PUBLICIDADE
Topo

Internacional

Sabotagem ou falha? Profissionais da aviação avaliam queda do avião no Irã

Vinicius Casagrande

Colaboração para o UOL, em São Paulo

08/01/2020 13h26Atualizada em 08/01/2020 21h56

Resumo da notícia

  • Aeronave ucraniana caiu com 176 pessoas a bordo no Irã; queda levanta dúvidas
  • Inicialmente, Ucrânia citou falha técnica, mas recuou e disse que investiga causa
  • Irã localizou caixas-pretas e afirmou que não as enviará à Boeing
  • "Pode ser só coincidência, uma falha do piloto ou uma bomba a bordo", diz engenheiro
  • Para comandante, falha no motor é pouco provável

A queda de um Boeing 737-800 da companhia aérea Ukraine International Airlines com 176 pessoas a bordo em Teerã (Irã) hoje levantou dúvidas sobre as causas do episódio, que ganha contornos mais suspeitos devido ao acirramento do conflito entre os governos persa e norte-americano.

Inicialmente, a Ucrânia falou em falha técnica, mas recuou e disse que investiga. Fontes da agência Reuters, porém, alegaram que, inicialmente, indícios apontam que o acidente foi causado por falha técnica e descartou a possibilidade de ele ter sido atingido por um míssil.

O Irã localizou as caixas-pretas e afirmou que não as enviará à Boeing, empresa sediada nos Estados Unidos.

O clima de desconfiança recíproca se explica pelo contexto de animosidades dos últimos dias: semana passada, um drone comandado por norte-americanos matou um general iraniano; e em retaliação, a Guarda Revolucionária Iraniana ordenou ataques contra bases dos EUA no Iraque.

"Pode ser apenas coincidência, uma falha do piloto ou uma bomba a bordo", afirma o engenheiro aeronáutico e presidente da consultoria Vinci Aeronáutica, Shailon Ian, que já trabalhou com investigações de acidentes aeronáuticos no Brasil.

Entenda as hipóteses e o contexto histórico:

Para comandante, falha no motor é pouco provável

Imagens que circulam na internet mostram o avião em chamas antes mesmo de cair — o que não caracterizaria falha no motor, conforme avaliação de Miguel Ângelo, diretor de segurança operacional da Aopa Brasil (Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves) e comandante de aviões comerciais.

"Falha de motor não causa incêndio. Mesmo que o motor pegue fogo, basta cortar (desligar) que o fogo apaga. No limite, o material que sustenta o motor se desprende, e o motor cai sem alastrar o fogo para a asa", afirma.

Ele também diz que se fosse falha no motor, a aeronave não cairia repentinamente. "Pode voar só com o outro motor", afirma.

"Eu descartaria falha do avião"
Miguel Ângelo, comandante de aviões comerciais

Modelo é considerado seguro

Após o acidente, a Ukraine International Airlines afirmou que os pilotos eram muito experientes. Até o momento, não há registros de que eles tenham enviado comunicado de emergência antes da queda.

A empresa também afirmou que a aeronave que caiu era uma dos melhores de sua frota.

O comandante Miguel Ângelo também avalia positivamente o modelo.

"Estamos voando esse avião há mais de 20 anos e é comprovadamente seguro", afirmou ao UOL.

'Chance de pane é pequena', diz engenheiro

Shailon Ian também disse não acreditar em uma falha mecânica do avião.

"Essa versão do 737 é segura e a chance de uma pane é pouco provável, só se alguém fez alguma manutenção e deixou algo para trás", afirmou.

Para o engenheiro aeronáutico, em caso de sabotagem, o mais provável é que o avião tenha sofrido alguma falha nas superfícies de comando que permitem o avião subir, descer e fazer curvas.

Avião tinha menos de quatro anos de uso

O Boeing 737-800 da Ukraine International Airlines vinha voando com regularidade.

A última vez que ficou um dia sem voar foi nos dias 10 e 11 de novembro, segundo o histórico de voo do avião no site FlightRadar24. Foram 24 voos desde o dia 1º de janeiro deste ano.

A rota entre Kiev (Ucrânia) e Teerã (Irã) era uma das mais comuns feitas pela aeronave de prefixo UR-PSR.

Nos primeiros dias de 2020, além de Teerã, o mesmo avião também voou de Kiev para Paris (França), Milão (Itália), Londres (Reino Unido) e Yerevan (Armênia).

Além disso, o Boeing 737-800 da Ukraine International Airlines é um avião novo. A aeronave fez o seu primeiro voo em 21 de junho de 2016, tendo menos de quatro anos de uso.

"Esse histórico mostra que o avião não enfrentava problema de manutenção", afirmou o engenheiro aeronáutico Shailon Ian.

Nova versão do 737 está proibida de voar

O Boeing 737 é o avião mais popular do mundo, com mais de 10,5 mil unidades produzidas. O modelo do avião que caiu no Irã era da série NG (Next Generation), que começou a voar em 1997.

Os grandes problemas do 737 vieram somente com a nova série Max. Após dois acidentes na Indonésia e na Etiópia, o modelo foi proibido de voar em todo o mundo em março do ano passado.

A restrição não afetou os aviões da série NG, mas alguns aviões tiveram de parar de voar no final do ano passado por conta de fissuras estruturais nas asas.

O problema, no entanto, foi menos abrangente, atingindo menos de 5% das unidades em uso em todo o mundo. Muitos deles já tiveram o problema resolvido e voltaram a voar. O avião da Ukraine International Airlines não havia sido afetado pelo problema.

Histórico: em 1988, EUA derrubaram avião no Irã

Em 1988, os Estados Unidos derrubaram um avião civil no espaço aéreo do Irã.

Na época, um Airbus A300 da Iran Air com 290 pessoas a bordo voava de Teerã para Dubai (Emirados Árabes Unidos) quando, ao sobrevoar o estreito de Hormuz, foi derrubado por um míssil disparado de um navio da marinha norte-americana.

Os Estados Unidos alegaram que confundiram o avião civil com um caça militar em procedimento de ataque.

Crise diplomática deve prejudicar investigação

No acidente de agora, as verdadeiras causas do acidente podem se transformar em um novo grande mistério da aviação mundial.

Em caso de queda de aviões comerciais, o processo de investigação envolve diversos órgãos internacionais, como a fabricante do avião e a agência de aviação civil do país onde o modelo foi produzido, do país da companhia aérea e do país onde ocorreu o acidente.

O problema é que, nesse caso, Irã e Estados Unidos teriam de trabalhar em conjunto para solucionar as causas do acidente.

"Com essa crise, o Irã não deve permitir que a FAA (agência de aviação dos EUA) ou a Boeing participem das investigações. Aí vamos ter de acreditar no que as agências do Irã disserem", afirmou Shailon.

Com a recusa do chefe da agência de aviação civil iraniana, Ali Abedzadeh, de enviar as caixas à Boeing, ainda não está claro onde serão feitas as análises desses dados.

Internacional