e a um prazer pessoal dos seguranças. "Pessoas assim sentem-se bem por pertencer a uma hierarquia e, nesse sentido, gostam de obedecer a ordens dos superiores e punir supostos inferiores. Em outras palavras, são autoritários", afirma.

Ainda segundo Crochick, quem exerce a "justiça com as próprias mãos" pode se sentir moralmente elevado aos olhos dos outros, por agir contra o que julga delinquência. "Nesses estados de exceção, nos quais a tortura pode ser, ainda que não legal, mas legítima, algumas pessoas se sentem no direito de exercer esse poder", avalia.

O professor aponta que esse tipo de ação não coloca o agressor em constrangimento porque ele julga que agiu corretamente ao não somente coibir, na sua visão, um crime, mas igualmente ao punir quem o fez.

"Não espera punição e pede por reconhecimento. Marcas de uma compreensão insuficiente de uma sociedade democrática, na qual a justiça deve ser praticada por quem é legalmente autorizado pela sociedade, e de fragilidade individual, pela necessidade de superar sua sensação de ser pouco valorizado."

Se esse funcionário deve responder por seus atos, ele, ao que parece, também precisa de ajuda para reorientar sua formação para agir civilizadamente.
José Leon Crochick

Jovem foi torturado por tentar furtar barras de chocolate em mercado de SP

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"O que falta são freios"

Guido Palomba diz que, por serem dois seguranças, provavelmente, um deve ser o líder do ato. O outro, um induzido. "Muito difícil os dois estarem na mesma sintonia moral e ética. Quando isso ocorre, como parece que aconteceu, o indutor é uma pessoa não comprometida com os valores éticos e morais, com o sentimento superior. Essa é a verdadeira ausência de valores éticos e morais."

"Creio que é uma coisa pessoal dos dois. Não da sociedade em geral. A liberação da agressividade sempre existiu e, infelizmente, sempre existirá. Uma espécie de justiçamento com as próprias mãos", avalia o psiquiatra.

"Não estamos falando sobre o que acontece na cabeça deles. Estamos falando sobre o que falta na cabeça deles. Faltam valores éticos e morais. É condenável socialmente, moralmente, afetivamente. O que faltam são freios", afirma.

Palomba compara a atitude com pensamentos comuns na sociedade, num momento de raiva, mas que não terminam em ações. "Existe um abismo enorme entre você pensar e fazer. Quantas pessoas falam: 'Tenho vontade de matar fulano', mas não fazem? Por quê? Porque existe um freio que não permite fazer isso. São valores", diz.

"Anestésico para o sadismo"

Quando estamos convencidos de que o tratamento para o aumento da violência é o incremento das punições, a Justiça passa a ser fiadora da vingança e da revanche. A perspectiva é do psicanalista e professor da Universidade de São Paulo Christian Dunker, que aponta ainda essa espécie de revide como um "anestésico para o sadismo das pessoas que se sentirão mais seguras se a violência contra infratores se tornar mais visível".

"Anestésico porque a mesma satisfação com a humilhação do outro vulnerável se tornará fonte de mais insegurança no momento seguinte. Podemos mentir para nós mesmos, aplaudindo o justiçamento ou o linchamento das pessoas, mas em algum lugar sabemos que isso acalenta a possibilidade da mesma crueldade, elevada ao estatuto de lei, ser aplicada sobre cada um de nós. E o medo, assim fermentado, nos levará a frequentar doses cada vez maiores desta anestesia sádica", diz Dunker.

Para o psicanalista, o fato de os seguranças terem gravado a tortura praticada contra o jovem de 17 anos e divulgado o vídeo configura uma "covardia em segundo grau". O sadismo dos funcionários, argumenta o professor, não é o bastante quando não compartilhado com "testemunhas e cúmplices".

"Mostrar para os outros, divulgando o ato por meio digital, denuncia a covardia em segundo grau. Não se contentam em obedecer ao mandato imaginário de violência geral, recebido "silenciosamente" dos chefes, eles precisam confessar sua culpa pedindo cumplicidade. Como que a diluir a autoria da tortura na massa digital, que a sancionaria por seu aplauso ou conivência", afirma o psicanalista.

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