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Meio Ambiente

WWF: Aumento do desmatamento no Brasil piora risco de zoonoses e covid

Desmatamento da Amazônia é um dos mais temidos gatilhos para novas pandemias no futuro - PA Media
Desmatamento da Amazônia é um dos mais temidos gatilhos para novas pandemias no futuro Imagem: PA Media

Do UOL, em São Paulo

12/01/2021 21h00

Novo relatório da ONG WWF Internacional aponta o Brasil entre os países que mais desmataram florestas e outros ecossistemas entre 2000 e 2018. Com duas frentes de destruição, a Amazônia e o Cerrado, o país entra em estado de alerta para a possibilidade de ser o local de origem de novas zoonoses e doenças como a covid-19.

A pesquisa "Frentes de desmatamento: vetores e respostas em um mundo em evolução", que será divulgada nesta quarta-feira (13), foi realizada em 29 países e se concentrou em 24 frentes de desmatamento na América Latina, na África Subsaariana, no Sudeste Asiático e na Oceania. Segundo o levantamento, ao menos dois terços da perda de cobertura florestal global ocorreu nessas regiões tropicais e subtropicais.

"Quando saudáveis, as florestas oferecem uma proteção contra doenças como a covid-19. No entanto, quando as florestas se encontram sob ataque, suas salvaguardas são enfraquecidas, o que leva a uma disseminação de doenças", explicou Marco Lambertini, diretor do WWF-Internacional.

Desmatamento e degradação florestal são alguns dos principais fatores que propiciam o surgimento de doenças zoonóticas como HIV/AIDS, Ebola, SARS, Febre do Vale Rift e, a partir de 2020, a covid-19.

Em 60 anos, quase metade das zoonoses teve relação com desmatamentos

O surgimento de novas doenças é bem alto nessas regiões tropicais, arborizadas e de ampla biodiversidade que estão entre as áreas mais desmatadas. Com isso, animais selvagens apresentam maior contágio de doenças e têm mais interações com seres humanos, já que as áreas onde vivem foram consideravelmente reduzidas.

De acordo com a WWF, mudanças no uso da terra contribuíram para quase metade das doenças zoonóticas que afetaram humanos entre 1940 e 2005.

"Embora os números que estamos compartilhando hoje sejam alarmantes, o processo de recuperação da pandemia da covid-19 pode proporcionar uma oportunidade para o tipo de mudanças transformadoras que são essenciais para salvaguardar nossas florestas — mudanças que foram identificadas como necessárias por algum tempo", afirmou Fran Raymond Price, líder da Prática de Florestas na ONG.

Desmatamento no Brasil

Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) apontam maior nível de desmatamento anual desde 2008 na Amazônia brasileira: 11.088 km² devastados entre agosto de 2019 e julho de 2020.

O Cerrado brasileiro, que abriga 5% dos animais e plantas do planeta, teve um terço de sua área (32,8%) devastado para a produção de gado e soja entre 2004 e 2017. Em 2020, o desmatamento do bioma aumentou 13% em relação ao ano anterior.

"Pensar no Cerrado daqui a 50 a 60 anos me faz sofrer", disse Ana Cláudia Mota da Silva, membro da comunidade afrodescendente de Mumbuca, no Tocantins. "Sabendo que nossos rios estão secando, que tantas árvores estão morrendo, temo que meus descendentes não vejam que eu vi."

Entre agosto de 2019 e julho de 2020 o desmatamento subiu 9,5%. No entanto, o Ibama aplicou a menor quantidade de multas por desmatamento ilegal na história. Foram 1.964 autos de infração neste período, contra 3.403 registrados no período anterior: uma queda de 42% nas punições, que envolvem, além do desmatamento, extração ilegal de madeira, garimpos ilegais.

"Desmatar para produzir commodities agropecuárias é uma ironia, pois já começa a afetar diretamente as safras e a qualidade das pastagens por causa da redução das chuvas", observou Edegar de Oliveira Rosa, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil.

Para Mariana Napolitano, gerente de ciências do braço brasileiro da ONG, "a Amazônia brasileira está perto de atingir um ponto de inflexão, no qual a floresta não será mais capaz de manter seus ciclos e processos naturais, e as porções mais afetadas sofrerão diminuição das chuvas e períodos de seca prolongados."

Combate à crise climática

"Os setores agrícola, florestal e de uso da terra são responsáveis por cerca de um quarto de todas as emissões globais de gases de efeito estufa", afirmou Pablo Pacheco, cientista líder de florestas do WWF.

Nove das 24 frentes de desmatamento apontadas no relatório estão na América Latina. A região teve 94% de queda nas populações da fauna selvagem, segundo a pesquisa.

"Em todo o mundo, a agricultura comercial, especialmente em larga escala, é a principal causa do desmatamento de áreas para pecuária e o cultivo de commodities. A mineração e a expansão da infraestrutura, tais como redes de estradas de ferro e rodovias, que conectam as zonas de produção aos mercados domésticos e de exportação, são outros dois importantes vetores", explica a WWF em nota.

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