PUBLICIDADE
Topo

Segurança pública

Jacarezinho: polícia matou 17 pessoas em 2 horas após policial ser atingido

7.mai.2021 - Após operação policial que deixou ao menos 28 mortes, marcas de tiros permanecem nas paredes dos becos da favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio - Herculano Barreto Filho/UOL
7.mai.2021 - Após operação policial que deixou ao menos 28 mortes, marcas de tiros permanecem nas paredes dos becos da favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Herculano Barreto Filho e Lola Ferreira

Do UOL, no Rio

13/05/2021 14h20

Os registros de ocorrência feitos por policiais civis envolvidos na operação na favela do Jacarezinho, a mais letal da história do estado do Rio, mostram que 17 das 27 mortes cometidas por agentes ocorreram em um período de duas horas após um policial ser morto e em um raio de apenas 1,5 km (veja mapa abaixo).

Os 12 boletins de ocorrência que registram morte por intervenção policial de 27 pessoas em 6 de maio relatam supostos confrontos em nove localidades da favela em um intervalo de seis horas, segundo a versão dos agentes. Moradores denunciam contudo mortes arbitrárias por policiais em situações em que as vítimas estariam desarmadas e em fuga, sem trocar tiros com agentes.

Ações coordenadas tiveram início após o policial civil André Leonardo de Mello Frias ter sido atingido por um tiro na cabeça logo no início da operação, às 6h, ao tentar retirar uma das barricadas que travavam o acesso à comunidade.

Segundo a versão contada pelos agentes na DH (Delegacia de Homicídios) da Capital, nove incursões pela favela entre 6h e 8h deixaram 17 mortos em pontos próximos uns aos outros, mostrando uma progressão dos agentes pelo território.

As outras ocorrências com óbitos foram às 10h, 11h e 12h.

5 mortes em casas e corpo em cadeira de praia

Na rua do Areal, os agentes relataram três supostos confrontos em um intervalo de uma hora, deixando dez mortos —dois deles abriram fogo contra os policiais e jogaram uma granada de uma casa, segundo versão apresentada pelos policiais.

Só em uma localidade conhecida como Beco da Síria, ocorreram três ações com quatro mortes envolvendo seis agentes —quatro da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) e outros dois da 32ª DP (Taquara), unidade distrital da zona oeste do Rio.

Ocorrência no Jacarezinho, no Rio, envolveu "um elemento com ferimentos de arma de fogo sentado em uma cadeira". Foto que viralizou mostra o rapaz já morto, identificado como Matheus Gomes dos Santos, 21 anos - Reprodução - Reprodução
Ocorrência no Jacarezinho, no Rio, envolveu "um elemento com ferimentos de arma de fogo sentado em uma cadeira". Foto que viralizou mostra o rapaz já morto, identificado como Matheus Gomes dos Santos, 21 anos
Imagem: Reprodução

Em um deles, os dois policiais envolvidos descrevem que receberam "tiros de todos os lugares". E, em seguida, dizem ter encontrado um homem ferido sentado em uma cadeira, identificado posteriormente como Matheus Gomes dos Santos, 21. A foto dele viralizou nas redes sociais ainda durante a operação.

O perito criminal aposentado Cássio Thyone Almeida de Rosa, integrante do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, contesta a versão da polícia. "O corpo está em uma posição extremamente incomum, com o tronco ereto", disse ele, o que levanta a suspeita de que o rapaz possa ter sido acomodado na cadeira após ser morto.

Segundo a polícia, ele foi levado ao Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio. Mas a SMS (Secretaria Municipal de Saúde) afirma que nenhum morto no Jacarezinho chegou com vida aos hospitais da rede.

No Beco da Síria, também foi morto um homem no quarto de uma menina de 9 anos. Segundo agentes da Core, unidade de elite da Polícia Civil, o suspeito identificado como Omar Pereira da Silva, 21, foi atingido em uma troca de tiros e levado ao hospital. Segundo os policiais, ele atirou uma granada na direção deles, apreendida com uma pistola e munição, de acordo com a ocorrência.

Mas a família que presenciou a cena contradiz a versão da polícia —segundo o casal relatou ao UOL, o jovem com um ferimento de tiro no pé estava desarmado e morreu no quarto da criança após ser alvejado por policiais. A arma do agente que disparou foi apreendida.

A última ocorrência registrada no Beco da Síria informa um terceiro suposto confronto às 11h, quando dois homens foram baleados dentro de uma casa, segundo a versão contada por dois policiais civis da 32ª DP em boletim de ocorrência registrado na DH.

Por volta das 10h, seis suspeitos segundo a versão da polícia foram baleados na travessa Santa Laura. As apreensões de drogas, armas de grosso calibre e dinheiro em espécie indicam que o local era um dos pontos de venda de drogas no interior da comunidade.

Família contesta polícia e diz que suspeito queria se entregar

Na rua São Manoel, houve registro de duas mortes. Segundo a versão da polícia, Isaac Pinheiro de Oliveira e Richard Gabriel da Silva Ferreira fizeram uma família refém —e, por isso, dois policiais de unidades distritais entraram em uma casa. Eles afirmam que houve troca de tiros, causando a morte dos envolvidos no confronto, segundo a versão contada na delegacia.

A família de Isaac, entretanto, mostrou ao UOL um vídeo em que o rapaz está com dois tiros nas costas, escondido em uma casa. Após ver as imagens, a mãe de criação e um primo dele foram até o local para tentar libertá-lo ainda com vida.

Mas, de acordo com os relatos, foram impedidos pelos policiais. Isaac e Richard tinham mandados de prisão em aberto a serem cumpridos na operação. De acordo com os registros, essa foi a última ocorrência com morte, por volta de 12h.

Acúmulo de mortes perto da linha do trem

Na rua do Areal, próximo ao Pontilhão, que fica em um dos acessos à comunidade próximo à linha do trem, morreram sete pessoas por volta das 6h —passageiros em uma composição do metrô ficaram feridos, mas sem gravidade.

No registro de ocorrência, a Polícia Civil não descreve como aconteceram as mortes —se os mortos atacaram alguma equipe ou se estavam em fuga.

A dinâmica descrita apenas resume o objetivo da operação policial. No local, foram apreendidos 15 armas, carregadores, granadas e munição, além de 95 saquinhos de "erva seca". Oito policiais estiveram envolvidos nessa ação, todos da Core.

No mesmo horário, dois policiais se envolveram em uma ocorrência na rua Darci Vargas. Neste registro, relatam que revidaram aos disparos dados por um homem. Após a troca de tiros, ainda de acordo com o registro, o homem estava com vida e foi levado ao Hospital Municipal Salgado Filho.

Defensoria investiga se polícia desfez cena do crime

Guilherme Pimentel, ouvidor-geral da Defensoria Pública, diz que o órgão ainda investiga a possibilidade de que os agentes possam ter citado em ocorrência que as pessoas baleadas ainda estavam vivas para desfazer a cena do crime, sob o pretexto de socorrê-las.

"O crime de desfazimento de cena é muito grave porque inviabiliza a elucidação dos fatos e joga contra a perícia, que é a prova técnica. Isso dificulta a possibilidade de esclarecimento do que realmente aconteceu. Se isso for comprovado, é preciso identificar os responsáveis, fazê-los responder por esse crime e reforçar os protocolos da polícia", disse.

O que diz a Polícia Civil

Procurada, a Polícia Civil diz que o fato de os baleados terem chegados mortos aos hospitais não descarta a hipótese de que tenham sido socorridos.

"Criminosos terem chegado mortos à unidade hospitalar não quer dizer que não foram resgatados com vida. As mortes podem ter acontecido no caminho ou na entrada ao hospital", diz.

A corporação também encaminhou um vídeo à reportagem "de um dos socorros prestados pelos policiais civis". As imagens mostram um jovem não identificado sendo colocado com vida na caçamba de um veículo com um ferimento estancado. Não foi informado o estado de saúde do rapaz.

A Polícia Civil nega denúncias de mortes arbitrárias e definiu a operação como técnica. O órgão diz que os casos serão esclarecidos durante a investigação, acompanhada pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio).

Segurança pública