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Candidatos "experientes" contra aventureiros: a nova política ficou velha?

Minha jarra de abacaxi tinha mais chances que um político tradicional em 2016 - Reprodução
Minha jarra de abacaxi tinha mais chances que um político tradicional em 2016 Imagem: Reprodução

Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

13/10/2020 14h12

Em 2016, no auge da Lava Jato e da crise dos chamados partidos tradicionais, se minha jarra de plástico em forma de abacaxi se candidatasse a prefeito teria mais chance de ser eleita do que qualquer engravatado falando sobre tradição e serviços prestados à vida pública.

O símbolo da novidade foi João Doria (PSDB), empresário e ex-apresentador de TV que até tinha padrinho político, o então governador tucano Geraldo Alckmin, mas que viu a campanha ganhar tração dizendo que São Paulo não precisava de político, e sim de gestor, para acelerar. Hoje, segundo o Datafolha, 60% dos eleitores dizem não votar no candidato apoiado pelo ex-prefeito.

Quatro anos depois, o "novo" ficou velho?

Ao menos nas duas maiores cidades do país, a palavra experiência já não precisa ser escondida nem usada como palavrão.

Em seu programa de estreia na TV, Bruno Covas (PSDB) deixou Doria meio de lado para reverenciar o avô, Mário Covas, ex-governador e fundador do partido, a quem diz devotar inspiração. Em tom contido, menos afeito às marquetagens do antecessor, tem usado também a experiência em seus quase dois anos como prefeito para se diferenciar dos demais.

Foi também em busca de experiência que Guilherme Boulos se aliou a Luiza Erundina, ambos do PSOL, para falar com o eleitor. E, de certa forma, é isso também o que Jilmar Tatto (PT) tenta fazer ao mostrar que teve atuação nas gestões petistas na cidade no início do século e trazer para o centro, os lados, a frente e os bastidores da cena o ex-presidente Lula.

No Rio, o apelo à experiência é ainda mais explícito.

É nisso que se apoia Eduardo Paes (DEM), ex-prefeito e atual favorito. Na propaganda eleitoral, com o cuidado de manter distância da dupla Pezão-Cabral, ele não economiza imagens de seus tempos na prefeitura nem questionamentos sobre a situação do estado e do município após apostarem em dois rostos novos nas últimas eleições para prefeito e governador: Marcelo Crivella (Republicanos), que há quatro anos se apresentava como candidato diferente de tudo isso que estava ali e quebrou a hegemonia peemedebista, e Wilson Witzel (PSC), outsider de amarga lembrança que durou menos de dois anos no cargo —está afastado pelo STJ.

A fala ecoa a um sebastianismo à carioca, mas tende a ser efetiva. Um sinal de que o novo já não é mais o que era antigamente é o desempenho de Luiz Lima (PSL), nadador e deputado da base bolsonarista que se apresenta textualmente como diferente de tudo o que está aí e tem apenas 1% das intenções de voto.

A estratégia de apresentar o currículo e dizer que estava na política antes de política ser modinha também tem sido usada pela ex-governadora Benedita da Silva (PT) em sua plataforma eleitoral.

Da mesma forma, Bruno Reis, candidato do DEM apoiado por ACM Neto ao fim de dois mandatos em Salvador, deve ser eleito com um pé nas costas em uma disputa povoada por estreantes na terceira maior cidade do país.

Outra eleição marcada por novidades é a de Belo Horizonte, onde Alexandre Kalil (PSD), que era "novo" quatro anos atrás, hoje tem na experiência à frente da prefeitura o principal trunfo sobre jovens adversários como Rodrigo Paiva (Novo) e Áurea Carolina (PSOL). Periga levar no primeiro turno.

Ainda entre as maiores cidades do país, Fortaleza parece ser exceção no cansaço dos outsiders. Lá, o bolsonarista Capitão Wagner (Pros), figura ascendente na política cearense, está à frente de Luizianne Lins (PT), deputada e ex-prefeita da capital cearense, e José Sarto (PDT), o candidato da atual gestão e de Ciro Gomes e família. O vamos-ver entre a novidade e a experiência, ao que tudo indica, ficará para o segundo turno.

Até lá, vale ouvir com atenção os ventos da mudança. Diferente de outros anos, esses ventos podem estar saturados de aventureiros.