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Guerra da Rússia-Ucrânia

Notícias do conflito entre Rússia e Ucrânia


Quais são os grupos neonazistas russos e ucranianos na guerra

Com ideais neonazistas, os mercenários russos do Grupo Wagner (esq) e os ucranianos do Batalhão Azov (dir) se enfrentam no campo de batalha - Reprodução da internet/Arte UOL
Com ideais neonazistas, os mercenários russos do Grupo Wagner (esq) e os ucranianos do Batalhão Azov (dir) se enfrentam no campo de batalha Imagem: Reprodução da internet/Arte UOL

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

03/04/2022 04h00

O presidente russo Vladimir Putin relacionou a invasão à Ucrânia ao objetivo de "desnazificar" o país vizinho, mas acabou contando com o apoio de tropas identificadas com a extrema-direita no campo de batalha.

Em levantamento com o auxílio de pesquisadores, o UOL identificou as principais unidades formadas por combatentes neonazistas nos dois lados da trincheira, ligadas a russos e ucranianos.

Em comum entre esses grupos, há referências à Alemanha nazista de Adolf Hitler expressa em símbolos ou tatuagens, defesa de ideais fascistas, aversão ao comunismo e posturas xenofóbicas contra minorias étnicas nos dois países.

Relação de Rússia e Ucrânia com 'aliados' neonazistas

Homem identificado por especialistas como combatente britânico a serviço das forças ucranianas exibe tatuagem no antebraço direito com símbolos neonazistas em meio ao conflito contra a Rússia - Reprodução da internet - Reprodução da internet
Homem que seria um britânico a serviço das forças ucranianas exibe tatuagem no antebraço direito com símbolos neonazistas
Imagem: Reprodução da internet

Em uma foto atribuída a um grupo de militares aliados das tropas ucranianas com farda de origem britânica, um homem exibe a tatuagem no antebraço direito com suásticas estilizadas identificadas com grupos neonazistas europeus.

A guerra na Ucrânia vem atraindo simpatizantes da extrema-direita nos dois lados da trincheira. Além de voluntários, há ao menos seis regimentos neonazistas russos e ucranianos no conflito, que se arrasta há mais de um mês e segue sem perspectiva de um desfecho.

São grupos que compartilham dos mesmos ideais. Só que estão lutando uns contra os outros, em lados opostos. A guerra está dividindo a extrema-direita mundial"
Letícia Oliveira, pesquisadora

A pesquisadora e jornalista Letícia Oliveira, que investiga grupos neonazistas há mais de dez anos e mantém o portal "El Coyote", aponta sutis diferenças entre os regimentos no conflito.

"Na Ucrânia, esses grupos estão ligados às forças de segurança, mas já não obedecem mais ao Zelensky [Volodymyr Zelensky, presidente do país]. Já a Rússia trata esses grupos como 'forças de desestabilização' e sem envolvimento oficial, embora essas unidades atuem em conjunto com o exército e apoiem o Putin".

Especialista em estudos sobre a atuação da extrema-direita na Ucrânia e formado pela University College Dublin, o historiador Francisco de Paula Oliveira Fernandes contesta a importância das tendências políticas desses grupos em tempos de guerra.

Eles são neonazistas e cometem crimes por serem neonazistas. Mas a ideologia é secundária. A principal motivação desses mercenários para lutar é por dinheiro e poder, não por ideais"
Francisco Fernandes, historiador

O 'exército de Putin' contra o Batalhão Azov

Essa luta por dinheiro e poder tem sido uma das motivações do Grupo Wagner, empresa privada militar formada por mercenários russos apontados por opositores como integrantes do "exército particular de Putin" e acusados de envolvimento em crimes de guerra, como estupro, execuções e tortura.

Segundo o Pentágono, cerca de mil combatentes da unidade estão agindo nos últimos dias na região ucraniana de Donbass, formada pelas cidades separatistas Donetsk e Lugansk, declaradas como repúblicas independentes por Putin dias antes da invasão.

De acordo com especialistas, o Grupo Wagner também concentra ações em Mariupol, no sudeste do país invadido, principal alvo dos ataques devido ao acesso ao mar e à beira de uma catástrofe humanitária, segundo autoridades ucranianas.

"O que as tropas russas estão fazendo em Mariupol é crime contra a humanidade", disse Zelensky ao citar bombardeios a abrigos de civis.

Do outro lado da trincheira, os mercenários russos enfrentam outra unidade com ideais neonazistas, também ligada ao governo local: o Batalhão Azov, criado em 2014 por ativistas ucranianos de extrema-direita para enfrentar separatistas pró-Rússia em meio ao processo de criminalização dos partidos comunistas e de esquerda.

Assim como os mercenários russos, o regimento ucraniano responde por acusações de tortura e assassinatos contra prisioneiros de guerra. "Há denúncias desse tipo envolvendo grupos neonazistas russos e ucranianos", diz a pesquisadora Letícia Oliveira.

Referência à Alemanha nazista

O Grupo Wagner é chefiado pelo oligarca Dmitry Utkin. Ex-integrante das tropas especiais do seu país e próximo a Putin, ele deu nome ao grupo devido ao apelido que recebeu pelo seu interesse na obra do compositor Richard Wagner (1813-1883), parte de uma espécie de trilha sonora da Alemanha nazista e músico favorito de Adolf Hitler.

O geógrafo e cientista político Tito Lívio Barcellos Pereira, que participa de grupos de estudos sobre a atuação das forças armadas no mundo, estima que existam ao menos 6.000 russos vinculados ao Grupo Wagner no conflito.

Ainda que baixo em comparação ao efetivo das forças armadas russas na Ucrânia, o especialista aposta na eficácia na ação dos mercenários, mais experientes em comparação aos soldados das tropas regulares.

"São veteranos de outras guerras, com 15 anos de experiência em outras operações. Como são especialistas, cumprem uma nova etapa da guerra em Mariupol, que é a de caçar os integrantes do Batalhão Azov entrincheirados em zonas residenciais".

A cidade portuária, coincidentemente onde fica o quartel-general do Batalhão Arzov, está na mira de bombardeios com envolvimento do Grupo Wagner desde o começo da guerra. Centenas de veículos civis seguem diariamente até a região para resgatar amigos e parentes sem a certeza de que eles estão vivos.

Os russos ainda contam com outros dois grupos neonazistas: o Batalhão Esparta e o Rusich, que participaram dos conflitos nos últimos anos em Donbass.

Azov: ameaça interna a Zelensky

Financiado pelo próprio governo ucraniano e incorporado à Guarda Nacional sob o comando do Ministério do Interior, o Batalhão Azov foi citado por Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, para justificar o bombardeio de 9 de março contra uma maternidade de Mariupol.

"Este hospital foi tomado pelo Batalhão Azov e por outros radicais", disse o ministro russo.

Batalhão Azov, grupo neonazista ucraniano, divulga imagens de treinamento militar nas redes sociais - Reprodução da internet - Reprodução da internet
Batalhão Azov, grupo neonazista ucraniano, divulga imagens de treinamento militar nas redes sociais
Imagem: Reprodução da internet

Ainda assim, o principal exército neonazista ucraniano, formado por uma tropa de cerca de 3.000 soldados, representa uma ameaça ao próprio presidente Zelensky, aponta o historiador Francisco Fernandes.

O Batalhão Azov vem chamando o Zelensky de 'traidor' desde o primeiro dia da guerra por ter se sentido preterido nos diálogos com a Otan [a aliança militar ocidental]. As negociações por cessar-fogo não avançaram, em parte, por causa da pressão exercida pelo regimento no governo ucraniano"
Francisco Fernandes, historiador

Batalhão Azov, grupo neonazista ucraniano, divulga imagens de treinamento militar nas redes sociais - Reprodução da internet - Reprodução da internet
Batalhão Azov, grupo neonazista ucraniano, divulga imagens de treinamento militar nas redes sociais
Imagem: Reprodução da internet

O historiador cita a ligação da unidade neonazista com o governo ucraniano, que passou a financiar a unidade desde 2014 para enfrentar grupos separatistas em meio ao desmonte das forças armadas ucranianas.

Contudo, vê afastamento do presidente desde 2021, quando 11 mil civis foram recrutados pela Guarda Nacional do país sem a participação do regimento, que também fornece treinamentos militares —à época, o governo já sofria pressões para se afastar da unidade devido às suspeitas de ligação com a política neonazista e às acusações de crimes de guerra do Batalhão Azov.

"O Azov ameaçou matar o presidente ao menos três vezes desde o começo da guerra. Qualquer tipo de acordo de paz tem que envolver algum tipo de segurança ao Zelensky. Caso contrário, ele será assassinado no dia seguinte", projeta Fernandes.

Ambições políticas e bélicas na Ucrânia

O Batalhão Aidar é apontado por especialistas como o regimento neonazista ucraniano de origem mais nebulosa e com envolvimento em graves crimes de guerra desde 2014, como bombardeios em áreas civis, estupros em massa seguidos de homicídios e enterros em covas coletivas de corpos com sinais de violação sexual na região de Donbass.

O Pravy Sektor é visto como uma unidade neonazista ucraniana com maiores ambições políticas, embora também tenha envolvimento em ataques armados. Mas o Azov é o mais expressivo deles, aponta o historiador Francisco Fernandes.

"Os integrantes do Pravy Sektor tentaram fazer a transição para um movimento político. O Aidar tem se mantido mais discreto. Já o Azov foi mais ambicioso e priorizou o poderio bélico. Foi o primeiro a ter uma coluna de tanques própria, por exemplo", compara.

Brasileiro Alex Silva compareceu com bandeira do grupo neonazista Pravy Sektor em manifestação pró-Bolsonaro, em 2020 - Reprodução da internet - Reprodução da internet
Brasileiro Alex Silva compareceu com bandeira do grupo neonazista Pravy Sektor em manifestação pró-Bolsonaro, em 2020
Imagem: Reprodução da internet

Brasileiro em bandeira neonazista

O instrutor de tiro brasileiro Alex Silva, que mora na Ucrânia, se envolveu em uma polêmica ao ser flagrado em manifestações pró-Bolsonaro em 2020 enrolado em uma bandeira do Pravy Sektor.

Há sete anos no país invadido, ele gravou vídeo em uma ronda dizendo integrar "uma pequena força auxiliar da polícia" em apoio às forças ucranianas na capital Kiev no começo de março. Procurado pelo UOL, ele não respondeu a mensagens enviadas por celular.

Em um dos vídeos compartilhados no grupo que administra no Telegram, Alex Silva se dirigiu aos brasileiros, falando em "ucranizar o Brasil", movimento inspirado nas violentas manifestações de 2014 que resultou na queda do governo ucraniano e no ataque a políticos comunistas.

"Venha se juntar a nós aqui. Temos o plano A, o plano B... E até o plano C", disse, fazendo sinal com a mão simulando um disparo de arma de fogo.