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Meio Ambiente

Bolsonaro diz que acusará empresas de importar madeira, mas cita a França

Do UOL, em São Paulo

19/11/2020 19h35Atualizada em 20/11/2020 00h52

Depois de afirmar que iria divulgar a lista de países que compram madeira ilegal do Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recuou e afirmou que apontará empresas estrangeiras que estariam importando o material de forma irregular.

"A gente não vai acusar nenhum país de cometer crime ou de ser conivente com um crime, mas temos nomes de empresas que fazem isso, e de [países que] poderiam estar nos ajudando a combater esse ilícito", afirmou Bolsonaro hoje à noite, durante live semanal transmitida pelas redes sociais.

Ao ser questionado pelo jornalista Augusto Nunes se a polícia sabe qual é a "quantidade de madeira extraída ilegalmente comprada por empresas francesas", Bolsonaro classificou o país europeu como uma "concorrente de commodities":

"Eu ouvi aqui que tem vários países, e a quantidade que são importadas anualmente. Se você pegar, tem a França também aqui [na lista] e tem o tipo de madeira. Se você pegar o montante de ipê, por exemplo, tem vários países, e aquele montante é muito superior ao que é permitido extrair em reserva legal, em área de manejo, a gente nota isso daí. O Augusto citou diretamente a França, porque ela é um concorrente nosso de commodities."

"O grande problema nosso para avançar no acordo da União Europeia com o Mercosul é justamente a França. Estamos fazendo o possível, mas a França, em defesa própria, nos atrapalha no tocante", completou.

Durante a live, o presidente não revelou o nome das empresas que estariam envolvidas na prática ilegal. Nem apresentou provas para as acusações.

Marinha fará barreiras, diz Bolsonaro

Ao lado do ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, e do delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva, Bolsonaro falou sobre os planos do governo federal para diminuir o desmatamento ilegal.

"Vai entrar em cena a Marinha do Brasil porque toda madeira ilegal sai por via aquaviária. Dá pra fazer barreiras e conferir o deslocamento dessa madeira: a que for legal, passa", informou.

Para o presidente, assim que o Brasil chegar a um "bom termo nessa questão", o desmatamento vai diminuir drasticamente. "É o que queremos".

As informações teriam sido obtidas a partir de um rastreamento da Polícia Federal. Durante a live, ao lado de Bolsonaro, o delegado Saraiva explicou que o método para descobrir a origem da madeira usa três tecnologias diferentes: isótopos estáveis, uma espécie de DNA que mostra a proveniência geográfica de produtos, além do DNA e assinatura química da madeira.

"Jogo econômico"

Bolsonaro definiu as críticas que vem recebendo como um "grande jogo econômico". Segundo o presidente, os países querem atingir o Brasil por ser uma potência do agronegócio. "Eles querem diminuir a concorrência com toda a certeza. Isso facilita até mesmo o comércio interno de commodities".

O presidente ressaltou que em 2021, a Inglaterra realiza a Cúpula das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. "É o cartão de visita que a Inglaterra está apresentando. Vai ser feito política em cima disso e o Brasil é o país que mais sofre com isso".

Atrito com países estrangeiros

Anteontem, durante a cúpula dos Brics, o presidente Bolsonaro havia ameaçado entregar uma lista de países que compram madeira ilegal. Um movimento que pode aprofundar ainda mais a crise diplomática com países europeus.

A questão ambiental é o maior ponto de atrito diplomático entre o governo brasileiro e demais países. No ano passado, o presidente francês Emmanuel Macron chamou as queimadas na Amazônia de "crise internacional" o que provocou a fúria de Bolsonaro. A Alemanha, que é uma das maiores doadoras do Fundo Amazônia, congelou o repasse junto com a Noruega.

Bolsonaro quer utilizar esta lista para atribuir a esses países a culpa pelo desmatamento nas florestas brasileiras. "Estaremos revelando nos próximos dias países que têm importado madeira extraída de forma ilegal da Amazônia. E alguns desses países são os mais severos críticos ao meu Governo no tocante a essa região amazônica", disse o presidente. "Porque daí sim estaremos mostrando que esses países, alguns deles que muito nos criticam, em parte têm responsabilidade nessa questão".

No entanto, Bolsonaro ignora que seu governo reduziu a fiscalização da venda ilegal de madeira. Segundo revelou a Folha, dois despachos internos do presidente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Eduardo Fortunato Bim, aumentaram a recirculação de madeira ilegal no Brasil e ampliou as possibilidades de exportação irregular de madeira proveniente de espécies ameaçadas de extinção.

O vice-presidente Hamilton Mourão tentou amenizar a ameaça de Bolsonaro, dizendo que ele se referia a "empresas estrangeiras" e não às nações. Não é o país, é a empresa. O presidente deixou claro que são as empresas, ele deixo muito claro isso aí", disse Mourão, que coordena o Conselho da Amazônia.

No mesmo dia, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) divulgou imagens que, segundo ele, mostram a madeira extraída ilegalmente do Brasil. É possível ver o nome de sete países: Bélgica, Reino Unido, Dinamarca, Holanda, França, Portugal e Itália.

"Como a maioria vai para Europa, onde muitos países se preocupam com o desmatamento nas florestas brasileiras, esperamos que eles cooperem fortemente para impedir a compra destes materiais", escreveu o deputado nas redes sociais.

Uma operação Arquimedes da Polícia Federal deflagrada em 2017 apreendeu 120 contêineres com 2.400 m³ de madeira extraída ilegalmente que seria vendida para Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Itália, Holanda, Portugal e Reino Unido.

Pressão internacional

A política do Governo Federal na região Amazônica tem gerado pressão de países como a França. Em 2019, o presidente francês Emmanuel Macron fez cobranças diretas a Bolsonaro, o que gerou tensão na relação entre os governos.

O assunto voltou à tona com a eleição de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos. Embora não tenha parabenizado e reconhecido a vitória do democrata, Bolsonaro tem se referido à mudança na Casa Branca com preocupação em relação a pressões que o Brasil possa sofrer do novo governo americano, que tem como uma de suas principais bandeiras a preservação ambiental e o crescimento sustentável.

"Estados comprometidos e também com ações no tocante à emissão de carbono. Assunto muito particular do Brasil tendo em vista os injustificados ataques que sofremos no tocante à região amazônica", disse Bolsonaro no discurso na Cúpula.

Durante a campanha nos Estados Unidos, Joe Biden sugeriu que pode destinar US$ 20 bilhões para investimentos na proteção da Amazônia, com algumas condições. O presidente Bolsonaro não aprovou a ideia, mas o embaixador do Brasil, Nestor Forster, nos EUA disse que seria uma ajuda bem-vinda.

Naquele debate, do dia 30 de setembro, Biden também afirmou que haveria retaliações econômicas caso Bolsonaro continuasse a permitir a destruição da floresta Amazônia. Até setembro de 2020, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registrou 76.030 pontos de fogo na Amazônia. É mais do que em quase todos anos anteriores.

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