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Campanha para prefeitura começa com guerra declarada, rachas e pactos em SP

Charge sobre a eleição municipal de SP 2020 - Ariel Severino/UOL
Charge sobre a eleição municipal de SP 2020
Imagem: Ariel Severino/UOL

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

27/09/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Campanha nas ruas começa hoje em clima de guerra com ataques disparados antes de a disputa começar
  • Prefeito Bruno Covas é alvo, assim como Celso Russomano, líderes nas pesquisas
  • Arthur do Val e Joice Hasselmann são considerados quem mais atacam
  • Esquerda tenta pacto de não agressão

A campanha eleitoral começa hoje, mas, antes mesmo de a disputa começar, os concorrentes à Prefeitura de São Paulo já pegavam em lanças que eram atiradas em adversários. Atual prefeito e bem cotado nas pesquisas, Bruno Covas (PSDB) é o alvo preferencial da artilharia.

Os rivais tentam colar nele o rótulo de oficial de baixa patente, que é subalterno a um general, o governador João Doria (PSDB). Outro nome que avançaria ao segundo turno, Celso Russomanno (Republicanos) é chamado de candidato do centrão. O histórico de campanhas que largam bem e depois se desidratam é alardeado como defeito visando o voto útil. Na visão dos rivais, Russomanno é o soldado que sai de casa com uniforme de gala e volta estropiado.

Exemplos de ataques há muitos e não se concentram somente os líderes nas pesquisas. Márcio França (PSB) foi chamado de gângster pela candidata Joice Hasselmann (PSL) na segunda-feira. O presidente do PSL em São Paulo, Junior Bozzella, admite que a campanha começa alguns tons acima de um ambiente pacífico. "Vai ser um nível alto de ataques e ofensas", afirmou.

O PCdoB avalia que o clima de teatro de guerra é uma continuação do cenário das eleições de 2018, quando fazer "arminha" era símbolo de adesão à candidatura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Um integrante do PSDB vai na mesma linha e espera muito chute na canela e até golpes baixos durante a corrida eleitoral. Não é à toa que há campanhas se mobilizando para ter um exército armado de celular. A missão é ser uma infantaria antifake news.

Seja do time dos que partem para o confronto ou dos que tentar desviar das brigas, os candidatos dizem acreditar que os resultados das pesquisas desta semana têm muito "recall" de eleições passadas. Pessoas envolvidas com campanhas, inclusive as bem posicionadas, creem que um cenário mais consolidado só será conhecido cerca de dez dias depois do começo da propaganda no rádio e televisão, que ocorre em 9 de outubro.

Covas e Russomanno querem distância de brigas

Ariel - Ariel Severino/UOL - Ariel Severino/UOL
Imagem: Ariel Severino/UOL
Ainda que os rivais tentem armar um campo minado, a reação da dupla Covas e Russomanno é não gastar energia com os ataques. Receber ataques por estar na frente nas pesquisas é considerado algo esperado.

A intenção do prefeito é deixar os adversários falando sozinho, explica o coordenador da campanha, Wilson Pedroso. Ele diz que a chapa vai centrar sua estratégia nas obras entregues durante sua gestão, no trabalho feito no combate à covid-19 e na superação da fase mais grave do câncer enfrentado por Covas.

A ideia é mostrar resiliência e uma blindagem que suporta crises e assim se apresentar como nome ideal para a solução dos problemas gerados pela pandemia. A intenção é passar alheio a brigas. "Aqui não vai ter porrada. Ele tem muita coisa para mostrar, não precisa bater nas pessoas. Tem que mostrar o que ele fez e o quanto ele foi resiliente", afirmou Pedroso.

Celso Russomanno gravou vídeo nesta semana reclamando que foi só anunciar que vai concorrer à prefeitura que começou a sofrer ataques. Tachado de candidato do centrão pelo PSL, ele também não quer entrar em brigas. A campanha pretende passar a imagem de que agora o candidato está maduro e pronto para administrar São Paulo.

Também há uma mobilização para evitar erros passados, como chegar atrasado a compromissos ou o candidato dar declarações não combinadas e que peguem a equipe de surpresa. O lema é "atitudes diferentes para um resultado diferente".

Arthur do Val e Joice Hasselmann, os exaltados

As equipes das campanhas apontam a dupla de candidatos Arthur do Val (Patriota) e Joice Hasselmann (PSL) como os maiores estimuladores de brigas. A avaliação é que ambos se beneficiaram do clima quente que dominou as eleições em 2018 e tentam repetir a fórmula.

Situações como Arthur do Val dizer que Guilherme Boulos (PSOL) exerce uma atividade ilegal por invadir propriedade são usadas como exemplo para atribuição do rótulo. Joice Hasselmann entra na mesma barca por atitudes como chamar Russomanno de "cavalo paraguaio" e declarar que o rival é candidato xarope por ser contra empresário. Mas a dupla não concorda com a afirmação de que estimulam o clima beligerante na eleição.

Presidente do PSL em São Paulo, Junior Bozzella falou que a campanha mostra fatos de má gestão e maus feitos e avalia que a população quer ser informada sobre estes temas. Ele disse que "o choro é livre", mas considera as críticas a Joice como mimimi.

Coordenador da campanha de Arthur do Val, Renato Battista afirmou que os adversários tentam rotular o candidato do Patriota porque não conseguem discutir no mesmo nível que ele. Acrescenta ainda que 80% das postagens nas redes sociais de Arthur do Val são propostas, mas que um ataque ou briga gera mais repercussão.

Esquerda unida contra rival comum

As campanhas vão escolher em qual guerra entrar. Provocado por Joice Hasselmann e Arthur do Val, o candidato Guilherme Boulos não respondeu a nenhum deles. Mesmo sem ser citado, tomou a iniciativa de confrontar declaração de Bruno Covas em relação ao padre Julio Lancelotti e uma situação envolvendo a cracolândia.

A postura demonstra que os candidatos devem ignorar os rivais que têm poucos pontos percentuais nas pesquisas e centrar sua artilharia em quem briga na parte de cima.

Mas a esquerda tem um componente peculiar. Baseada na lógica de que "o inimigo do meu inimigo é meu amigo", há uma espécie de pacto de não agressão. As chapas de PT, PSOL e PCdoB centram suas fileiras contra Bruno Covas e Jair Bolsonaro, o que por tabela pode respingar em Celso Russomanno, apoiado pelo presidente em São Paulo.

Carlos Zarattini, vice na chapa de Jilmar Tatto pelo PT, afirmou nesta semana que, "se alguém acha que vamos atacar Boulos, perca a esperança". O presidente do diretório municipal do partido e coordenador da campanha, Laércio Ribeiro, afirmou que a declaração não é voz isolada na legenda. "Não agrediremos parceiros do campo da esquerda. Este posicionamento do Zarattini é consenso na campanha do Jilmar."

A posição encontra eco nos demais partidos. Josué Rocha, coordenador da campanha do PSOL, vê o PSDB e o presidente Bolsonaro como adversários e acrescenta que pode haver união mais adiante. "Estamos convencidos da importância de enfrentar o bolsonarismo e o tucanato em São Paulo."

O PCdoB informou vai se concentrar em combater o presidente. Orlando Silva será apresentado como o migrante que veio de Salvador e se tornou um negro que ocupou ministério, está no segundo mandato como deputado federal e trabalha na defesa dos trabalhadores da periferia.

Mas este clima de fraternidade e aliança entre a esquerda é algo não durável na visão dos demais partidos. A avaliação é que o PT tem capilaridade e militância para sair do baixo percentual que está nas pesquisas. E este crescimento se daria primeiramente sobre o eleitorado que hoje está com Boulos.

Por esta linha de raciocínio, o PT tentará ocupar o espaço que sempre teve em São Paulo, desidratando o candidato do PSOL. A crença é que este movimento deve pôr fim a qualquer simpatia mútua.

Tentativa de terceira via

O ex-governador Márcio França (PSB) está na parte de cima das pesquisas, mas com desempenho aquém do político que foi para o segundo turno na última eleição para governador. O marqueteiro dele, Raul Cruz Lima, disse que para virar o jogo o candidato não vai partir para o confronto.

Ele entende que o correto é deixar agressores falando sozinho e acionar o departamento jurídico se houver excessos. Mas a ideia é se mostrar como uma terceira via, uma alternativa na polarização entre esquerda e bolsonarismo.

É o mesmo caminho que Andrea Matarazzo (PSD) busca traçar. O marqueteiro dele, Paulo Vasconcelos, declarou que o candidato será apresentado com um político equilibrado e autor de críticas maduras e que se tornam agudas quando necessário.

A intenção é mostrar Matarazzo como um político preparado e que conhece São Paulo. Por este motivo, a propaganda de televisão não terá músicas ou efeitos especiais. "Vamos evitar a pirotecnia para que o conteúdo do Andrea sobressaia."

São Paulo ainda conta com Levy Fidelix (PRTB) como candidato. Coordenador de campanha e candidato a vice, Jairo Glikson afirmou que ambos são a única chapa realmente de direita e conservadora. Ele acredita que o histórico de defesa da família e da vida pesarão a favor na hora de o eleitor escolher o voto.