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Longe de isolamento, morte de jornalista não afeta agenda de saudita no G20

BANDAR AL-JALOUD/AFP
O príncipe saudita Mohammed bin Salman conversa com o presidente da França, Emmanuel Macron, durante a cúpula do G20 em Buenos Aires Imagem: BANDAR AL-JALOUD/AFP

Talita Marchao

Do UOL, em Buenos Aires

02/12/2018 13h58

18 encontros e 25 participações durante o G20: para quem apostou que o príncipe saudita, Mohammed bin Salman, seria isolado durante o encontro das maiores economias do mundo, o balanço dado pela diplomacia de Riad sobre a passagem dele por Buenos Aires mostra o contrário.

Suspeito de envolvimento na morte de um jornalista dentro do consulado saudita em Istambul, na Turquia, Salman não sofreu com repercussões do caso no encontro dos líderes mundiais. Durante a foto de família, como é conhecida a imagem tirada por todos os líderes no começo da cúpula, que acabou neste sábado (1º) em Buenos Aires, o príncipe até parece isolado no canto da foto, e sai rapidamente do local em que a imagem foi registrada. Um dos poucos que o cumprimentou durante a foto foi o presidente Michel Temer (MDB).

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Mas as fotografias, vídeos e encontros bilaterais anunciados durante a passagem de Salman mostram que o isolamento não foi bem desse jeito.

Alexander NEMENOV / AFP
Mohammed bin Salman foi fotografado na beirada do tradicional "retrato de família" do G20 Imagem: Alexander NEMENOV / AFP

A imagem que marcou a passagem do príncipe foi o caloroso cumprimento entre ele e o presidente russo, Vladimir Putin. Para quem não entendeu a razão para tanta proximidade, o resultado do encontro bilateral entre os dois dá algumas pistas: ambos concordaram em prorrogar o corte de suas produções de petróleo em meio a uma queda no preço do barril.

Reprodução/Twitter
Cumprimento do presidente russo Vladimir Putin ao príncipe saudita Mohammed bin Salman mostrou a intimidade entre os líderes Imagem: Reprodução/Twitter

O príncipe não conseguiu o tão esperado encontro com o presidente norte-americano, Donald Trump, mas teve uma rápida conversa e uma troca de olhares simpática durante a foto oficial. Mas Salman teve reuniões bilaterais com o presidente chinês, Xi Jinping, a primeira-ministra britânica, Theresa May, com o premiê indiano, Narendra Modi, e com o anfitrião, o presidente argentino, Mauricio Macri. O Saudita também teve uma breve conversa com o presidente francês, Emmanuel Macron.

Ainda que a fotografia mostre o que parece uma amistosa conversa, de acordo com o Palácio do Eliseu, Macron passou uma “mensagem firme” ao saudita, para que Riad aceitasse especialistas internacionais na investigação da morte de Jamal Khashoggi em Istambul-- o jornalista saudita foi morto, esquartejado e enterrado no quintal do consulado em outubro, quando foi ao local para solicitar documentos para o seu casamento com uma cidadã turca.

Em vídeo publicado pelo The Guardian, a conversa entre os dois não parece tão hostil. Em inglês, Salman diz “Não se preocupe”, enquanto Macron responde: “Eu me preocupo, estou preocupado”. A conversa segue: “Eu te disse”, afirma o francês. “Sim, você disse. Muito obrigado”, diz o príncipe. “Você sabe o que eu quero dizer”, segue Macron. O vídeo segue, mas não é possível ouvir o que os dois conversam. O presidente então diz: “Você nunca me ouve”, e o saudita responde. “Não, eu vou ouvir, é claro!”.

O que importa são os EUA-- e a relação com Trump

Paulo Velasco, cientista político e professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) explica que a relação da Arábia Saudita com o G20 está longe de ser política, sendo puramente financeira. “O país é parte do grupo porque é um dos grandes credores do FMI e está longe de ter uma presença geopolítica como os outros atores do encontro. Ela só está lá porque tem dinheiro demais”, explica.

“A Arábia Saudita tem no G20 uma vitrine para aparecer, já que ela não aparece em outros espaços. E o príncipe não vai se importar se alguém quiser cara feia ou não cumprimentá-lo. O que interessa a ele é a relação com os Estados Unidos”, diz Velasco.

REUTERS
O príncipe Mohammed bin Salman em encontro com a premiê britânica Theresa May na cúpula do G20, em Buenos Aires Imagem: REUTERS

Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas) lembra ainda que não é só a parceria estratégica que importa para norte-americanos e sauditas, que hoje envolve desde os conflitos no Oriente Médio a armas e petróleo. Ele ressalta ainda que o próprio Trump tem laços pessoais com o reino.

“Trump tem interesses econômicos que são pessoais”, diz o especialista. Vale lembrar uma das frases ditas pelo presidente norte-americano durante a campanha: “Arábia Saudita, gosto dos sauditas. Ganho muito dinheiro com eles. Eles compram todo tipo de coisas minhas. Eles me pagam milhões e centenas de milhões”, afirmou em julho de 2015.

Stuekel destaca ainda que Trump enxerga essa parceria com a Arábia Saudita como prioritária na região, o que explicaria os interesses da Turquia em enfraquecer a Arábia Saudita, divulgando informações sobre o assassinato de Khashoggi a conta-gotas nos últimos dois meses.

“O jornalista morto também era de família turca, então matá-lo é uma afronta a Turquia por ter matado alguém em Istambul desta maneira. Além disso, Ancara e Riad disputam a liderança regional no Oriente Médio, e isso precisa ser levado em conta neste caso”, diz Stuenkel.

“A Turquia também tem os seus próprios problemas internos, econômicos e de direitos humanos. Então essa também é uma ótima maneira de desviar o foco. Lembre-se de que, além disso, a Turquia também tem muito jornalista preso, ainda que este caso seja mais violento. A forma como aconteceu dá muito mais visibilidade ao assassinato”, afirma o professor da FGV.