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Óleo invisível deixa manchas em banhistas que frequentam praias no Nordeste

Charles Silva, 45, ficou com a mão suja com óleo na praia de Cupe, em Pernambuco - Arquivo Pessoal
Charles Silva, 45, ficou com a mão suja com óleo na praia de Cupe, em Pernambuco Imagem: Arquivo Pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

15/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Banhistas relatam manchas de óleo no corpo após entrarem no mar
  • Óleo atingiu praias do Nordeste e de parte do Sudeste no ano passado

A temporada de férias chegou com o verão, e banhistas que frequentam praias paradisíacas do Nordeste estão sendo surpreendidos com manchas de óleo pelo corpo. Invisíveis a olho nu, fragmentos do material derramado grudaram no corpo de pessoas, segundo ao menos três relatos colhidos pelo UOL. Pesquisadores e autoridades confirmaram o problema em alguns pontos do litoral.

Um dos casos ocorreu na paradisíaca Barra de São Miguel, no litoral sul de Alagoas. Um casal de turistas foi à praia com duas crianças no sábado (11) e acabou deixando o local com manchas de óleo, especialmente na sola dos pés. O que chama a atenção é que a família não percebeu qualquer contaminação do ambiental.

"Não dá pra ver, mas o problema parece ser recorrente", diz a turista, que pediu para não ter o nome revelado. "Quando a gente chegou no hotel já havia na recepção óleo de soja pronto para dar os hóspedes para que limpassem o óleo. Não houve qualquer informação antes sobre isso." Ela mostrou uma foto do joelho sujo após apoiar-se na areia para brincar com os filhos.

O "óleo invisível" também foi percebido praia de Cupe, no município de Ipojuca, litoral sul do estado de Pernambuco. As águas claras convidaram a professora universitária Caroline Vieira Feitosa, 40, e o namorado, Charles Silva 45, para um mergulho junto com a família e sua cadela, em dezembro.

"Assim que entrei na água senti cheiro de óleo. Achei que estivesse impressionada. Mas ao retornar para o apartamento vi a cadela com manhas", conta Caroline. "Achei que era carrapicho, mas ela estava cheia de piche. Olhei e vi que eu estava com piche nos pés, e meu namorado, na mão."

Banhista com mancha de óleo no corpo em Barra de São Miguel, em Alagoas - Arquivo Pessoal
Banhista com mancha de óleo no corpo em Barra de São Miguel, em Alagoas
Imagem: Arquivo Pessoal

Ela afirma que chegou a perceber pequenas partículas de óleo. "Tem muito fragmento de óleo em pedaços bem achatados, do tamanho de botão de roupa. Mas nem sempre são visíveis", diz a professora, que também limpou o corpo com óleo de soja. "No caso da minha cachorra foi mais fácil cortar o pelo em algumas regiões", conta.

Na Bahia, problema similar foi flagrado por uma banhista no dia 22 de dezembro, na praia de Cumuruxatiba, no município do Prado (BA), no sul baiano. Nas imagens, há pequenas manchas de óleo pelo corpo de uma banhista.

Segundo o último balanço do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis), do final de agosto até o dia 8 de janeiro de 2020, 997 localidades haviam sido afetadas em 130 municípios dos estados do Nordeste, além do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.

Fragmentação esperada

Em dezembro, o UOL havia revelado que especialistas alertavam para a chegada do óleo no litoral nordestino ainda em pequenos fragmentos, especialmente nos estados de Alagoas, Sergipe e Bahia.

Novamente procurados, pesquisadores afirmaram que a fragmentação do óleo a tamanho invisível a olho era algo esperado.

Rivelino Martins Cavalcanti, do Laboratório de Avaliação de Contaminantes Orgânicos do Labomar da UFC (Universidade Federal do Ceará), afirma que é um erro achar que o problema terminou com o fim da chegada das grandes manchas no litoral. "Agora que o perigo e o risco estão muito maiores. Cada ressaca que tiver vai jogar um pouco do resto desse óleo", diz.

Ele explica que, se antes você tinha grandes manchas de óleo, agora elas são até microscópicas. "Isso faz parte do processo de dispersão, mas ainda há muito material na costa. Só que ele agora está em nível micro e até molecular. A gente não vê a olho nu."

Para ele, será necessário um tempo maior até que tenhamos certeza de que as praias estão livres de contaminação. "Em todo canto do mundo onde ocorre algo assim são cinco, dez anos de avaliação até realmente certificar que está ok", pontua.

União de partículas vira mancha

Segundo Miguel Accioly, do Instituto de Biologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia), o problema está presente ao menos em áreas do litoral sul e norte baiano. "Em águas calmas, especialmente, as pessoas ficam sentadas ou de joelhos e meio que ficam com os membros um pouco enterrados na areia", conta.

Ele explica que, praias e manguezais estão com muitas partículas de óleo enterradas. "O contato com a pele ficará sendo marcado, até por que óleo atrai óleo e um pequeno pontinho grudado na pele vai atraindo outras pequenas partículas —a maioria nem distinguidos a olho nu. Depois de um tempo será uma mancha visível", assegura.

Análise vê fragmentos

O coordenador da força-tarefa sobre óleo da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), Emerson Soares, disse ao UOL que duas praias alagoanas tiveram análises com mais problemas: além da Barra de São Miguel, Japaratinga, no litoral norte, também teve problemas. "Nas análises de água encontramos pequenos fragmentos", diz.

Ainda segundo o especialista, a última análise da água feita em 19 de dezembro mostrou que ainda há problemas na qualidade. "Mas ela está um pouco melhor que no início do problema, mas poderia estar melhor. Mas importante ressaltam que há problemas que não são do óleo, são efluentes de esgoto e outras coisas lançadas", revela.

Ele ratifica que ainda existe um pouco de petróleo no fundo e na parte superficial do mar. "As correntes que trazem em pequenas porções. Isso chega na areia com os movimentos da maré, que cobre e descobre. Aí você pisa e suja", conta.

Risco pequeno

Para Alberto Wisniewski Junior, do Departamento de Química da UFS (Universidade Federal de Sergipe), devido ao tamanho do derramamento, é provável que exista resquício do óleo em pequenas quantidades pelo mar. "Não é normal tomar banho de mar e sair com óleo, mas considerando ser vestígio ainda deste incidente, é possível, sim", afirma.

Entretanto, o pesquisador, especialista na área de petróleo, afirma não ver riscos graves à saúde de quem se suja. "Não irá acarretar em prejuízos à saúde, salvo alguma situação alérgica específica ou se expor ao sol, o que pode levar a uma queimadura ou a algum dano à pele", afirma.

Autoridade: vestígios e resquícios

O UOL entrou em contato com os órgãos ambientais dos três estados com problemas citado por banhistas na reportagem.

O Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia) confirmou que têm chegado ao litoral "pequenas pelotas, que não são fragmentos novos, mas resquícios [do óleo]". "Hoje, o trabalho de limpeza tem sido apenas recolher esses resquícios", informou a assessoria de imprensa do órgão.

A Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco disse que a Diretoria de Controle de Fontes Poluidoras "está fazendo um levantamento da situação e até a próxima quinta-feira emitirá um parecer sobre a situação das praias."

Já o coordenador do Programa Estadual de Gerenciamento Costeiro do IMA (Instituto do Meio Ambiente de Alagoas), Ricardo César Oliveira, afirmou ao UOL que o órgão não tem recebido relatos de óleo no litoral alagoano.

Em nota, o GAA (Grupo de Acompanhamento e Avaliação, formado por Marinha, ANP [Agência Nacional de Petróleo] e Ibama) informou que "a situação caminha para a normalidade" e que as poucas localidades ainda afetadas "apresentam somente vestígios esparsos."

O GAA diz que, no momento, trabalha para o estabelecimento "dos pontos de término." "Os pontos de término de limpeza são um conjunto de critérios específicos estabelecidos para um trecho da costa afetada que definem quando o esforço de limpeza foi concluído para este trecho. Com efeito, os pontos de término são a definição prática de 'limpo' para um trecho da linha costeira afetada pelo derramamento", explica.

Para o GAA, "considera-se uma área limpa quando os pontos de término predefinidos foram alcançados e fica acordado que as ações de resposta alcançaram seus objetivos." "Em alguns casos, a limpeza natural pode ser menos danosa ao ambiente do que técnicas ativas de limpeza. Portanto, os pontos de término devem considerar as características de cada ambiente", diz o texto.

No final de dezembro, pedaços de óleo ainda apareciam em praias do Nordeste

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