PUBLICIDADE
Topo

Segurança pública

Investigação sobre fuzilados do PCC em SP chega a financiadores e matadores

23.fev.2018 - Policiais civis fazem perícia em local no Tatuapé, zona leste de SP, onde Cabelo Duro foi morto a tiros de fuzil - Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo
23.fev.2018 - Policiais civis fazem perícia em local no Tatuapé, zona leste de SP, onde Cabelo Duro foi morto a tiros de fuzil
Imagem: Marcelo Gonçalves/Sigmapress/Estadão Conteúdo

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

28/01/2021 04h00

A investigação sobre os assassinatos —a tiros de fuzil— de dois integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) no Tatuapé, zona leste de São Paulo, em 2018, fez com que a Polícia Civil chegasse a outros dois pilares da maior facção criminosa do país: o financiamento de pessoas e de ações criminosas, e a contratação de matadores de aluguel.

Na noite de 23 de fevereiro de 2018, Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, foi atraído por outros criminosos para uma reunião que aconteceria em um hotel de luxo no bairro. Fuzilado por dois homens, morreu na recepção do local. Na noite de 23 de julho, Cláudio Roberto Ferreira, o Galo, também foi chamado por criminosos na mesma região. Lá, teve o mesmo fim: morto a tiros de fuzil.

Desde então, policiais do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) investigam as motivações, os mandantes, os financiadores e os executores dos assassinatos. A investigação preliminar, à época dos fatos, apontava que as duas mortes tinham ligação direta com o homicídio de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, que ocorreu no início de fevereiro de 2018 em uma reserva indígena no Ceará.

Com o avanço da investigação, porém, a tese foi colocada em xeque. Cabelo Duro era parceiro de Gegê do Mangue e foi o responsável por atraí-lo para a morte no Ceará. A suspeita é de que ele possa ter sido uma queima de arquivo a mando da cúpula da facção. Já sobre a morte de Galo existem duas suspeitas: que tenha sido morto pelos mesmos assassinos de Cabelo Duro ou que tenha sido alvo de parceiros de Cabelo Duro.

A partir de informações colhidas por meio de tecnologias de ponta na investigação de Cabelo Duro e de Galo, outros dois inquéritos foram instaurados pelo DHPP. Eles correm em segredo de Justiça. O UOL apurou que, por meio desses novos inquéritos, a Polícia Civil está investigando os financiadores de homicídios como os que ocorreram em 2018 e os responsáveis (mandantes e executores) desses crimes.

De acordo com a Polícia Civil, os homicídios planejados pelo PCC usam, predominantemente, dois tipos de grupos assassinos: os "Sicários", formados por policiais e ex-policiais, e os "Executores de Missões", formados por criminosos comuns. Nesse segundo grupo, o executor, normalmente, é um homem com longa história no crime organizado.

"Se a ordem veio da cúpula do PCC, essa ordem é paga. E é o caso. A morte do Cabelo Duro, por exemplo, foi paga, não foi feita por integrantes escalados para missões. Existe toda uma logística por trás das mortes, com pagamento, disponibilização de armas, entre outros", afirmou o delegado Vagner Alves da Cunha, da divisão de mortes múltiplas do DHPP, que investiga os casos.

Contratam ex-policiais e policiais, o que está praticamente comprovado, e também escalam alguns criminosos comuns.
Delegado Vagner Alves da Cunha

Executores de Missões

A dinâmica dos "executores de missões", segundo a polícia, é a seguinte: quando chega uma ordem de um líder do PCC (seja da cúpula ou não) para "cumprir uma missão" —ou seja, matar um desafeto, um policial ou alguém que esteja devendo, por exemplo—, o criminoso, ao receber, tem que cumprir. Não há espaço para negativas, sob risco de morte.

"Quando isso acontece, o criminoso, automaticamente, passa a ser financiado pelo PCC. Isso inclui sua família. Provavelmente, dependendo da repercussão da morte na mídia, ele será preso. Mas existe uma estrutura de financiamento tanto das contratações quanto logística de ação. Estamos investigando como o dinheiro chega", afirmou o delegado Cunha.

Segundo a apuração, é o caso de Reinaldo Teixeira dos Santos, o Funchal, condenado por participar do assassinato do juiz Antônio Machado Dias, o Machadinho. O juiz era tido como "duro" pela cúpula da facção. O apelido remete à favela onde ele morava, na Vila Olímpia, próxima da rua Funchal, área nobre da capital paulista.

De acordo com o MP (Ministério Público), Funchal, que antes não tinha renda fixa, passou a receber, de maneira vitalícia, R$ 5 mil por mês. Ele estava preso até fevereiro de 2019 na penitenciária 2 de Presidente Venceslau (SP). Juntamente com outros membros da cúpula da facção, foi levado para o sistema penitenciário federal. Atualmente, está em Brasília, onde também vive Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como o principal chefe da facção.

Sicários

O segundo inquérito gerado a partir da investigação "apura as identidades de assassinos profissionais, ou seja, quem são, qual a relação com o crime organizado e se existe relação com as forças do estado", disse o delegado. A reportagem apurou que os principais nomes identificados no grupo dos "Sicários" é ou foi policial militar.

Um dos policiais que atua como sicário, segundo o DHPP, é o sargento Farani Salvador Freitas Rocha Júnior, que está preso. A polícia diz que na morte de Cabelo Duro, um dos atiradores se feriu por estilhaços na perna. O sargento tem um ferimento no mesmo local. A polícia afirma que Farani discutiu com um outro policial sobre a morte de Galo. A defesa do sargento sustenta que ele é inocente.

Outros casos que estão em apuração pelo DHPP giram em torno de homicídios recentes de policiais da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar). A suspeita é de que tenham sido mortos a mando da facção ou pelo setor "Executores de Missões" ou pelo de "Sicários". Em maio de 2019, o cabo Fernando Flávio Flores foi assassinado com ao menos 70 tiros enquanto saía de casa, no Jardim Satélite, na zona sul de São Paulo.

Em junho de 2020, o cabo Jefferson Ferreira também foi morto a tiros de fuzil enquanto saia com sua moto de casa, no Jardim Helena, zona leste da capital. "Foram criminosos escalados para a prática do crime. A partir da ação do Jefferson, acendeu uma luz para o caso do Flores. É uma ação extremamente parecida", afirmou o delegado Cunha.

Segurança pública