Ofuscada pelo Estado Islâmico, Al-Qaeda segue ativa e fortalecida na Ásia e na África

Jacques Follorou

  • Al-Nusra Front via AP

Aliada dos talibãs, a organização consolidou suas bases na região afegã-paquistanesa e reforçou sua presença na África e na Ásia

Saint-Etienne-du-Rouvray, Cabul, Ansbach, Nice, Bagdá, Orlando. O ritmo dos atos terroristas parece estar se acelerando. Para a opinião pública, essa violência tem somente uma bandeira: a do Estado Islâmico (EI). Seja pela iniciativa do atentado, seja por ter servido de inspiração ou de pretexto.

Essa obsessão não deve fazer com que se esqueça da existência de uma outra ameaça: a Al-Qaeda, organização mãe do terrorismo jihadista contemporâneo. A preocupação deve ser reforçada pelo fato de que ela acaba de consolidar fortemente suas bases na região afegã-paquistanesa e de que suas franquias nunca estiveram tão ativas na Ásia e na África como agora. É motivo suficiente para reacender, nas grandes capitais, o temor de um novo grande ataque terrorista, no modelo do 11 de setembro de 2001.

Na França, a Direção Geral da Segurança Interna (DGSI) dispõe de um grupo especial dedicado à Al-Qaeda dentro do serviço que trabalha com os grupos sunitas extremistas. Para seus diretores, não é somente uma questão de organização interna, mas sim levar em conta um perigo real e específico. "A Al-Qaeda não morreu junto com Bin Laden", lembra um dos diretores da DGSI, "a organização age com métodos mais secretos que os do Estado Islâmico, ela não conquista territórios, mas ela procura atingir símbolos que podem sozinhos desestabilizar um país."

Propaganda

A DGSI trabalha, por exemplo, com a rede criada por Omar Diaby, conhecido como "Omar Omsen", um nativo de Nice de origem senegalesa considerado como um dos principais recrutadores de jihadistas franceses na Síria. Líder de uma katiba (brigada) de franceses afiliada à Frente Al-Nusra, braço sírio da Al-Qaeda e rival do EI, sua capacidade de instrumentalizar recrutas, inclusive alguns que se juntaram às fileiras do EI ou de outros grupos, e de lançá-los em operações complexas em território francês é levada a sério. Dado como morto há quase um ano, ele ressurgiu no início de junho, em uma reportagem do canal France 2, na qual ele disse considerar "inúteis" os ataques de 13 de novembro de 2015 em Paris, mas legitimava o atentado contra o "Charlie Hebdo". Era uma operação de propaganda destinada a exaltar os méritos da Al-Qaeda em comparação com o EI.

A outra preocupação diz respeito à tomada do poder dentro do movimento talibã afegão pelo clã Haqqani e seu aliado histórico Al-Qaeda. O líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, logo jurou lealdade no dia 10 de junho ao mulá Haibatoullah Akhundaza, o novo líder escolhido pelos talibãs afegãos após a morte de seu chefe, o mulá Mansour, morto por um drone americano no dia 21 de maio.

Haibatoullah Akhundzada é um religioso sem experiência ou legitimidade obtidas de combates, mas lideranças do movimento lhe atribuíram dois braços direitos: um dos filhos do mulá Omar, líder histórico do movimento talibã, que deve seu posto mais a seu nome que a sua influência, e Sirajuddin Haqqani, filho do comandante de guerra Jalaluddin Haqqani, ministro das Relações Tribais durante o regime talibã entre 1996 e 2001, aliado e protetor da Al-Qaeda.

No dia 14 de agosto de 2015, o mulá Mansur já havia aceitado a lealdade do líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, e já contava com o clã Haqqani, mas sua autoridade militar permanecia incontestável. "Dessa vez", explica um diplomata paquistanês de alto nível, "Haqqani e a Al-Qaeda se apoderaram do movimento e dispõem de um território do tamanho de um país, eles estão unidos contra o EI e podem reconstituir santuários como antes de 2001". No dia 11 de outubro de 2015, os Estados Unidos conduziram um ataque contra dois campos de treinamento da Al-Qaeda no sul afegão, algo que não acontecia desde 2001. O general John Campbell, então comandante das forças americanas no Afeganistão, expressou sua surpresa ao desabafar de forma pouco formal ao "Washington Post": "Eu nunca iria acreditar que pudesse ter um campo desses nesse lugar."

Apoios financeiros

No dia 12 de junho, o Conselho Nacional de Segurança (CNS) afegão indicou que essa nova parceria entre os talibãs afegãos e a Al-Qaeda dava "carta branca às forças americanas para multiplicar e estender seus ataques contra as lideranças desses movimentos". Entrevistado pelo "Le Monde", um dos membros do CNS acrescentou que "a decisão dos americanos de matar o mulá Mansur enquanto ele circulava dentro de um táxi em uma estrada isolada do Paquistão se explica antes de tudo pela ascensão da Al-Qaeda dentro do movimento talibã."

Em seu relatório anual sobre o terrorismo, publicado no início de junho, o departamento de Estado americano constata que depois de ter sofrido inúmeros reveses e perdas, a Al-Qaeda continua recebendo apoios financeiros na Arábia Saudita, e suas franquias continuam a se estender pela Ásia, sobretudo nas Filipinas, e na África. A Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI), apesar da intervenção francesa no norte do Mali, em janeiro de 2013, redobrou suas atividades nessa região. "Desde janeiro, já foram registrados mais de uma centena de ataques da AQMI e de seus aliados em toda a África Ocidental", observa um diretor da ONU em Bamaco.

O chefe da DGSI, Patrick Calvar, falou diante da Comissão da Defesa Nacional e das Forças Armadas, no dia 10 de maio, e resumiu à sua maneira as questões ligadas ao grupo fundado por Osama Bin Laden: "A Al-Qaeda precisa restaurar sua imagem; essa organização em algum momento ou outro vai tentar uma ação de grande escala capaz de lhe devolver alguma importância. Certos grupos dentro da Al-Qaeda estão preparados para ações externas, planejadas a longo prazo e que pretendem ser tão grandes que não podem ser realizadas muito rapidamente."

Tradutor: UOL

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