PUBLICIDADE
Topo

Meio Ambiente

Desastre em Mariana: 55 sobreviventes morreram sem ver casas reconstruídas

Daniel Camargos, de Mariana (MG)

04/03/2021 04h00Atualizada em 04/03/2021 13h04

O sonho de Maria da Penha era voltar a viver em Bento Rodrigues, o distrito de Mariana (MG) que foi destruído pela lama do rompimento da barragem da Samarco em 2015. Sem poder voltar para casa, pois seu "cantinho" foi reduzido a escombros, a aposentada se contentou com a ideia de viver no local que está sendo construído para reabrigar os atingidos.

Mas Penha não acompanhou a visita às obras no último sábado, e também não participou do protesto, em que os sobreviventes se indignaram com o atraso na entrega das casas pela Fundação Renova — organização criada para reparar os danos provocados pela Samarco e suas acionistas Vale e BHP Billiton. Desde novembro de 2019, o corpo de Maria da Penha está enterrado no cemitério ao lado da capela de Nossa Senhora das Mercês, uma das poucas construções poupadas pela avalanche de rejeitos de minério.

"Ela viu a lama levando a casa dela e nunca mais foi a mesma", conta a filha, Luciene Alves, em lágrimas, enquanto observa o novo lote ainda sem nenhuma parede.

Além de Penha, pelo menos outras 54 pessoas que deveriam ter sido reassentadas morreram antes de receberem as chaves, segundo a Cáritas, entidade da igreja católica que atua ao lado dos atingidos. A conta considera as pessoas falecidas até novembro de 2020, quando o desastre completou 5 anos. Além deles, outras 19 morreram soterradas pelo tsunami de 44 milhões de m³ de rejeitos de mineração, que deixou também 394 famílias desabrigadas, além da devastação ambiental.

A Fundação Renova pediu, na Justiça, sucessivos adiamentos para a entrega das construções. A data inicial era março de 2019, que foi adiada para 27 de agosto de 2020 e novamente postergada para o último sábado ( 27).

As obras, contudo, estão longe da conclusão. No reassentamento de Bento Rodrigues, há 5 casas prontas e outras 20 em construção, das 209 prometidas. A lentidão é ainda maior em Paracatu de Baixo, outro distrito de Mariana destruído há cinco anos: nenhuma casa está pronta. Das 97 planejadas, somente sete tiveram as obras iniciadas.

Após o último atraso, o Ministério Público pediu nesta terça (2) o pagamento de multa de R$ 1 milhão por dia descumprido. A Renova tenta o aval da Justiça para conseguir um novo prazo e se livrar da penalidade.

A Promotoria pediu também a extinção da fundação: "Falta empatia e humanidade para com as pessoas atingidas. Cinco anos depois, as duas maiores empresas de mineração do mundo [Vale e BHP] não conseguiram reconstruir um único distrito", lamentam os promotores Gregório Assagra de Almeida e Valma Leite da Cunha, em ação ajuizada na semana passada (24).

A promessa da Fundação Renova, segundo nota enviada à Repórter Brasil, é a de que até o final deste ano 64 casas estarão prontas. A organização informa ainda que 95% das obras de infraestrutura estão concluídas, que o posto de saúde está pronto e a escola em fase final. A organização diz que permanece dedicada às obras, com previsão de gastar R$ 1 bilhão neste ano — aumento de 14% ante o ano passado (leia aqui a íntegra).

'A Renova está enrolando'

Sem casas na nova Bento Rodrigues, resta a alguns moradores mais velhos um pedaço de terra no cemitério. O túmulo de Penha está próximo à sepultura de Valdeimar Martins, o Tuquinha, que morreu em 2020 aos 80 anos. No hospital, ele repetia aos familiares que, quando estivesse recuperado, iria cozinhar frango com quiabo no fogão a lenha, segundo a sobrinha Maria das Graças Quintão. Mas morreu sem ver nenhuma parede pronta. Teve seu último pedido atendido pela família: ser enterrado no cemitério da Bento Rodrigues devastada.

"A Renova está enrolando o povo. O negócio deles é ganhar dinheiro", diz Vera Lúcia da Paixão, de 65 anos, uma das sobreviventes que aguardam a nova casa. Na sua opinião, a demora serve para que a Renova mantenha seus "bem pagos" empregados por um período maior.

O argumento de Vera ressoa em outra acusação do Ministério Público, que rejeitou pela quarta vez a prestação de contas da Renova, por não ter explicado os salários "exorbitantes" pagos aos seus diretores. Uma das diretoras recebeu remuneração anual superior a R$ 1 milhão, diz a Promotoria, valor que consideram desproporcional ao mercado. "Gera perplexidade em se tratando de instituição sem fins lucrativos", afirma o órgão.

Em nota, a Fundação Renova diz que se submete a uma auditoria independente (com aprovação das suas contas) e que adota "valores compatíveis com as responsabilidades assumidas" por seus executivos.

Enquanto a Renova justifica os altos salários, Vera lamenta que não será mais vizinha da irmã Izolina das Dores Izaías, quando for reassentada em Paracatu de Baixo. A irmã morreu em fevereiro do ano passado. "Ela era alegre, sorridente, mas o que tinha que falar não deixava para amanhã. Ia nas reuniões com a Renova e brigava muito", lembra.

Ela acredita que o aneurisma que matou Izolina pode ter sido provocado pelo abalo que enfrentou por ter que sair da casa em que viveu desde criança. "Ela ficou muito abalada. Mas todo mundo está assim: uns ficam estressados, outros muito tristes".

Meio Ambiente