PUBLICIDADE
Topo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Análise: Canal de YouTube candidato, Arthur do Val muda nome para aparecer

Arthur do Val: mamãe mudei - Divulgação/Band
Arthur do Val: mamãe mudei Imagem: Divulgação/Band

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

13/10/2020 04h00

2,7 milhões de inscritos e 3% nas pesquisas de intenção de voto.

Alguma coisa não fecha nas contas de Arthur do Val, 34, para chegar à Prefeitura de São Paulo.

Para alavancar a candidatura, o youtuber brigão do Movimento Brasil Livre (MBL) precisou rever a estratégia de se apresentar ao eleitor em versão vida adulta. Vai abrir mão do nome de batismo e a apelar ao perfil que virou um fenômeno das redes fazendo troça em ocupações escolares, vibrando com a prisão de Lula e filmando as próprias brigas com autoridades e opositores.

Talvez agora, como Mamãe Falei, os eleitores finalmente associem o nome artístico ao candidato do Patriotas.

A estratégia faz sentido. Não comparando, insistir no nome por trás do canal seria como se o Zico, que também nasceu Arthur, abrisse mão do apelido que o consagrou para agradar outras torcidas e mostrar que não é "só" um jogador de futebol.

Não faria sentido também se amanhã o Dedé, dos Trapalhões, se candidatasse e colocasse no santinho o slogan "Vote Manfried". Ou se o dono da Havan saísse candidato como "Luciano". Ou o Super-Homem, como Clark.

Não deve ser fácil lidar com a crise entre a identidade real e seu personagem, mas São Paulo deve valer uma missa. Ao menos, uma sessão de terapia.

Se o candidato aceitar uma sugestão, uma opção seria aderir à tática dos eternos postulantes a cargos públicos com a preposição relativa ao ofício. Uma eleição não é eleição sem o João do Açougue, a Dirce da Autoescola, a Wal do Açaí. Ok, talvez Arthur do Canal não fosse exatamente uma solução, mas não custa tentar.

A conversão de Arthur do Val em Mamãe Falei coloca entre os postulantes um canal do YouTube entre as opções do jogo. Para vingar, será necessário torcer para que os 2,7 milhões de seguidores não estejam assim tão espalhados mundo afora. Juntos, eles renderiam cerca de dois terços dos votos que um candidato precisa para se eleger em São Paulo — na última, João Doria (PSDB) levou com pouco mais de 3 milhões.

Em 2018, a fama ajudou o youtuber a ser eleito deputado estadual com 470 mil votos. Pedir voto a prefeito são outros (quase) 500.

No mundo virtual, o eleitor pode assinar quantos canais desejar sem precisar esperar quatro anos para renovar os votos. Na vida real, não consegue (ainda) ejetar o escolhido com a opção "deixar de seguir".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL