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Meio Ambiente

Óleo vazado há um ano segue aparecendo e deve permanecer por décadas no mar

Voluntários retiram petróleo na praia de Itacimirim (BA), em março deste ano - Mateus Morbeck/UOL
Voluntários retiram petróleo na praia de Itacimirim (BA), em março deste ano Imagem: Mateus Morbeck/UOL

Leandro Barbosa

Colaboração para o UOL, em Jundiaí (SP)

30/08/2020 04h03

Se não fosse a quarentena devido à pandemia do novo Coronavírus, o pescador Vandécio Sebastião de Santana, conhecido como Del, completaria 365 dias tirando petróleo da Praia de Suape e manguezais próximo da sua casa, em Cabo de Santo Agostinho (PE).

Por dias a fio, ele tem se dedicado a tirar os fragmentos das manchas de petróleo cru que invadiram o litoral brasileiro há um ano, em 30 de agosto de 2019. Desde então, mais de mil praias foram atingidas da Paraíba ao Rio de Janeiro, culminando no maior desastre ambiental por extensão na história do país.

"Eu fico aflito com uma situação dessa. Passou um, dois, três meses, agora, já deu um ano, e a gente tá aí limpando esse óleo. O óleo que a gente encontra é do tamanho de uma bolacha. Vários pedaços espalhados pela areia e também dentro do mangue", explicou Del.
Esses "pedaços de óleo" citados pelo pescador apareceram no decorrer deste ano em praias dos estados Rio Grande do Norte, Bahia, Pernambuco e Alagoas, após fortes ondulações que reviraram o mar.

A Marinha informou ao UOL que os vestígios coletados em todo o litoral brasileiro durante 2020 acumulam cerca de 50 quilos de petróleo, embora uma nota à imprensa no site da organização, do dia 24 de junho, indique que "desde o reaparecimento, em junho deste ano, foram recolhidos cerca de 100 quilos de vestígios de óleo".

O material tem o mesmo perfil das 5 mil toneladas de petróleo recolhidas das praias brasileiras entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020. "É ainda esperado o ressurgimento dos vestígios de óleo do incidente de 2019 pelos próximos anos, de forma reduzida ao longo do tempo", afirmou a Marinha.

O que foi coletado este ano não representa a quantidade de petróleo ainda presente na costa brasileira, de acordo com professor Clemente Coelho Junior, cofundador do Instituto Bioma Brasil, organização que tem desenvolvido ações e pesquisas em áreas atingidas por este crime ambiental, no nordeste brasileiro. Clemente explica que os fragmentos são pequenos e se espalharam por uma grande área, algumas de difícil retirada.

"Fragmentos do tamanho de grãos de areia foram observados em praias litorâneas após o evento. Infelizmente, tais fragmentos ficarão por décadas, até sua total decomposição."

Voluntários do grupo Guardiões do Litoral realiza limpeza na praia de Subauma (BA), em janeiro - Mateus Morbeck/UOL - Mateus Morbeck/UOL
Voluntários do grupo Guardiões do Litoral realiza limpeza na praia de Subauma (BA), em janeiro
Imagem: Mateus Morbeck/UOL

Toneladas de óleo invisível

Marcelo Soares, professor do Instituto de Ciências do Mar - Labomar, da Universidade Federal do Ceará (UFC), também afirma que apesar da quantidade retirada das praias este ano ser muito inferior ao ano passado isso não significa muita coisa, uma vez que já se passaram meses do crime ambiental.

"A gente não sabe o quanto se degradou. Com certeza temos toneladas de óleo que agora são invisíveis".

Marcelo afirma que pesquisadores do Instituto se dedicam para entender os impactos desse material à vida marinha e humana. "A maior parte do óleo é formada por hidrocarbonetos, que tem um grande potencial para causar mutações e câncer. Às vezes, a pessoa pensa 'eu não estou vendo mais o óleo, ele não está na praia'. Não! Isso não quer dizer que ele não está mais lá. Os fragmentos de óleo agem a nível molecular contaminando pescados e banhistas", afirmou o professor.

A fala do Marcelo vai ao encontro do temor do pescador Del. Em contato com petróleo desde que tudo começou, ele afirma que nunca fez qualquer tipo de exame para saber se algo o afetou.

"Agora eu estou bem, mas eu posso ter algum efeito colateral no meu corpo daqui a dois ou três anos. Já se passou um ano, e não tive nenhum acesso [a algum tipo de monitoramento de saúde], não vai ser agora que vou ter", desabafa.

Ambiente deve se recuperar em "20, 40 anos", afirma professor

Apesar de não poder afirmar a causa das mortes das tartarugas que encontra na praia, Del nunca descarta que o petróleo possa ser o culpado. "Como é que a natureza sobrevive depois de tanto óleo?", questiona. Uma pergunta que só o decorrer dos anos poderá responder, de acordo com Clemente.

O professor afirma que áreas como como costões, recifes e troncos e raízes de mangues atingidos pelo petróleo serão por alguns anos zonas mortas, sem nenhum organismo incrustante.

"O restabelecimento dessas áreas pode demorar de 20 a 40 anos."

Para mensurar o nível dessa contaminação os pesquisadores do Labomar, mesmo sem receber recursos governamentais para pesquisa, pretendem ir a campo, entre setembro e outubro, coletar materiais que ajudem a compreender o impacto desse óleo.

"Existem cálculos que podem ser feitos para analisar o risco aos diferentes organismos da vida marinha. Por exemplo, nos últimos meses, tem se encontrado tartarugas mortas com óleo dentro do intestino", afirmou Marcelo.

Quanto às pessoas, o pesquisador explica que um dos cálculos que podem ser feitos é o de risco alimentar, outra pesquisa que o instituto pretende fazer.

Para o pescador Del o caminho continuará o mesmo. "Quero ver meu filho crescer em um mundo que ainda tenha natureza, vou lutar por isso sempre", afirmou. "Eu vivo da natureza. Meu patrão é o mar. E ele tá me dizendo que tá sendo sujo e poluído. E eu vou gritar [por ele], até o último suspiro de vida aqui".

Procurados pelo UOL, Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o Ministério do Meio Ambiente não informaram se têm realizado ações de monitoramento e quais as estratégias elaboradas pelos órgãos para lidar com os impactos deste crime ambiental no decorrer dos anos.

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