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Denúncias, ataques e propostas eleitorais levam campanha à Cracolândia

Alameda Dino Bueno na esquina com rua Helvétia, onde o fluxo de usuários de drogas se concentra no centro de São Paulo - Danilo Verpa/Folhapress
Alameda Dino Bueno na esquina com rua Helvétia, onde o fluxo de usuários de drogas se concentra no centro de São Paulo
Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo*

17/09/2020 04h00Atualizada em 17/09/2020 17h04

A Cracolândia despontou como um dos principais temas da pré-campanha eleitoral à Prefeitura de São Paulo neste ano. Entre denúncias, polêmicas e pautas propositivas, a região no centro da capital, conhecida pela concentração de usuários de crack, tem sido o alvo no período pré-eleitoral.

Neste mês, o local recebeu visitas dos pré-candidatos Joice Hasselmann (PSL) e Arthur do Val (Patriota), o "Mamãe Falei". Os discursos são diferentes, mas ambos criticam a gestão atual. O prefeito Bruno Covas (PSDB), que tenta a reeleição, por sua vez, defende a política vigente, que chama de "assistencialista", e tenta se aproximar do personagem símbolo da Cracolândia.

Um padre no centro do debate

Na última quarta (16), Covas convidou o padre Julio Lancellotti, da Pastoral Povo da Rua, conhecido pelo trabalho com pessoas em vulnerabilidade social, e dom Odilo Scherer, arcebispo da Igreja Católica, para inaugurar uma ala voltada a pessoas que vivem em situação de rua no hospital Bela Vista, na região da avenida Paulista.

A unidade, inaugurada em abril para combater a pandemia do novo coronavírus, terá 20 leitos voltados a moradores em situação de rua e passará a se chamar Santa Dulce do Pobres. Ontem, Lancellotti levou uma imagem da religiosa brasileira e o arcebispo abençoou o local.

Prefeito Bruno Covas, cardeal Dom Odilo Pedro Scherer e padre Julio Lancelotti - Lucas Borges Teixeira/UOL - Lucas Borges Teixeira/UOL
Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL

Embora seja oficialmente uma coincidência, a agenda de Covas com Lancellotti, que desenvolve há décadas trabalhos de apoio a dependentes químicos, se dá em um momento em que o eclesiástico está no centro do debate sobre o cuidado a moradores de rua na capital.

Ele tem sofrido ataques e ameaças e já declarou sentir o risco de violência contra ele cada vez maior. Em vídeo publicado em seu Instagram, ele narra ter sido xingado por "defender noia".

Arthur do Val tem feito coro às ofensas. No último final de semana, transmitiu ao vivo uma ação da PM-SP (Polícia Militar de São Paulo) e da GCM (Guarda Civil Metropolitana) na cracolândia que gerou tumulto e resultou no ferimento de um morador, pisoteado.

Lancellotti questionou em suas redes como o pré-candidato, atualmente deputado estadual em São Paulo, sabia previamente da ação. Do Val subiu o tom. Em suas redes sociais, afirmou que a atuação do padre junto aos moradores em situação de rua é "deplorável". "Ele é uma das maiores farsas do Brasil, em breve vocês saberão! Vou desmascarar esse padre."

No mesmo dia, Lancellotti foi ameaçado na rua. Diz que não tem como afirmar que as ameaças tenham relação com as acusações públicas de Do Val, mas lamenta o posicionamento. "O problema, para nós, é a incitação do ódio. Acho que temos de combater a cultura do ódio", afirmou o padre em entrevista após a inauguração do hospital.

Covas saiu em defesa de Lancellotti e, sem citar nomes, criticou a atitude do concorrente. "Nunca, nesses quatro anos em que estive na prefeitura, ele [Lancellotti] reclamou alguma coisa para ele. Ele sempre foi lá pedir coisas para as pessoas em situação de rua, exigir melhores tratamentos. Então, alguns podem até discordar do trabalho que é feito por ele, mas querer atacar a pessoa do padre Julio é inaceitável", disse.

Covas defendeu ainda sua gestão na Cracolândia, que chama de "assistencial" e diz visitar regularmente. "Nós tínhamos um fluxo no início da gestão [2017] de 4.000 pessoas ali. A gente já conseguiu reduzir para 1.400 e vamos continuar insistindo", afirmou.

Por outro lado, as operações feitas junto ao governo estadual —como a citada acima— são consideradas "violentas" por ONGs que trabalham no local.

Em vídeo gravado na Cracolândia, na Luz, pré-candidato à prefeito Arthur do Val, o Mamãe Falei, acusa o padre Julio Lancelotti de "fomentar o tráfico de drogas na região"; MP investiga vídeos - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

MPE apura vídeos de Do Val na região

Do Val tem focado muito no tema. Em vídeo publicado nas suas redes sociais, ele sugere até a transferência da prefeitura para a região da Luz "até que a situação se resolva". Agora, o MPE-SP (Ministério Público Eleitoral em São Paulo) instaurou uma investigação preliminar para apurar se dois vídeos gravados na região junto ao Comandante Braga, pré-candidato a vereador pelo Patriota, violam a lei eleitoral.

Nas imagens, divulgadas no último dia 4 e ontem, os dois criticam a atuação vigente. Do Val afirma ainda que o trabalho assistencialista de Lancellotti "fomenta o tráfico".

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) em visita à região central de São Paulo - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Joice também visitou o local

Joice Hasselmann, pré-candidata pelo PSL, também visitou a Cracolândia no dia 7 de setembro. Ela publicou uma série de fotos no Instagram em que aparece abraçando supostos moradores da região, com críticas à gestão Covas.

"Passei o dia conversando com as pessoas na região mais central e absolutamente abandonada na cidade. Quero muito a independência desse povo de fato", escreveu a pré-candidata, em um jogo de palavras com o feriado.

Em entrevista ao UOL no início de setembro, Joice defendeu uma "solução mista" para a região, com prisão dos traficantes e internação compulsória para "casos mais graves" de dependência química.

"Para o traficante é cana, é operação. O usuário de drogas, qual o nível do vício dele? Se está em um nível em que é possível fazer uma recuperação com tratamento, trazendo as igrejas para dentro e com reaproximação da família. Para quem já está perdendo a batalha, não tem o que fazer a não ser internação compulsória", declarou Joice.

* Colaboraram Alex Tajra e Marcelo Oliveira, do UOL, em São Paulo.

Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão deste texto informou incorretamente a grafia do padre Julio Lancellotti.