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Chacina no Rio: 16 de 21 homens mortos não tinham mandado de prisão

Chacina na Vila Cruzeiro deixou ao menos 23 mortos; Polícia Civil identificou 21 até sexta (27) - Divulgação
Chacina na Vila Cruzeiro deixou ao menos 23 mortos; Polícia Civil identificou 21 até sexta (27) Imagem: Divulgação

Ruben Berta

Do UOL, no Rio

28/05/2022 04h00

Levantamento feito pelo UOL no site do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) mostra que ao menos 16 de 21 homens mortos na chacina da Vila Cruzeiro não tinham mandado de prisão em aberto.

A Polícia Civil afirma que 23 pessoas morreram na operação, que ocorreu na terça-feira (24) —22 homens e uma mulher. No dia da ação e na quarta, no entanto, as unidades de saúde e a Polícia Militar haviam informado 26 mortos —que já chegaram sem vida ou foram atendidos e morreram. Nenhum dos mortos era do Bope (Batalhão de Operações Especiais) ou da PRF (Polícia Rodoviária Federal), que participaram da ação.

Das 23 vítimas confirmadas pela Polícia Civil, uma ainda não havia sido identificada até a tarde desta sexta-feira (27). A reportagem não conseguiu confirmar se Anderson de Souza Lopes tem mandado de prisão —a Polícia Civil do Rio não passou os dados completos dele, como data de nascimento ou número de documento.

A única mulher foi a cabeleireira Gabrielle Ferreira da Cunha, 41, baleada dentro de casa, na Chatuba —fora da área de atuação das forças de segurança. A Polícia Militar diz que ela pode ter sido atingida por um disparo de arma de longo alcance.

A operação foi realizada pelo Bope em conjunto com a PRF. Um dos principais objetivos, segundo os agentes, foi impedir movimentos de criminosos da Vila Cruzeiro, na zona norte, para a Rocinha, na zona sul. O UOL questionou a Polícia Militar sobre a quantidade de mortos sem mandado em aberto, na quinta-feira (26), mas não obteve resposta.

Entre os que não tinham mandado em aberto nem passagem pela polícia está o ex-militar da Marinha Douglas Costa Inácio Donato, de 23 anos. Conforme mostrou reportagem do UOL, ele trabalhava numa loja de calçados e era pai de um bebê de dois meses. De acordo com o pai dele, o feirante Luis Cláudio Inácio Donato, 44, o rapaz tinha saído de uma festa com amigos de infância quando foi baleado.

Já entre os que tinham mandado está Mauri Edson Vulcão Costa. De acordo com o site do CNJ, havia um pedido de prisão contra ele, por tráfico de drogas, aberto desde dezembro de 2018, na comarca de Abaetetuba (PA).

Costa também era investigado por outros crimes (incluindo ataques a policiais) e apontado como uma das lideranças de um braço do Comando Vermelho no Norte do país.

Para Sílvia Ramos, cientista social do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania), o levantamento reforça a evidência de que a polícia do Rio prioriza o enfrentamento em vez de ações de inteligência e desarticulação das quadrilhas.

A polícia do Rio escolheu a morte como método, por isso temos mais de mil mortes decorrentes de ação policial todos os anos. Os grupos armados nos territórios encomendam mais armas e munições no dia seguinte. E daqui a algumas semanas a polícia estará trocando tiros e matando pessoas nas mesmas áreas."

Dos mortos identificados até o momento, os seguintes tinham mandado em aberto:

  • Maycon Douglas Alves Ferreira da Silva - mandado de janeiro de 2022, no Rio de Janeiro, por tráfico de drogas;
  • Roque de Castro Pinto Júnior - mandado de janeiro de 2022, em Manaus (AM), por tráfico de drogas;
  • Mauri Edson Vulcão Costa - mandado de dezembro de 2018, em Abaetetuba (PA), por tráfico de drogas;
  • Patrick de Andrade da Silva - mandado de abril de 2021, no Rio de Janeiro, por tráfico de drogas.

'Caráter emergencial'

Em entrevista coletiva na terça, mesmo dia da chacina, o comandante do Bope, Uirá do Nascimento Ferreira, afirmou que a operação foi planejada há meses, mas ocorreu em "caráter emergencial" e "não tinha o objetivo de cumprir mandados de prisão".

A PRF, no entanto, alegou, em nota, que atendeu a um pedido de apoio para o cumprimento de mandados.

O MPF (Ministério Público Federal) anunciou a abertura de um procedimento investigatório criminal para apurar condutas e possíveis violações cometidas por policiais.

O MPF quer saber informações, por exemplo, sobre o efetivo dos agentes que participaram da operação conjunta; o relatório final da operação, além de informações detalhadas sobre o cumprimento dos mandados de prisão expedidos pela 1ª Vara Criminal da Regional Madureira, com o número da ação penal.

O MP-RJ (Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro) deu um prazo de dez dias para o Bope enviar dados sobre a investigação do caso.

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