PUBLICIDADE
Topo

Meio Ambiente

Área incendiada no 'Dia do Fogo' foi transformada em plantação de soja

Área dentro do PDS Terra Nossa onde foi semeada soja, atividade agrícola proibida nessa modalidade de reforma agrária - Fernando Martinho/Repórter Brasil
Área dentro do PDS Terra Nossa onde foi semeada soja, atividade agrícola proibida nessa modalidade de reforma agrária Imagem: Fernando Martinho/Repórter Brasil

Daniel Camargos

Da Repórter Brasil, em Novo Progresso (PA)

08/02/2022 15h57Atualizada em 09/02/2022 14h39

Passados mais de dois anos do chamado "Dia do Fogo", quando fazendeiros e empresários do sudoeste do Pará se articularam para queimar a floresta amazônica, ninguém foi preso e as investigações policiais não deram em nada. Junto com a impunidade, brota a soja.

A reportagem conversou com fontes das polícias Civil e Federal ligadas às investigações, que confirmaram que os casos não avançaram.

Em um dos locais mais devastados pelo fogo, o PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável) Terra Nossa, há lotes repletos de plantações de soja, conforme pode comprovar a Repórter Brasil quando foi ao local, em outubro de 2021. Esse tipo de cultivo contraria a finalidade dessa modalidade de reforma agrária, que deveria ser de interesse social e ecológico, destinado à subsistência das famílias assentadas.

Em um levantamento inédito, a reportagem cruzou as coordenadas dos locais onde flagrou a soja com os dados de alertas de incêndio dos satélites da Nasa. No "Dia do Fogo", entre 10 e 11 de agosto de 2019, foram registrados 197 focos de incêndio. A partir desse cruzamento, foi possível comprovar que uma área de 300 hectares com vários focos de incêndio na época abriga hoje, dois anos depois, plantações do grão. O objetivo do grupo que fez uma vaquinha para incendiar a floresta agora fica claro: abrir espaço para a soja.

satélite, soja - Fernando Martinho/Repórter Brasil - Fernando Martinho/Repórter Brasil
Imagem de satélite da Nasa mostra que área onde hoje há soja coincide com alertas de incêndio registados no 'Dia do Fogo'
Imagem: Fernando Martinho/Repórter Brasil

Em um intervalo de três anos, a Repórter Brasil esteve duas vezes em Novo Progresso, cidade próxima ao assentamento, que é conhecida como "o epicentro do Dia do Fogo". A primeira vez, foi logo após as queimadas, quando revelamos quem eram os investigados. A segunda, em outubro de 2021, quando a reportagem observou uma cidade modificada, cercada por plantações do grão, com silos de armazenagem sendo erguidos, e um centro urbano modernizado, com lojas chiques e picapes robustas cruzando as ruas e avenidas recapeadas.

Se o fogo foi o combustível para o aparente progresso, o que não mudou, contudo, foi a violência que acompanhou o boom do agronegócio. Quem se opõe à investida dos empresários, que querem comprar e arrendar as terras destinadas aos pequenos produtores, sofre com ameaças e atentados. Dois líderes que atuavam no PDS Terra Nossa já foram assassinados e a atual liderança, Maria Márcia Elpídia de Melo, sobreviveu a um atentado e convive com ameaças constantes.

"O objetivo deles [empresários do agro] é desmatar. Isso está claro. Não precisa nem explicar. Só a autoridade passar voando aqui que vê", afirma Melo, que preside a associação de assentados e está inserida em um programa de proteção aos defensores de direitos humanos do governo paraense. Do seu lote, ela se divide entre o medo das ameaças constantes e a luta para conseguir sobreviver conciliando a produção com a preservação da floresta.

maria, marcia - Fernando Martinho/Repórter Brasil - Fernando Martinho/Repórter Brasil
A atual líder do assentamento, Maria Márcia Melo, conta que o pequeno produtor não planta soja: "Quem disser aqui que é plantador de soja é um baita de um laranja de empresário?.
Imagem: Fernando Martinho/Repórter Brasil

Melo acusa o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) de ter abandonado as famílias por não fornecer a infraestrutura necessária para que elas pudessem produzir. Um cenário que abre espaço para o roubo de terras e a pressão sobre os pequenos agricultores "Os grileiros estão avançando e fomentando a venda de lotes", afirma.

A acusação de Melo é confirmada por um diagnóstico do Incra antes da posse do presidente Jair Bolsonaro. O documento constata que a ausência de infraestrutura e crédito para agricultura familiar - além dos conflitos com grandes proprietários - levaram grande parte das famílias a desistir do lote e negociar a posse.

Procurado, o Incra afirma que "é contrário às atividades irregulares que destoam do objetivo do assentamento na modalidade projeto de desenvolvimento sustentável". O órgão diz ainda que está prevista para este ano a concessão de créditos para atividades produtivas. Leia a íntegra da resposta.

Floresta de pé e irmã Dorothy

O Terra Nossa foi criado em 2006. No ano anterior, a missionária norte-americana Dorothy Stang foi assassinada em Anapu, justamente por defender este modelo de reforma agrária voltado para a preservação da floresta.

Na prática, porém, o que se vê no Terra Nossa está distante do sonho de Dorothy e da luta de Maria Márcia de Melo. Depois de o assentamento ser afetado pelo roubo de madeira, como a Repórter Brasil mostrou em 2019, a soja foi semeada próxima à vila que concentra casas de alguns moradores. A área cultivada, que equivale ao terreno de três famílias, foi comprada por um empresário do distrito de Cachoeira da Serra, que também é proprietário de uma serraria, conforme relatam os moradores.

noite, soja - Fernando Martinho/Repórter Brasil - Fernando Martinho/Repórter Brasil
Máquinas trabalham inclusive durante a noite para semear campo de soja nas margens da BR-163, em Novo Progresso (PA)
Imagem: Fernando Martinho/Repórter Brasil

"A ocupação por plantações de soja evidentemente desvirtua o propósito do PDS, que é voltado para atividades econômicas aliadas ao desenvolvimento sustentável. A soja é uma das atividades mais nocivas na agropecuária", afirma o procurador do Ministério Público Federal, Gabriel Dalla Favera de Oliveira.

Vizinho à terra indígena

Para Melo, líder dos assentados, a soja não é uma plantação viável para quem sobrevive de agricultura familiar. "Tu já viu pequeno agricultor plantar soja? O que ele vai fazer com a soja?", questiona. "Eu não sei fazer nada com soja. Quem disser aqui que é plantador de soja é um baita de um laranja de empresário".

Diante da ameaça do agronegócio, o sonho de ter a própria terra é penoso para Melo. Dois líderes que a antecederam foram assassinados. Ela relata que ouve recados intimidadores com frequência e já foi alvo de atentados. O de 2020, a Polícia Civil investigou, mas ninguém foi preso ou indiciado.

A Polícia Civil paraense também não elucidou quem foram os responsáveis pelo "Dia do Fogo". O mesmo aconteceu com o inquérito da Polícia Federal, que não resultou em nenhuma prisão. A hipótese investigada por ambas é a de que o "Dia do Fogo" foi organizado por empresários e fazendeiros de Novo Progresso, que chegaram a ser interrogados e tiveram documentos, celulares e computadores apreendidos.

pedro, soja - Fernando Martinho/Repórter Brasil - Fernando Martinho/Repórter Brasil
Pedro Boa Sorte conta já ter resistido a várias investidas de fazendeiros para comprar o lote que recebeu, vizinho a uma plantação de soja; ?Ficam cobiçando a minha terra, mas eu não arredo o pé?
Imagem: Fernando Martinho/Repórter Brasil

"O Incra vacilou. Não era para deixar esse homem fazer isso aqui", diz o assentado Pedro Ferreira da Boa Sorte, de 72 anos, apontando para a plantação de soja vizinha a seu lote no PDS Terra Nossa. Ele diz já ter resistido a várias investidas de fazendeiros para comprar o lote que recebeu. "Ficam cobiçando a minha terra, mas eu não arredo o pé".

A entrada para o PDS Terra Nossa é pela BR-163, a rodovia da soja, por onde seguem os caminhões carregados do Mato Grosso para o porto de Itaituba.

A quantidade de soja produzida em Novo Progresso quase dobrou em dois anos: de 24 mil toneladas em 2018 para 41 mil toneladas em 2020. A cidade vive um boom com o grão.

Se na área rural, pequenos agricultores sofrem com a investida dos sojeiros, na área urbana o "ouro verde", como é conhecida a oleaginosa, mostra sua pujança. Em um intervalo de dois anos, a cidade ganhou butiques, franquias de marcas famosas, restaurantes, e muitas ruas que eram de terra foram asfaltadas.

outdoor, bolsonaro - Fernando Martinho/Repórter Brasil - Fernando Martinho/Repórter Brasil
Parte da paisagem: outdoors de apoio a Bolsonaro são corriqueiras ao longo de toda a extensão da BR-163, no sudoeste do Pará e no Norte do Mato Grosso
Imagem: Fernando Martinho/Repórter Brasil

É o caso da churrascaria Planalto Grill, inaugurada no ano passado. A decoração tem espelhos no estilo Luís XV, flores de plástico e imensos aparelhos de ar condicionado.

Após o almoço de domingo, do lado de fora da churrascaria, o termômetro no painel do carro marca 43°C. A maioria das picapes estacionadas são novas e exibem adesivos com a bandeira do Brasil e frases de apoio ao atual presidente. "Uma nação, um povo, um líder. Eu apoio Bolsonaro 2022" está colado na caçamba de uma Toyota Hilux.

Meio Ambiente