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Europa usa Amazônia para fazer guerra comercial, diz líder ruralista

O deputado Alceu Moreira (MDB-RS), líder da frente ruralista no Congresso - Marília França/ Câmara dos Deputados
O deputado Alceu Moreira (MDB-RS), líder da frente ruralista no Congresso Imagem: Marília França/ Câmara dos Deputados

Guilherme Mazieiro

Do UOL, em Brasília

23/08/2019 13h43

A crise internacional criada em torno da Amazônia faz parte de uma estratégia europeia em meio a uma guerra comercial com o Brasil. Essa é a visão do líder da frente ruralista no Congresso, Alceu Moreira (MDB-RS), que se prepara para um tour pela Europa para tentar amenizar as críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) e evitar perdas comerciais no campo.

Influente no Parlamento, Moreira irá com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a países europeus tentar apagar o incêndio provocado pelas declarações de Bolsonaro, no momento em que o acordo entre União Europeia e Mercosul está ameaçado.

A meta é levar um discurso moderado a países como Alemanha, França, Itália e Espanha e mostrar que há sim preocupação com a preservação ambiental.

Em entrevista ao UOL, nesta sexta-feira (23), o deputado considerou que existem interesses de países europeus em rebaixar o Brasil para conseguir derrubar preços de produtos agrícolas.

É uma guerra de mercado. Utilizar-se da influência da Amazônia para fazer essa guerra nesse momento tem muito a ver com o que foi produzido nesse governo
Alceu Moreira (MDB-RS)

O parlamentar saiu em defesa do governo, disse que ONGs estrangeiras perderam o "conforto" que tinham na Amazônia e que a Europa depende da produção agrícola brasileira, por isso, o acordo UE-Mercosul deve prosperar.

A bancada ruralista é um dos alicerces do governo e foi um dos poucos grupos a indicar um ministro na Esplanada, a titular de Agricultura, Tereza Cristina. "Somos frontalmente contrários ao desmatamento ilegal", disse Moreira.

Veja os principais trechos da entrevista:

Qual avaliação que a bancada ruralista faz da repercussão internacional sobre a Amazônia?

Essa é uma resposta que não pode ser dada sem levar em conta a complexidade dessa resposta. Tem de tudo. Tem grileiro botando fogo na Amazônia, tem gente roubando minério, tem gente que tem interesse comercial nesse processo. Como a pauta ambiental é de alta sensibilidade, ela é aproveitada para muita coisa.

Tem uma publicação da Nasa que diz que os incêndios são muito semelhantes aos que aconteceram sempre, quando baixam as águas [dos rios]. E tem gente fazendo fotografia de incêndio de outros lugares do mundo como se fosse da Amazônia, porque isso é uma pauta que vende.

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O que é preocupante para o agronegócio brasileiro?

Somos frontalmente contrários ao desmatamento ilegal. O agro brasileiro não é só contrário, ele se coloca à disposição do governo para ser credenciado como fiscal desse processo. Portanto, a cada árvore derrubada, cada fumaça que aparece na Amazônia, creditar imediatamente isso ao produtor rural, como se ele fosse o responsável, não tenha dúvida que o interesse é colocar uma barreira comercial para depreciar o produto brasileiro. Isso é interesse comercial.

A discussão sobre a Amazônia é uma retórica comercial ou há um problema internacional para o Brasil?

Quando você propõe um acordo com a comunidade europeia, você não escreve, mas embala nesse pacote 750 milhões de clientes [europeus] para consumir os produtos produzidos no Brasil. Isso estabelece algumas regras posteriores e condicionalidades. Na minha visão, parte da conta pelo acordo, principalmente pela Alemanha e França, está sendo cobrada agora.

Eles estão tentando colocar essa pauta ambiental como empecilho. Porque são países que, embora sejam altamente populosos, ainda tem na sua matriz agrícola uma questão importante para sua economia. E é claro, como eles não tem um milímetro mais para ampliar a área plantada.

Eles têm clima definidos, não tem muitas alternativas. É claro que essas pessoas estão resistindo ao máximo, porque a cada saco de soja ou de milho produzido a mais pelo Brasil é um a menos que eles [agricultores europeus] conseguem vender no mercado [local], com o custo de produção mais elevado.

É uma guerra de mercado. Utilizar-se da influência da Amazônia para fazer essa guerra nesse momento tem muito a ver com o que foi produzido nesse governo [Bolsonaro]. Essa questão estava meio acomodada.

A Noruega explora minério e joga os resíduos no rio e isso fica mais ou menos assim.

As ONGs internacionais acabaram tendo dentro da Amazônia um convívio internacional absolutamente confortável. Com o atual governo, esse conforto foi mexido. E isso contrapõe os interesses de muita gente em muitos lugares.

É normal que nesse momento, tendo esses interesses atingidos, eles se rebelem muito com relação a isso. Mas isso não é determinante, é um ingrediente do processo.

Uma coisa que fica claro: Os agricultores são contrários ao desmatamento ilegal. A Amazônia é nossa, do Brasil e tem que ser cuidado pelos brasileiros.

Tem país europeu que não consegue controlar a entrada de imigrantes pelo mar. O próprio presidente da França não consegue controlar os coletes amarelos. Como vamos controlar um território de mata virgem e absolutamente densa, com 180 funcionários do Ibama? Com certeza não.

França e Irlanda anunciaram que podem votar contra o acordo UE-Mercosul. Se não prosperar o acordo, é bom ou ruim para o agronegócio brasileiro?

O último país a concordar [com o acordo] foi a França. Depois quem mais ofereceu resistência foi a Alemanha.

A questão de fazer um acordo com o Mercosul é muito mais uma questão de segurança alimentar da Europa do que qualquer outra coisa, ao mesmo tempo que nossos competidores querem fazer todas as lutas para comprar o que produzimos mais barato possível. Isso tem que ser levado em consideração, é do jogo político.

Vão manifestar muito mais para tentar botar empecilhos e dificultar o processo. De qualquer maneira, o acordo entre União Europeia e Mercosul tem que ser feito entre as duas partes. A comunidade Europeia não será impedida de fazer o acordo porque a França ou Alemanha não querem. A comunidade europeia é muito maior do que isso. E se não fizerem o acordo, vão fazer país por país.

Não acredito que esses empecilhos que têm agora sejam suficientes para fazer ruptura do acordo que foi feito por motivos muito mais sólidos, das necessidades de políticas de alimentação.

Hoje temos uma crise internacional. Isso não gera desgaste e preocupação para que o agronegócio tenha que se explicar?

Gozado que um toco de árvore na Amazônia é motivo para alarde internacional. Mas as toneladas de lixo jogadas no mar do Rio de Janeiro não é motivo para nada. A devastação da Caatinga não tem nenhum problema. Só tem problema a Amazônia. Cá para nós, toda questão ambiental do Brasil não está na Amazônia. E por isso fica claro que tem interesses muito além do que o presidente diz ou fala.

O senhor citou alguns dos atores [envolvidos no debate]. Qual o papel do governo dentro desse debate?

O governo hoje tem instituições, como a Embrapa e o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] que são capazes de passar para opinião pública a verdade sobre o fato. O que é excesso, o que pode o que não pode.

Essa expressão de comunicação com a sociedade não pode acontecer contra ninguém. É a favor da Amazônia.

O presidente mais contribui a favor da questão agrícola ou a prejudica?

Por enquanto, nós não temos nenhum tipo de prejuízo com relação a nada disso. Aliás, isso está muito mais no campo da retórica. Os nossos compradores de alimento sabem perfeitamente o que é verdade sobre o Brasil. O que faz o presidente da França é uma questão de natureza política.

Nós do Parlamento vamos visitar no dia 4 [de setembro] a Embaixada do Reino Unido e também vamos discutir a possibilidade de visita ao Parlamento inglês. Vamos visitar a Alemanha, a França, a Itália e a Espanha junto com o presidente da Câmara [Rodrigo Maia (DEM-RJ)]. Vamos fazer um debate com fundamentação científica e mostrar cada centímetro da Amazônia, o que está acontecendo. O quanto preserva, o quanto não preserva. Vamos fazer nosso papel pró-ativo.

A participação de Bolsonaro na troca do comando do Inpe, as críticas às ONGs e a questão do desmatamento: Em que ponto esses posicionamentos estimulam o debate sobre a Amazônia?

A gente tem que trabalhar no campo que a gente tem disponível. Sou presidente da Frente Parlamentar da Agricultura, a ministra da Agricultura [Tereza Cristina] foi uma indicação nossa, e faz um grande trabalho.

Hoje o que é positivo do governo com relação ao agro é tão maior que o negativo, que não sou eu que tenho que fazer crítica ao presidente Bolsonaro. Quem tem que fazer é a oposição. Não vou falar, de forma nenhuma desses excessos, por absoluto interesse estratégico. Nós não vamos entrar nessa seara de comentar o que Bolsonaro diz.

Bolsonaro é produto da eleição. Ele diz exatamente o que ele é a vida inteira. Acontece que o que ele diz pode ser aproveitado de uma forma ou de outra. Na minha visão ele produz uma quantidade enorme de verdades sobre o que está acontecendo. Mas a forma como diz é utilizada como contraponto por interesses comerciais. Isso é do jogo, temos que aprender a trabalhar com isso.

O governo se expressa pelas atitudes e ações práticas e objetivas que faz todos os dias, e não somente pela palavra de quem preside.

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