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Alemanha: "Não somos colonizadores, salvar a Amazônia diz respeito a todos"

Omid Nouripour - Wikimedia Commons
Omid Nouripour Imagem: Wikimedia Commons

Clarissa Neher

27/08/2019 15h14

O desmatamento e as atuais queimadas na Amazônia deixaram o presidente Jair Bolsonaro no centro de uma crise internacional. Os países do G7 concordaram em liberar 20 milhões de dólares para ajudar a combater os incêndios. O governo brasileiro, porém, rejeitou a oferta, e Bolsonaro afirmou que o presidente francês, Emmanuel Macron, precisa "retirar insultos" contra ele antes de o Brasil considerar o auxílio.

Para o deputado alemão e porta-voz de política externa do Partido Verde, Omid Nouripour, em vez de disponibilizar dinheiro, os países do G7 deveriam oferecer apoio técnico ao Brasil, enviando equipamentos e especialistas ao país.

"A questão é como podemos enfatizar e deixar claro para um governo que já mostrou não ter muito interesse em proteger a Amazônia que não somos colonizadores e que, sim, o Brasil é um país soberano, mas salvar a Amazônia diz respeito a todos nós", destaca Nouripour.

Em entrevista à DW Brasil, o deputado alemão criticou a decisão do governo alemão de suspender o financiamento de projetos para a proteção da floresta e da biodiversidade no Brasil.

Quanto à visão de países europeus sobre a economia brasileira, ele afirma: "Queremos que o Brasil continue sendo um país forte e que sua economia, particularmente, continue crescendo [...] Se os recursos naturais do país forem destruídos agora, em breve, não será mais fácil manter a força da economia brasileira."

DW Brasil: Como você avalia a atual situação ambiental no Brasil?

Omid Nouripour: O que está acontecendo na Amazônia é uma catástrofe não somente para o Brasil, mas para a humanidade.

Há algo que a Alemanha possa fazer para impedir o avanço do desmatamento e das queimadas?

Primeiro, é preciso fazer algo urgentemente para que os incêndios sejam combatidos. Os países do G7 concordaram em liberar 20 milhões de dólares para ajudar a conter as queimadas. Acho que isso não é suficiente e que não é correto transferir dinheiro. É preciso fornecer ajuda material.

Segundo, é preciso olhar para os motivos que causaram os incêndios. Não é a primeira vez que há queimadas na região, não é a primeira vez que a Amazônia está em chamas. No entanto, é a primeira vez que há um presidente no Brasil que está incentivando, desde a campanha eleitoral, quase abertamente, exatamente o que está acontecendo agora. É grotesco ele acusar ONGs e, por isso, é necessário ao menos imputar que Bolsonaro com sua retórica contribuiu para encorajar aqueles que estão colocando fogo a agir desta maneira. Além disso, desde que Bolsonaro assumiu o governo, as possibilidades de proteção da Amazônia em termos técnicos foram reduzidas no orçamento.

Por que não é suficiente a oferta de dinheiro feita pelo G7?

Precisamos contribuir com materiais e disponibilizar know-how. Temos que oferecer helicópteros e enviar especialistas da Defesa Civil e dos Bombeiros da Alemanha para realmente ajudar. O Brasil pode fazer muito. A questão é como podemos enfatizar e deixar claro para um governo que já mostrou não ter muito interesse em proteger a Amazônia que não somos colonizadores e que, sim, o Brasil é um país soberano, mas salvar a Amazônia diz respeito a todos nós.

Na semana passada, a imprensa alemã sugeriu que sanções econômicas ou o boicote a produtos brasileiros poderiam contribuir para proteger a Amazônia. Sanções ou boicote são bons caminhos para proteger o meio ambiente em outros países?

Se fosse possível separar exatamente os bens que foram produzidos à custa das florestas seria um caminho interessante, mas isso é muito complicado.

Por que é difícil essa separação?

As cadeias de produção não são sempre claras, e não há transparência suficiente. Precisamos urgentemente exigir essa transparência.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, argumentou na semana passada que países europeus estão usando a questão do meio ambiente para "para estabelecer barreiras ao crescimento" do Brasil. Como você avalia essa situação?

Não se trata de invejarmos uma economia forte brasileira. Dependemos do funcionamento sem problemas do Brasil como motor do poder econômico da América Latina. Queremos que o Brasil continue sendo um país forte e que sua economia, particularmente, continue crescendo. Porém, não se trata de manter a conjuntura econômica favorável agora até a próxima eleição e depois não há nada mais. Trata-se de construir um poder econômico e fortalecer a economia brasileira por gerações. Se os recursos naturais do país forem destruídos agora, em breve, será difícil manter a força da economia brasileira. Queremos que o Brasil seja forte, mas vemos que a destruição da Amazônia, um dos maiores tesouros desse país fantástico, não fortalece o Brasil.

O presidente da França, Emmanuel Macron, ameaçou bloquear o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. O Partido Verde apoia essa posição?

Sim, apoiamos, mesmo que seja apenas uma maneira de abrir as portas para que a nossa ajuda seja aceita, e, assim, a Amazônia possa ser salva. O Brasil não é o Mercosul. Por isso, não queremos que outros países e o povo brasileiro sejam punidos pela retórica de Bolsonaro. É importante sentarmos juntos para encontrarmos uma solução. Mas os produtos agrícolas, cuja produção contribuiu para a destruição da Amazônia, não perderam nada com esse acordo. Essa é uma posição antiga do meu partido.

Por outro lado, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, argumenta que o acordo possibilita a adoção de normas ambientais europeias nas relações comerciais e, desta maneira, um melhor controle dos produtos que entram na Europa. Como você avalia esse argumento?

Teoricamente está correto, mas quando falamos de milho geneticamente modificado, essa lógica acaba, ou quando falamos de abrir as comportas para produção de carne em larga escala, algo que só é possível porque o gado pasta onde antes havia floresta. Esses não são padrões ambientais como os que defendemos no acordo. Ele já foi negociado, e não vi nenhum mecanismo nele para isso [garantir esses padrões].

Há convergências entre a postura dos Estados europeus e o interesse dos fazendeiros europeus? Você acha que isso pode ser problemático?

A questão fundamental é o cumprimento de normas ambientais e de saúde. Não há apenas produtos agrícolas problemáticos no Brasil, há também na Europa. Não se trata de dizer aos brasileiros como eles fazem as coisas ruins e nós somente as boas. Mas, se os portões são abertos e não temos mecanismos para implementar esses padrões, haverá então perdedores dos dois lados.

As associações de agricultores franceses não descobriu de repente que os produtos brasileiros são concorrentes. Pode ser que isso esteja motivando Macron a agir contra o acordo. Mas esse não é nosso tema. Se Merkel fala de padrões ambientais, queremos ver como ela vai implementá-los e isso não está no atual acordo. O clima que a retórica de Bolsonaro cria encorajando pessoas a sair botando fogo não é necessariamente um voto de confiança de que esse acordo funcionará excelentemente e que os produtos atenderão às normas ambientais.

Como você avalia a decisão do Ministério alemão do Meio Ambiente de suspender o financiamento de projetos na Amazônia?

Essa medida está complementarmente errada. É preciso conversar com o lado brasileiro e com os parceiros valiosos no Brasil que também se beneficiam com esses fundos para chegar a uma solução comum. Faltou o diálogo. Não se trata de dialogar com o ministro do Meio Ambiente, um lobista do agronegócio, e não se trata deixar que Bolsonaro nos dite o que ele quer fazer com o dinheiro. São pequenos projetos que poderiam fazer milagres a nível local. O corte não foi uma boa ideia.

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