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Vai haver Terceira Guerra? O que se sabe sobre a crise EUA e Irã? Entenda

Foto mostra veículo destruído perto de onde o comboio do general iraniano Qasem Suleimani foi alvo de ataque de drone dos EUA quando deixava o aeroporto de Bagdá, no Iraque - AFP/HO/IRAQI MILITARY
Foto mostra veículo destruído perto de onde o comboio do general iraniano Qasem Suleimani foi alvo de ataque de drone dos EUA quando deixava o aeroporto de Bagdá, no Iraque Imagem: AFP/HO/IRAQI MILITARY

Felipe Pereira, Wanderley Preite Sobrinho, Alex Tajra e Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

04/01/2020 04h00Atualizada em 08/01/2020 09h49

Resumo da notícia

  • Semana passada, ação dos EUA matou líderes do Irã e do Iraque em Bagdá
  • Autoridades do Irã falaram em vingança, e Trump subiu o tom
  • Mas ainda assim, especialistas não acreditam que conflito venha a desembocar em guerra mundial
  • Situação deve levar a uma escalada de violência no Oriente Médio
  • Israel e Arábia Saudita são dois aliados dos EUA que podem virar alvo do Irã
  • Irã é um país de relevância regional e um conflito global exigiria inclusão de potências mundiais

O ataque americano que matou o general iraniano Qassim Suleimani levou o Irã a prometer vingança e gerou especulação sobre uma Terceira Guerra Mundial. Mas esta possibilidade não deve acontecer, conforme especialistas consultados pelo UOL. Eles ponderaram que o Irã é uma força regional e sem peso para envolver as outras potências globais no conflito. Sem a Rússia, a China ou a União Europeia medindo forças com os Estados Unidos, não há uma guerra com dimensões globais.

Apesar da baixa possibilidade de uma Terceira Guerra, a tensão aumentou nos dias após o ataque.

Professores duvidam da Terceira Guerra

Professor de Relações Internacionais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Paulo Velasco classificou como "exagero, com um quê de paranoia", a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Ele justificou seu argumento citando que as demais potências militares do mundo não devem se envolver na situação.

A opinião é partilhada por Manuel da Furriela, professor de Relações Internacionais da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), que é categórico em dizer que uma Terceira Guerra Mundial "não vai ocorrer". O especialista explica que o Irã é uma potência regional no Oriente Médio, mas sem expressão global.

"A Primeira e a Segunda Guerra [Mundial] ocorreram na Europa, onde estavam as principais potências, com participação da União Soviética, Estados Unidos, China e Japão. Não vai ter guerra agora porque um conflito com o Irã não teria essa dimensão internacional".

Ele lembra que há outros locais em que as potências globais exercem interesses diferentes sem que a tensão se converta em guerra. Na Síria, por exemplo, os Estados Unidos apoiam grupos que tentam derrubar o presidente Bashar al-Assad. O político se manteve no cargo graças ao apoio da Rússia. Mesmo em campos opostos, não houve guerra entre as duas potências.

Rússia e China vão se envolver?

Velasco acredita que a Rússia vai atuar na questão como um ator que impõe limite, uma linha vermelha para as ações americanas. O ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, condenou os ataques. Mas o especialista também não vê Moscou com uma reação que vá além do diálogo.

Em relação a China, o professor avalia que há ainda menos interesse em se envolver. Embora o desenvolvimento econômico tenha transformado o país num grande consumidor de matérias-primas de várias partes do mundo, a presença militar na região é pequena. Limita-se a uma base no Djibouti, país situado no Chifre da África.

Já a União Europeia costurou o acordo entre Barack Obama, ex-presidente dos EUA, e o Irã para frear o programa nuclear dos iranianos e deve atuar para pedir calma. Líderes de França, Inglaterra e Alemanha já se manifestaram pedindo calma e diálogo.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu parabenizou os Estados Unidos pelo ataque - Abir Sultan/Pool via REUTERS
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu parabenizou os Estados Unidos pelo ataque
Imagem: Abir Sultan/Pool via REUTERS

Alvos do Irã

A Terceira Guerra Mundial não está a caminho. O país perdeu seu segundo homem mais poderoso. O general Qassim Suleimani era considerado um herói nacional e comandava a Força Quds, unidade de elite da Guarda Revolucionária Iraniana. O professor de Relações Internacionais da UERJ considera três locais como alvos potenciais de Teerã: Iraque, Israel e Arábia Saudita.

"O primeiro e mais óbvio é dentro do próprio Iraque. Atacar posições americanas no Iraque. Há 5 mil soldados no país e mais 3 mil serão enviados [ao Oriente Médio]", diz Velasco. "Junto aos soldados há todo poderio americano no Golfo Pérsico. Depois, o Irã pode tentar atacar aliados dos Estados Unidos numa agressão indireta, assim Israel e Arábia Saudita se tornam alvo."

Apesar das possibilidades de uma Terceira Guerra serem pequenas, o Irã reagiu no dia 7 de janeiro e atacou, com pelo menos 12 mísseis balísticos, duas bases que abrigavam tropas dos EUA no Iraque. Uma das bases atingidas foi Ain al-Asad, em Anbar. A outra se localiza em Irbil, na região do Curdistão iraquiano.

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Arábia Saudita, o "desafeto"

A Arábia Saudita é o grande desafeto do Irã no Oriente Médio. Os ataques com drone a instalações de petróleo no país foram atribuídos a grupos apoiados por Teerã.

O professor de Relações Internacionais da FMU ressalta que Israel pode ser alvo porque representa o ocidente na região. "Israel e Arábia Saudita são alvos preferenciais, principalmente Israel porque sempre simbolizou os interesses americanos na região", diz Furriela.

Já Velasco acrescenta que o Irã pode adotar medidas que prejudiquem a economia global fechando o Estreito de Ormuz. O local é a única ligação do Golfo Pérsico com os oceanos, na sua parte estreita tem 54 quilômetros de largura e fica entre Omã e o Irã. Uma ação militar impediria a passagem de navios petroleiros e trancaria um local por onde passa 20% da produção mundial de petróleo.

Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã - Escritório do líder supremo do Irã/AP
Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã
Imagem: Escritório do líder supremo do Irã/AP

Crise fortalece conservadores

A morte do general Qassim Suleimani também tem impactos políticos internos no Irã. Furriela lembra que o país atravessa uma crise econômica que poderia ter diminuído com a implementação do acordo nuclear assinado em 2015 entre Obama e o Irã, do qual Donald Trump se retirou em 2018.

"A situação econômica iraniana é muito ruim e o acordo tinha como premissa equacionar este problema. O Irã é uma nação com grande potencial de desenvolvimento por ter recursos naturais e por ser um país muito organizado. O Irã é centrado na antiga Pérsia", diz o professor da FMU

As eleições legislativas no Irã em fevereiro são um ponto de avaliação por parte de Velasco. Ele espera que os conservadores avancem com o discurso de que a tentativa de diálogo com o Ocidente promovida pelos reformistas se provou infrutífera e danosa. Outra consequência esperada pelo especialista é que o próximo presidente do país seja conservador e eleito com base neste discurso.

Soleimani foi apontado pelos EUA como arquiteto da invasão da embaixada do país em Bagdá - KHAMENEI.IR / AFP
Soleimani foi apontado pelos EUA como arquiteto da invasão da embaixada do país em Bagdá
Imagem: KHAMENEI.IR / AFP

Invasão a embaixada e o ataque

Qasem Suleimani era o chefe da Força Revolucionária da Guarda Quds, a tropa de elite do exército iraniano apontada como responsável pela invasão à embaixada americana em Bagdá no início da semana.

O Irã nega participação na invasão. Já os EUA afirmam, por meio de nota emitida pelo governo, que "Suleimani estava desenvolvendo planos para atacar diplomatas americanos e membros do serviço no Iraque e em toda a região" e que, por isso, a resposta teve como objetivo "impedir futuros planos de ataque iranianos".

Para o professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel, "o assassinato do general é tão grave quanto a captura e morte de Osama bin Laden", em 2011. "Suleimani não era um terrorista, mas um militar de alta patente com excelente relação com o líder supremo do Irã, Ali Khamenei. Uma grande liderança política, talvez o futuro líder político do Irã."

Petroleiro atacado no Golfo Pérsico em junho de 2019 - HO/IRIB TV/AFP
Petroleiro atacado no Golfo Pérsico em junho de 2019
Imagem: HO/IRIB TV/AFP

Ataque a petroleiros no Golfo

A histórica tensão entre americanos e iranianos, no entanto, se aprofundou em junho passado, quando dois petroleiros, um norueguês e outro japonês, foram atingidos por torpedos no golfo de Omã, uma área próxima ao Estreito de Ormuz, de onde sai um quinto do petróleo consumido no mundo.

Os iranianos negaram participação no ataque. Segundo os EUA, porém, toda a tecnologia usada tinha origem no Irã, o país mais influente da região.

Três meses depois, em setembro, um ataque a duas instalações petrolíferas da Arábia Saudita ganhou as manchetes. O disparo de 25 mísseis balísticos e drones contra duas refinarias —incluindo a maior do mundo— aumentou ainda mais a tensão, com a suspensão de metade da produção das petrolíferas, afetando 6% do abastecimento global.

Embora os rebeldes houthis, do Iêmen, tenham reivindicado o atentado, os Estados Unidos culparam o Irã, responsável por financiar o grupo. Para analistas, o objetivo iraniano era desestabilizar a Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos desde o final dos anos 1940, quando os americanos tornaram o petróleo um combustível estratégico para seu desenvolvimento e supremacia econômica.

O Irã é hoje uma potência regional suspeita de armar e financiar grupos armados para desestabilizar Iraque, Síria e Líbano. No Iraque, esse papel é exercido desde 2014, depois que o Irã ajudou a expulsar o Estado Islâmico do país sob as bênçãos dos Estados Unidos. As milícias iranianas, no entanto, decidiram ficar no país, irritando iraquianos e americanos.

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Os que aconteceu nos dias seguintes ao ataque?

Os dias que se seguiram ao ataque americano foram de tensão. Uma multidão de iranianos empunhando cartazes com palavras de ordem contra os Estados Unidos saiu às ruas para receber o corpo de Suleimani. O cortejo fúnebre pediu "morte à América", "morte a Israel" e "morte à Arábia Saudita".

Por enquanto, a primeira resposta do Irã foi a retomada do enriquecimento de urânio ilimitadamente. A decisão põe fim a um acordo costurado em 2015 pelo ex-presidente americano Barack Obama com apoio das potências europeias, mas abandonado em 2018 por Trump. O anúncio do Irã pode significar a fabricação de armas nucleares no futuro.

No Twitter, Trump ameaçou atacar locais culturais iranianos em uma "grande retaliação" se o Irã decidir revidar a morte de seu líder militar. Ele declarou que os Estados Unidos têm 52 alvos iranianos, alguns "em um nível muito alto e importantes para o Irã e a cultura iraniana". Em resposta, O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammed Javad Zarif, comparou os Estados Unidos ao grupo terrorista Estado Islâmico (ISIS).

"Um lembrete para aqueles que alucinam sobre imitar crimes de guerra do ISIS, alvejando nosso patrimônio cultural: Através de milênios de história, os bárbaros chegaram e devastaram nossas cidades, arrasaram nossos monumentos e queimaram nossas bibliotecas. Onde eles estão agora? Ainda estamos aqui, e de pé", afirmou Zarif.

No Iraque, foguetes atingiram os arredores da embaixada dos EUA no em Bagdá no fim do domingo. Horas antes, o Parlamento iraquiano aprovou uma resolução pedindo ao governo que expulse as tropas americanas do país. Trump respondeu também pela rede social: ele prometeu impor sanções ao Iraque caso o país decida expulsar seus mais de 5.000 homens. "Vamos impor a eles sanções como eles nunca viram", ameaçou.

Sobre os ataques à região da embaixada americana no Iraque —cuja autoria ainda é desconhecida—, o presidente dos EUA voltou a dizer que eventual investida do Irã contra alvos americanos significará uma reação "com força total, e talvez de forma desproporcional".

A semana começou com o substituto de Suleimani, Esmail Qaani, pedindo a expulsão dos Estados Unidos da região. "Seguiremos o caminho do mártir Suleimani com firmeza e resistência e a única compensação para nós será expulsar os Estados Unidos da região", afirmou durante o funeral do antecessor.

Já Zeinab Suleimani, a filha do general assassinado, disse que a morte do pai resultará em "dias escuros" aos EUA e Israel.

"Trump, seu jogador compulsivo, seu plano maligno de causar separação entre duas nações do Iraque e do Irã com seu erro estratégico de assassinar Haj Qasem e Abu Mahdi falhou e só causou unidade histórica entre duas nações e seu ódio eterno por Estados Unidos ", discursou.

Em Kerman, cidade natal de Suleimani, uma confusão durante o seu funeral deixou pelo menos 40 mortos. Ainda não se sabe o que causou o tumulto. Segundo a agência ISNA, o enterro do general foi adiado devido à tragédia.

No dia 7 de janeiro, o Irã lançou pelo menos 12 mísseis em duas bases que abrigam tropas norte-americanas no Iraque. A TV estatal iraniana afirmou que o ataque foi uma resposta à morte de Suleimani.

Horas após o ataque, na madrugada do dia 8 de janeiro, um avião da Ukraine Airlines com 176 pessoas a bordo caiu logo após decolar do aeroporto de Teerã, no Irã. Ainda não se sabe, no entanto, se a tragédia tem relação com a crise entre Irã e Estados Unidos.

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