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Bolsonaro diz não ter prova, mas acusa ONGs por queimadas: "Maior suspeita"

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

22/08/2019 09h02

O presidente Jair Bolsonaro voltou a dizer hoje que as ONGS (Organizações Não Governamentais) são suspeitas de causarem as queimadas na floresta Amazônica, mas admitiu não ter como provar. Segundo ele, todos são suspeitos, porém as organizações seriam "as maiores".

Em conversa com jornalistas em frente ao Palácio da Alvorada em Brasília, quando questionado quem seria suspeito de provocar os incêndios ele disse que poderia "ser fazendeiro também, todo mundo é suspeito. Mas a maior suspeita vem de ONGs".

"Quer que eu culpe os índios? Quer que eu culpe os marcianos? É, no meu entender, um indício fortíssimo que é esse pessoal de ONG que perdeu a teta deles, é simples". Ao ser questionado sobre ter provas, ele respondeu: "Não se tem prova disso. Ninguém escreve isso 'eu vou queimar lá'".

Ele disse que não acusou as organizações ontem, quando insinuou que elas poderiam estar por trás das queimadas, mas que apenas as colocou como suspeitas. Segundo ele, foi irresponsabilidade da imprensa dizer que ele as acusou.

Após indicar que as ONGs são as maiores suspeitas pelas queimadas, Bolsonaro disse ainda ser vítima de perseguição das entidades."A Amazônia é maior do que a Europa, como que você vai combater incêndio criminoso nessa área? Você tem que pegar o cara em flagrante, fora isso não vai pegar quem tá tacando fogo lá. As ONGs perderam dinheiro que vinha da Noruega e da Alemanha, estão desempregados, tem que fazer o quê? Tentar me derrubar", disse.

Ontem, Bolsonaro disse que as ONGs poderiam estar por trás dessas queimadas devido a retirada de dinheiro às organizações. "Nós tiramos dinheiro de ONGs, repasses de fora, 40% ia para ONGs, não tem mais. De modo que esse pessoal está sentindo a falta de dinheiro". As entidades reagiram, dizendo que o presidente "culpa quem denuncia os problemas".

O presidente explicou como alguém poderia ter colocado fogo na floresta citando imagens compartilhadas pelas pessoas nas redes sociais, mas não especifica qual: "Em uma das imagens de uma pessoa de carro, está queimando a rodovia do lado todinha, o fogo exatamente da mesma altura. Dá pra reparar? O fogo da mesma altura. Um quilômetro. Típico de queimada feita como? O cara com bicicleta ou motocicleta, uma vara, uma câmara queimando pingando aquilo na beira da pista".

De acordo com ele, a imprensa está fazendo campanha contra o Brasil ao sugerir que seu governo estaria por trás das queimadas: "Não estou defendendo queimada. Nem dizendo que sempre houve e sempre haverá, não é isso. Infelizmente acontece isso ao longo da vida da Amazônia. Agora, me acusa de capitão Nero, colocando fogo lá é uma irresponsabilidade. Fazendo campanha contra o Brasil".

O país registra um aumento de 70% no número de focos de incêndio este ano, sendo mais da metade na região amazônica. É o maior índice desde 2013.

ONGs rebatem

Para ONGs, declaração de Bolsonaro é 'covarde' e 'sem base na realidade'

Acusadas pelo presidente de serem as "maiores suspeitas" pelo incêndio criminoso que se alastra pelo Amazônia nos últimos dias, as principais organizações ambientais internacionais e brasileiras reagiram às declarações de Bolsonaro.

"A declaração é, antes de tudo, covarde, feita por um presidente que não assume seus atos e tenta culpar terceiros pelos desastres ambientais que ele mesmo promove no País", disse ao Estado o coordenador de políticas públicas do Greenpeace, Marcio Astrini. "A Amazônia está agonizando e Bolsonaro é responsável por cada centímetro de floresta que está sendo desmatada e incendiada."

O WWF Brasil afirmou que a prioridade do governo deveria zelar pelo patrimônio, e não criar "divergências estéreis e sem base na realidade" do que ocorre na região.

"O WWF Brasil lamenta a nova tentativa do presidente Jair Bolsonaro de desviar o legítimo debate da sociedade civil sobre a necessidade de proteger a Amazônia e, consequentemente, combater o desmatamento que está na origem dos incêndios fora de proporção que assolam o País e comprometem a qualidade do ar em várias regiões", declarou.

Maia vai criar comissão externa para acompanhar situação

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse em seu perfil pessoal no Twitter que a Casa vai criar uma comissão externa para acompanhar o problema das queimadas que atingem a Amazônia. Além disso, o parlamentar informou que também vai realizar uma comissão geral nos próximos dias para avaliar a situação e propor soluções ao governo.

Repercussão negativa na imprensa internacional

A declaração de Bolsonaro de que ONGs poderiam estar por trás do fogo na região da Amazônia teve ampla repercussão negativa na imprensa internacional nesta quarta-feira, 21.

O jornal britânico The Guardian traz a informação de que Bolsonaro acusou ambientalistas de atear fogo na Amazônia para constranger seu governo, mas que o presidente não fornece evidências.

O site da revista alemã Spiegel traz a manchete "Floresta tropical do Brasil está pegando fogo". O texto diz que Bolsonaro tem uma política ambiental inconsequente.

Já a BBC News, do Reino Unido, mostra um vídeo com imagens dos incêndios na região da Amazônia. Na reportagem, cientistas dizem que a floresta tropical sofreu perdas e21m um ritmo acelerado desde que Bolsonaro assumiu o poder em janeiro.

Em Portugal, o jornal Público disse que a Amazônia está ardendo e já é possível ver do espaço.

No canal de notícias árabe Al Jazira, sediado no Catar, uma reportagem traz informações sobre os incêndios na Floresta Amazônica do Brasil que atingiram um recorde neste ano. A publicação disse que imagens de satélite da Agência Espacial Americana (Nasa, na sigla em inglês) mostram fumaça cobrindo a metade norte do País - uma área maior do que a Europa.

Na internet, a hashtag #PrayForTheAmazon (reze pela Amazônia) chegou a ocupar o primeiro lugar no Twitter desta quarta.

Artistas se manifestam nas redes sociais sobre as queimadas na Amazônia

Artistas brasileiros e internacionais usaram as redes sociais nos últimos dias para chamar atenção sobre as queimadas na Amazônia. A modelo Gisele Bündchen, a empresária Kim Kardashian, os cantores Caetano Veloso e Elza Soares, os atores Leonardo DiCaprio, Leandra Leal, Lindsay Lohan e Taís Araújo foram alguns dos que se manifestaram.

Ataques de Bolsonaro a ONGs

O presidente fez os primeiros ataques às ONGs nesta quarta, depois de vir à tona que número de focos de queimadas em todo o Brasil neste ano já é o mais alto dos últimos sete anos, conforme mostrou o Estado na segunda-feira, 19.

Desde 1º de janeiro até esta terça-feira, 20, foram contabilizados 74.155 focos, alta de 84% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com o Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que contabiliza esses dados desde 2013.

Um pouco mais da metade (52,6%) desses focos vem ocorrendo na Amazônia, com Mato Grosso na liderança. As queimadas já superam em 8% o recorde de 2016, um ano de extrema seca, que tinha registrado 68.484 focos no mesmo intervalo de tempo.

Apesar de este ano também estar com uma estiagem mais prolongada - o que chegou a ser sugerido como uma possível causa para o aumento das queimadas -, a seca é menos intensa do que a de 2016. Estudo divulgado nesta terça pelo Instituto de Pesquisas Ambiental da Amazônia (Ipam) apontou uma forte correlação entre o aumento das queimadas com a alta no desmatamento da Amazônia.

O total de focos neste ano já é 60% superior à média dos últimos três anos e está sendo impulsionando pelo corte da floresta, disseram os pesquisadores da ONG em nota técnica. Alertas de desmatamento feitos pelo Inpe indicam uma alta de 49,45% no desmatamento entre agosto do ano passado e julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores.

Bolsonaro: Queimadas podem ter relação com ONGs

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(Com Estadão Conteúdo)

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