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Desmonte ambiental de Bolsonaro favorece ações ilegais, diz líder de estudo

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Eduardo Brondizio, codiretor do levantamento global da biodiversidade divulgado pela Unesco Imagem: Divulgação

Edison Veiga

Colaboração para o UOL, em Bled (Eslovênia)

2019-06-01T04:00:00

01/06/2019 04h00

O número chocou o mundo: 1 milhão de espécies estão em risco de extinção, segundo o mais abrangente estudo do gênero já realizado. O documento, divulgado no início de maio, ainda em sua versão preliminar, é resultado de um trabalho realizado pela Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês).

Foi realizado em conjunto por 400 especialistas de ao menos 50 países, sob a chancela da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura).

À frente desse exaustivo trabalho, está um brasileiro. Professor de antropologia da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e professor externo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o antropólogo e engenheiro agrônomo Eduardo Brondizio é o codiretor do levantamento global da biodiversidade em questão.

"Este papel se iniciou em 2016 e terminará com a publicação do relatório completo, no fim deste ano", conta. "É uma posição voluntária, porém praticamente de tempo integral."

Brondizio concedeu entrevista ao UOL em que fala sobre os bastidores dessa pesquisa e expôs preocupação com relação à política ambiental do governo Jair Bolsonaro (PSL). Segundo ele, ao desmontar uma estrutura de proteção ambiental desenvolvida anteriormente, o governo "favorecerá atividades oportunistas e ilegais".

O antropólogo também diz que a gestão Bolsonaro promove "uma visão atrasada de desenvolvimento e ocupação de regiões como a Amazônia, que gera pouco desenvolvimento econômico e deixa rastro de desigualdade e problemas ambientais". Brondizio diz que a mentalidade atual é o equivalente a matar uma "galinha dos ovos de ouro", apenas para comer sua carne.

UOL - Quando se fala em 1 milhão de espécies ameaçadas, o ser humano está no meio dessa conta?

Eduardo Brondizio -
Obviamente não, porém as consequências para a sociedade são significativas. Como diz a analogia, seria como, sem estarmos vendo, alguém tirasse um tijolo de cada vez da nossa casa e a água estivesse infiltrando e apodrecendo a fundação. Cada espécie perdida ou a degradação de uma parte da natureza afeta nossa qualidade de vida e nossas opções hoje e no futuro.

Há tempo de reverter esse quadro? Como?

Sem dúvida. Nós mostramos como as pressões atuais e projetadas, a exacerbação da pressão de mudanças no uso da terra, extração, poluição, espécies invasoras e mudanças climáticas estão reduzindo os ecossistemas, hábitats e população de diferentes espécies, comprometendo o futuro de até 1 milhão de espécies.

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A tendências em relação às populações de insetos não são conhecidas, mas foram documentados declínios acelerados em algumas regiões Imagem: Getty Images

As pessoas estão reagindo e cobrando mais ações e políticas públicas, mudando comportamento, se organizando. Temos bons exemplos de ações em todos os níveis, porém precisamos de mudanças mais significativas e da implantação dos instrumentos que já temos e que podem fazer diferença. O relatório revisa e discute como ações integradas de manejo e governança podem contribuir para reconciliar produção agrícola com conservação e proteção das águas, pesca e proteção dos oceanos, minimizar os impactos de infraestrutura, mitigação climática e transformações urbanas.

Contudo, enquanto muita gente está fazendo a diferença, em todos os níveis, precisamos responder com ações mais efetivas nos níveis nacional e internacional para reverter a degradação ambiental corrente e projetada, intensificadas pelas mudanças climáticas, e que certamente irão contribuir para exacerbar a desigualdade social em que vivemos. Uma parte importante dessa equação é a conversão de subsídios danosos à natureza (que promovem degradação e ineficiência de atividades produtivas) em incentivos positivos que promovam uma transição para uma economia sustentável.

A principal notícia do material divulgado é que 1 milhão de espécies em todo o planeta estão em risco. É possível fazer um recorte brasileiro? Como seria o cenário local?

Essa é a noticia que mais chamou a atenção da comunidade internacional. Porém é uma das dimensões do relatório, que cobre uma multiplicidade de aspectos sobre mudanças na biodiversidade e das condições ambientais do planeta e das implicações destas mudanças para a sociedade. As sínteses e modelos que apontam para a projeção para este século se baseiam em várias estimativas independentes, que consideram o estado de vários grupos de plantas e animais, assim como a extensão e condições dos hábitats e as pressões atuais e futuras. Enquanto isto varia de região para região, nós mostramos que as cinco principais causas impactando a biodiversidade e ecossistemas são as mudanças no uso da terra, a extração direta de recursos, mudanças climáticas, poluição, e espécies invasoras.

O Brasil publicou um relatório muito bom sobre a biodiversidade no final de 2018. É um relatório que deve ser divulgado e discutido amplamente pela sociedade brasileira. Mostra que as projeções sobre o aumento de temperatura no território brasileiro terão implicações significativas para a biodiversidade nacional e na provisão das contribuições da natureza fundamentais para a sociedade, como manutenção da quantidade e qualidade das águas, produtividade dos solos, diversidade alimentar e proteção para eventos extremos como secas e inundações, além de muitas outras.

O relatório aponta, por exemplo, para a redução e a mudança das áreas de ocorrência de várias espécies. E o possível aumento na área de ocorrência de vetores de doenças. Mostra ainda que alguns grupos de anfíbios, aves e mamíferos já enfrentam ameaças de mudanças climáticas. É preciso lembrar que boa parte das espécies ameaçadas não são conhecidas em detalhes ou são pouco consideradas, como insetos e plantas muitas vezes com distribuição restrita ou endêmica.

No caso específico do Brasil, é possível quantificar quantas as espécies ameaçadas?

Sim, mas não foi o enfoque do levantamento fazer analise específica a países. O Brasil tem uma base de conhecimento substantiva sobre a situação da biodiversidade nacional e grupos de pesquisa de nível internacional.

Dada a importância e o potencial da biodiversidade brasileira para a economia do país como um todo, e para a economia local, os investimentos nacionais são pequenos e frequentemente interrompidos.

O estudo traz problemas específicos brasileiros?

O estudo é a nível global e mostra como relações econômicas e de uso de recursos naturais entre regiões e países se passou nos últimos 50 anos e se projetam no futuro. Muitos problemas brasileiros são comuns a outras regiões, como desmatamento, poluição de rios e solos, extração ilegal de animais e plantas, problemas decorrentes de mineração, inundações cada vez mais frequentes em áreas urbanas, pressão sobre populações indígenas, conflitos por recursos, e muitos outros. Parte significativas das mudanças observadas nas últimas décadas ocorreu nos trópicos, onde também estão projetados que fatores como mudanças no uso da terra e climáticas acentuam pressão sobre biodiversidade e ecossistemas nessas regiões, incluindo o Brasil.

Como o senhor vê medidas do atual governo brasileiro no que tange à preservação do meio ambiente ou mesmo às preocupações ambientais?

Com muita preocupação. O Brasil desenvolveu uma capacidade boa em varias áreas de governança e pesquisa ambiental, além de ter assumido um protagonismo internacional importante nas áreas de mudanças climáticas, biodiversidade, direitos de populações indígenas e comunidades locais. Os problemas ambientais brasileiros são gigantes e com implicações sociais diretas.

O governo atual parece estar, por um lado, desmontando uma capacidade desenvolvida ao longo dos anos, e isso favorecerá atividades oportunistas e ilegais. Por outro, está promovendo uma visão atrasada de desenvolvimento e ocupação de regiões como da Amazônia, que gera pouco desenvolvimento econômico e deixa rastro de desigualdade e problemas ambientais.

Metaforicamente, a visão promovida nas narrativas atuais --mas que não são novas-- de desenvolvimento da região é o equivalente a utilizar uma "galinha dos ovos de ouro" pelo seu valor como carne. O desmatamento na Amazônia, apesar de ter reduzido significativamente do seu pico em meados dos anos 2000, continua alto e com sinais de aumento. Porém, é importante reconhecer que vários atores econômicos da região, inclusive dos setores de commodities, também mostram comprometimento com um futuro mais sustentável. De maneira mais geral, nossos rios estão morrendo, nossas cidades estão poluídas, represas e reservatórios vulneráveis. Uma parte significativa da população vive em condições intoleráveis de poluição e degradação ambiental, principalmente em áreas urbanas, sem saneamento ou um ambiente saudável. Ficamos insensíveis e passíveis a essas situações, naturalizando tais condições como parte da vida de um setor importante da sociedade nacional.

Recentemente, 602 cientistas de todos os 28 países da União Europeia assinaram uma carta publicada na revista Science pedindo que o continente pare de "importar desmatamento do Brasil" --ou seja, pare de comprar produtos agropecuários do Brasil se o país não tiver compromissos sérios ambientais. Como o senhor vê atitudes assim? A economia será a chave para a preservação ambiental?

É questão de tempo para que não só outros países ou grupos, mas consumidores passem a exigir responsabilidade ambiental e social ao longo de toda a cadeia produtiva. Progressivamente, a sociedade está levantando a voz contra a impunidade associada a poluição e degradação ambiental. O levantamento mostra o distanciamento cada vez maior entre onde produtos são consumidos e onde são extraídos ou produzidos, e o deslocamento dos impactos sociais e ambientais para países em desenvolvimento, e dentro destes para populações mais pobres.

Reprodução/Internet
Em 2012, Bolsonaro foi multado por fiscais do Ibama por pescar em área de conservação ambiental Imagem: Reprodução/Internet

Hoje, a disponibilidade de dados e tecnologia permite mapear e identificar o fluxo de produtos e financiamentos de atividades extrativas e produtivas, inclusive a origem de investimentos que alimentam atividades como o desmatamento. Transparência e responsabilidade serão, espero em poucos anos, uma parte normal de cadeias econômicas e comércio.

Uma mensagem central do relatório é a importância de reconhecer que a preservação ambiental é a chave para a economia. Esta é a grande transformação na maneira de pensar. Crescimento econômico está fundado nas contribuições visíveis e invisíveis da natureza, porém é promovido como um fim em si mesmo, justificando assim degradação ambiental e desigualdade social como consequências inevitáveis do processo de crescimento econômico.

Nós ainda não conseguimos nos livrar das narrativas perversas de ideologias de modernização do meio do século 20.

Como foi participar do desenvolvimento desse importante relatório?

Tenho tido o privilégio de poder conciliar minha posição de professor universitário com a dedicação ao levantamento nos últimos três anos. Trabalhamos com 142 pesquisadores nominados, de mais de 50 países, e outros 310 contribuintes, além de pesquisadores e jovens cientistas e unidades específicas de apoio técnico. O relatório completo passou por duas fases de revisões abertas à comunidade científica, governos e público. Recebemos em torno de 15 mil comentários. Respondemos cada um e revisamos o que foi necessário para manter o cuidado e a autoridade científica do relatório.

A interação entre diretores e autores foi e ainda é constante. É a maior revisão sistemática do conhecimento e dados sobre o estado do planeta: que transformações aconteceram nos últimos 50 anos, a relação entre trajetórias de desenvolvimento e mudanças ambientais, as respostas sociais e iniciativas de sustentabilidade, as projeções para as próximas décadas. Também me dediquei a desenvolver uma abordagem sistemática para incluir conhecimento indígena e local e questões de relevância para populações indígenas e comunidades.

Além da questão das espécies ameaçadas, que outros pontos o senhor destacaria como preocupações fundamentais do relatório em termos mundiais?

A análise sobre espécies ameaçadas é só uma parte do relatório. Nós avaliamos todos os biomas terrestres, aquáticos terrestres e oceanos (menos Antártida), os fatores diretos e indiretos por trás de mudanças ambientais, como essas mudanças têm afetado uma grande gama de benefícios materiais e não materiais, e a regulação do ambiente do qual todos dependemos.

Mostramos que até o momento já interferimos substantivamente em 75% da superfície terrestre, 66% dos oceanos e perdemos 85% de áreas úmidas. Mesmo assim, enquanto conseguimos aumentar os benefícios como produção agrícola, pesqueira, e extração de materiais, outras 14 categorias de benefícios que tiramos da natureza tiveram tendências negativas.

Na avaliação dos objetivos do Acordo da Biodiversidade para 2020, tivemos progresso em quatro dos 20 objetivos. Ainda mais sério para um futuro próximo, nossa análise mostra que se não revertermos a degradação ambiental e mudanças climáticas, estaremos comprometendo 80% dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável de 2030, inclusive aqueles ligados a pobreza, fome, provisão de água, energia, resiliência urbana e outros.

Também mostramos pela primeira vez que populações indígenas e comunidades locais vêm tendo e têm um papel global na conservação e uso sustentável da biodiversidade. No caso de populações indígenas, eles contribuem para o manejo e conservação de pelo menos 25% da superfície terrestre, onde se encontram 35% dos ecossistemas mais protegidos do planeta e também 35% das áreas protegidas. Além disto, uma parte significativa da agrobiodiversidade, plantas e animais domesticados e semidomesticados, é cuidada e mantida nessas comunidades.

Enquanto a degradação tem ocorrido em menor velocidade nessas áreas, fizemos uma síntese inédita de mais de 470 indicadores ambientais locais e mostramos que 72% mostram declínio. Enfim, a expansão contínua de fronteiras de exploração de recursos faz com que essas populações sofram pressões crescentes onde vivem.

É importante destacar que parte significativa do relatório se dedica a avaliar ferramentas e opções para o manejo sustentável da biodiversidade, da produção alimentar terrestre e aquática, manejo de bacias, áreas costeiras e marinhas, cidade, energia e infraestrutura, e adaptação e mitigação de mudanças climáticas. Nossas revisões mostram que já existem muitas abordagens e ferramentas, desde atividades de manejo específicas ao planejamento territorial que permitem conciliar nossas necessidades com a manutenção de um ambiente rico e resiliente a mudanças climáticas.

No caso do Brasil, como fazer com que as políticas públicas olhem de forma consistente para questões ambientais?

A degradação ambiental também está na base dos problemas sociais do pais, assim como está na base da nossa economia. A identidade e o sentido de qualidade de vida do brasileiro estão intimamente (ou estavam) ligados à natureza. Questões ambientais exigem abordagem multissetorial e não devem ser dissociadas de outras áreas de políticas públicas. Exportamos nossas riquezas naturais e agrícolas como matéria-prima bruta, sem criar empregos ao nível local e sem explorar o verdadeiro potencial da biodiversidade para novos produtos, medicamentos, tecnologias, ou como parte da solução para problemas urbanos como de saneamento, a adaptação a eventos climáticos extremos.

Alguns líderes mundiais --como o papa Francisco-- defendem que seria necessária a criação de uma autoridade mundial para cuidar de questões ambientais, pois só assim compromissos com o meio ambiente seriam praticados por todos de forma equânime. Seria essa a solução, em sua opinião? Como colocar uma ideia assim em prática?

A escala global de problemas ambientais requer maior coordenação internacional, porém só a implantação de acordos e instrumentos já existentes já teriam um impacto enorme e positivo. Precisamos continuar a avançar e apoiar efetivamente as organizações existentes e promover mais coordenação entre agências de vários setores, inclusive dentro das Nações Unidas. De maneira mais geral, a questão ambiental tem de ser cuidada em todos os níveis, do indivíduo a comunidades. Felizmente estamos vendo ações progressivamente se expandir, mas mudanças mais transformadoras são necessárias dentro de sistemas econômicos e financeiros.

É difícil falar em preservação ambiental em tempos de fake news, negacionismos científicos e tantas pseudopesquisas científicas enviesadas? Quais as maiores dificuldades?

Sim. Mas temos também a favor as redes sociais que ajudam a contestar fake news e disseminar ações cooperativas em favor de causas ambientais e sociais. Porém, ideologias populistas, ignorância e interesses econômicos oportunistas contribuem para disseminar desinformação e simplismos que colocam a questão econômica em oposição à questão ambiental. E que promovem um modelo de desenvolvimento que exporta as riquezas da nação sem agregar valor ou promover inclusão social.

No caso do Brasil, é trágica a vilanificação que vem sendo feito das populações indígenas e comunidades tradicionais, frequentemente através de mentiras e promoção de estereótipos negativos. Esse tipo de narrativa só é de interesse para especuladores de terras e de recursos. Observamos, no momento, uma infeliz promoção de discursos que questionam o valor da educação, a importância e contribuição da ciência para a sociedade, e que constrói narrativas mentirosas e falaciosas sobre os problemas ambientais do país. Infelizmente, ainda temos que encarar aqueles que negam desde mudanças climáticas até os problemas sociais que estão na nossa cara.

Brasil é o país que mais desmata florestas nativas

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