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"Enrascado", Salles evita polêmicas e manda mensagem de paz no Roda Viva

Mauricio Stycer

Do UOL, em São Paulo

27/08/2019 01h48

Em meio a uma gravíssima crise internacional causada por queimadas na Amazônia, seria natural esperar que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, demonstrasse algum nervosismo ou incômodo de estar no centro do Roda Viva na noite desta segunda-feira (26). Como a própria apresentadora, Daniela Lima, observou minutos antes de entrar no ar, o entrevistado estava "enrascado".

Mas quem assistiu ao programa em casa viu Salles totalmente à vontade. Calmo, sem alterar o tom de voz, quis passar a mensagem de que estava em missão de paz.

Na verdade, mostrou ser mestre na arte da retórica. Não demonstrou incômodo com nenhuma questão, mesmo não as respondendo diretamente ao excelente time de entrevistadores reunido para a missão. Driblou boas perguntas com solilóquios intermináveis, nos quais raramente chegou ao ponto questionado. Fugiu de quase todas as polêmicas.

Evitou duas vezes dizer o que pensava sobre a posição do presidente Jair Bolsonaro, que acusou sem provas ONGs de serem responsáveis pelas queimadas. Deu voltas quando indagado se o governo não passou uma "mensagem errada" ao questionar a "indústria das multas" do Ibama. Defendeu que a sua pasta deve "cumprir a lei, sem exageros".

Com respostas longas, atendeu a apenas quatro jornalistas no primeiro bloco do programa, com duração de 25 minutos. "Precisamos ser mais sintéticos nas perguntas", pediu a apresentadora no intervalo.

Salles deu um rápido sorriso quando Daniela Chiaretti, repórter especial do Valor Econômico, lembrou a posição do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, sobre mudanças climáticas. No início do mês, o chanceler havia dito: "Não acredito em aquecimento global. Vejam que fui a Roma em maio e estava tendo uma onda de frio enorme. Isso mostra como as teorias do aquecimento global estão erradas".

Mesmo assim, para Salles reconhecer que acredita, sim, que as mudanças climáticas ocorrem em consequência de atividades humanas, foi preciso que a pergunta fosse enunciada três vezes. "Não vou responder pelo Ernesto", disse antes de admitir: "É inevitável que atitudes humanas tenham influência sobre mudanças climáticas".

Salles também admitiu ter uma visão diferente da de Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil, que informou no início da noite que o governo decidiu rejeitar a ajuda de US$ 20 milhões (cerca de R$ 83 milhões) oferecida pelo G7 para a Amazônia. "Tenho uma outra visão, técnica", disse, observando que seria bem-vindo se a ajuda fosse em equipamentos. Um pouco antes, Daniela Lima havia observado: "Mais do que um especialista em meio ambiente, o senhor é um político".

No último intervalo, antes do bloco final, Salles deixou transparecer que a calma exibida durante a entrevista era fruto de um certo esforço: "Mudou o tempo do programa?", perguntou, aflito. "Achei que não ia acabar nunca", disse.

Também participaram da entrevista Ana Carolina Amaral, repórter de meio ambiente da Folha de S.Paulo e autora do blog Ambiência, Giovana Girardi, repórter de ambiente do jornal O Estado de S. Paulo, Bruno Blecher, diretor de redação da revista Globo Rural, e Daniel Gallas, correspondente de economia da BBC.

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