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1 mês

Polícia prende oito pessoas em flagrante por tráfico na 'cracolândia' de SP

Luciana Quierati, Heloísa Barrense, Ed Wanderley e Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

19/05/2022 17h54Atualizada em 20/05/2022 11h51

Oito pessoas foram presas em flagrante por envolvimento com o tráfico de drogas na chamada "cracolândia" em uma operação da Polícia Civil de São Paulo entre a tarde e a noite desta quinta-feira (19).

Na ação, os agentes ainda cumpriram dois mandados de prisão expedidos durante a Operação Caronte, que investiga a feira a céu aberto de venda de entorpecentes no centro da capital paulista. O balanço foi divulgado hoje de manhã pela SSP (Secretaria de Segurança Pública).

Na operação para cumprir 32 mandados de prisão com o apoio da Polícia Militar e da GCM (Guarda Civil Metropolitana), a Polícia Civil desocupou barracas e provocou nova dispersão do fluxo de "cracolândia", que estava concentrado na rua Frederico Steidel, no bairro Campos Elíseos.

Os dependentes químicos então retornaram para a rua Helvétia, local de concentração da "cracolândia" após a desocupação de 11 de maio da praça Princesa Isabel. Nesta quinta-feira, moradores dos bairros de Santa Cecília e Campos Elíseos se reuniram em cima do Minhocão para novo protesto por falta de soluções para o problema.

Como foi a ação

Dezenas de frequentadores da "cracolândia" foram isolados pela polícia e ficaram sentados no chão da rua Frederico Steidel para revista de bolsas, sacolas e mochilas. Uma equipe da prefeitura de São Paulo foi ao local para oferecer atendimento.

Nos últimos dias, os frequentadores do chamado "fluxo" se alternaram entre as ruas Helvétia e Frederico Steidel, onde foram armadas diversas barracas.

"Ninguém vai ser retirado daqui" e "não adianta, todo mundo vai ser revistado" são algumas das ordens que policiais gritavam aos presentes. Segundo eles, nem mesmo os iglus (barracas usadas por parte dessa população) serão recolhidos. Há mais de uma semana, essa parcela da população vaga pelo centro sem destino certo.

"Eles se escondem aqui justamente para vender as drogas", afirmou o delegado Roberto Monteiro à TV Bandeirantes, afirmando que várias tendas serviriam como local de venda de entorpecentes. "Isso aqui não é barraca de pessoa em situação de rua. Isso aqui é banca do tráfico, vendendo para pessoas que estão vulneráveis".

Alusão ao PCC

Nos barracos, foram encontrados drogas e objetos para manipulá-las, como lâminas de barbear e balanças. Além disso, também foram identificados móveis com inscrições em alusão ao PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa que domina o tráfico de drogas em São Paulo. A operação apreendeu ao menos um celular, que será periciado.

Durante a ação, um homem, apontado como suspeito de envolvimento com o tráfico no local, teria tentado fugir por um telhado e caiu em um estabelecimento depois da estrutura quebrar. Imagens feitas por moradores da região serão analisadas pela polícia.

Moradores indignados

Um grupo de moradores da região dos bairros da Santa Cecília e Campos Elíseos resolveu protestar, pelo segundo dia consecutivo, em cima do Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão. Eles cobram ações mais efetivas do poder público para resolver o problema da "cracolândia".

Elevado - Luciana Quierati/Colaboração para o UOL - Luciana Quierati/Colaboração para o UOL
Moradores fecham o Minhocão em protesto por falta de soluções para a cracolândia
Imagem: Luciana Quierati/Colaboração para o UOL

Mais uma vez, um pequeno grupo chamou a atenção das autoridades impedindo a circulação de carros na via. O protesto teve início por volta das 18h30, antecipando o fechamento o tráfego de veículos do elevado, que normalmente é interrompido às 20h em dias úteis.

Entre os envolvidos no protesto está a atendente de logística Carla Ferreira, moradora da Vila Adelaide, rua sem saída com acesso a partir da rua Frederico Steidel. Ela conta que estava hoje em casa por volta das 16h30, quando alguns dos integrantes do fluxo entraram na viela fugindo da polícia. A operação tinha começado.

"Devia ter mais de 50 pessoas tentando escapar", disse. Alguns pularam muros para entrar em casas vizinhas. "Moro aqui há 43 anos, na mesma casa, e nunca vi uma coisa dessa".

Segundo a moradora, ela tem experiência no assunto que agora prejudica sua paz de espírito dentro de casa, uma vez que diz ter trabalhado por 10 anos com dependentes químicos na igreja renascer em Cristo, na Mooca.

"Se tivesse um trabalho intenso de acabar com as drogas, não teria tanto viciado. Muitos até querem ser tratados, mas a facilitação das drogas e a falta de abrigos adequados não propiciam a saída deles dessa situação", diz Carla, defensora da internação compulsória. "Eles não têm senso crítico", justifica. "No fundo, tenho é muita dó deles. É calamidade pública."

Denúncia da Defensoria Pública

A Defensoria Pública de São Paulo e a organização não-governamental (ONG) Conectas Direitos Humanos encaminharam nesta semana à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) um pedido de proteção para a população em situação de rua e de usuários de drogas que vivem na região. As entidades solicitam que a CIDH intervenha junto ao governo estadual paulista para evitar novas ações policiais violentas na Cracolândia.

O documento encaminhado à Comissão Interamericana pede que o Estado proteja e assegure os direitos dessa população mais vulnerável que vem sendo deslocada de forma forçada pelo poder público. "A Cracolândia é palco de diversas ações truculentas de segurança com o objetivo central de expulsar dali os seus frequentadores habituais, com destaque para pessoas que fazem uso abusivo de drogas e/ou vivem em situação de rua ou em moradias precárias e, portanto, em extrema vulnerabilidade", dizem as entidades no documento.

O é um complemento a uma outra solicitação feita no ano passado pelas duas instituições e em que denunciaram o despejo de quase 400 famílias que viviam na antiga região da "cracolândia", na Luz, em São Paulo.

minhocao - Bandeirantes/Reprodução - Bandeirantes/Reprodução
Elevado Presidente João Goulart, conhecido como "Minhocão", foi interditado por manifestantes na noite desta quinta-feira (19)
Imagem: Bandeirantes/Reprodução

Desocupação da Princesa Isabel

Uma grande operação na antiga região da "cracolândia", na praça Princesa Isabel, a cerca de 1 km da rua Frederico Steidel, começou no dia 11 de maio. Na ocasião, seis pessoas foram presas e a dispersão dos frequentadores do "fluxo" teve início no Centro de São Paulo. Entre os locais ocupados pelo grupo estão a praça Marechal Deodoro e a rua Helvétia.

No segundo dia da ação, durante um dos episódios de deslocamento em massa, um homem foi baleado e morto. Raimundo Nonato Fonseca Júnior, 32, teria sido alvo de tiros disparados por um policial — outros dois se apresentaram junto a ele admitindo ter atirado na ocasião. O caso é acompanhado pela DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa).

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