Mídia quer empurrar o PV para um gueto verde, diz Eduardo Jorge

Vanessa Corrêa da Silva

Do UOL, em São Paulo

  • Paduardo/Futura Press

    Eduardo Jorge é o principal nome do PV para 2014

    Eduardo Jorge é o principal nome do PV para 2014

Nas eleições de 2010, o Partido Verde alcançou a maior votação de sua história no Brasil, com quase 20 milhões de votos - ou 20% do eleitorado, e sua candidata, Marina Silva, ficou em terceiro lugar na disputa que elegeu a presidente Dilma Rousseff. Agora, o PV espera repetir - ou superar - os números de 2010 sem Marina, que deixou o partido em 2011.

Para 2014, o partido aposta em Eduardo Jorge, que não confirma sua pré-candidatura à Presidência e diz que, no momento, atua como porta-voz do partido, que irá anunciar oficialmente o candidato em junho.

Em um jardim da Faculdade de Saúde Pública da USP, ao lado da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, onde trabalha atualmente como médico sanitarista, Eduardo Jorge conversou com o UOL sobre as principais diretrizes que serão adotadas pelo partido em sua campanha presidencial e se queixou do fato de medidas polêmicas defendidas pelo PV, como a legalização do aborto e a descriminalização da maconha, terem muito mais destaque na mídia do que outras propostas importantes do partido. 

"Eu não fujo disso, mas às vezes fico triste porque os meios de comunicação querem empurrar o PV para um gueto verde ou tratar apenas dessas questões mais polêmicas e não perguntam o que achamos da reforma política, da reforma da previdência, da política internacional", disse. 

Em sua carreira política, Eduardo Jorge cumpriu cinco mandatos como deputado pelo PT, do qual foi um dos fundadores, e foi secretário municipal da Saúde de São Paulo nas gestões de Luiza Erundina e Marta Suplicy. Em 2003, desfiliou-se do PT por conta de divergências com os métodos políticos da cúpula do partido. No mesmo ano, filiou-se ao PV e de 2005 a 2012 atuou como secretário do Meio Ambiente nas gestões de José Serra e Gilberto Kassab.

Quem é Eduardo Jorge
  • Idade
    64 anos
  • Naturalidade
    Salvador (BA)
  • Estado civil
    Casado, tem seis filhos e um neto
  • Profissão
    Médico sanitarista
  • Candidaturas a presidente
    Nenhuma até hoje
  • Experiência parlamentar
    Um mandato como deputado estadual e quatro como deputado federal. Foi secretário municipal da Saúde de São Paulo nas gestões de Luiza Erundina e Marta Suplicy e secretário do Meio Ambiente de São Paulo nas gestões de José Serra e Gilberto Kassab

UOL: As últimas pesquisas eleitorais apontam que a intenção de voto no PV gira em torno de 2%. Você acredita ser possível chegar ao segundo turno até a eleição?

Eduardo Jorge: Eleição a gente só sabe como começa, mas não sabe nunca como termina. As pesquisas são importantes, mas são muito preliminares. O PV praticamente não teve exposição ainda, então para nós as pesquisas não estão contando com o potencial de simpatia que a gente sabe que as ideias do partido têm. Se temos condições de ir para o segundo turno ou não, só durante a campanha é que iremos saber, mas isso não quer dizer que não devemos ter a coragem de divulgar nossas ideias. Nós sabemos que há um segmento da população que tem simpatia pelo PV. Se o PV não tem coragem de se apresentar, você está negando a essas pessoas que querem votar em um partido diferente uma oportunidade de nos apoiar, obrigando-as a votar no candidato "menos ruim".

As diretrizes do partido para 2014 falam da descriminalização do uso da maconha e da legalização do aborto. São ideias muito diferentes daquelas defendidas pela ex-senadora Marina Silva, que foi candidata à Presidência pelo partido em 2010. Como ocorreu essa mudança?

Ninguém mudou nada. O que houve foi um acordo entre o PV e a Marina na eleição passada. A Marina é uma moça maravilhosa, eu gosto muito dela, é minha amiga do PT já de longa data. Ela é uma espécie de instituição, porque é uma líder ambientalista muito importante, e em alguns itens o PV teve que fazer uma composição com as ideias dela. Assuntos como aborto e descriminalização das drogas estão desde sempre no programa do PV, mas não podíamos abordá-los na candidatura da Marina. Seria até uma violência que o PV faria com a convicção fundamentalista e religiosa que ela tem.

Qual é a política defendida pelo partido em relação às drogas nas diretrizes de 2014?

A descriminalização do uso da maconha é uma tendência, vários países estão caminhando nessa direção. A atual política de guerra total às drogas, com o uso da polícia para repressão, não deu certo, só aumentou o número de dependentes, o poder dos traficantes e inchou as penitenciárias. Por isso há vários países revendo essa política da guerra e se voltando para uma política onde a saúde e a educação são o foco principal.  Além disso, a maconha tem um valor medicinal fantástico, que fica reprimido com a política da guerra total. Outras drogas, que têm um potencial destrutivo mais forte, precisam de uma estratégia mais elaborada, mas de toda forma a política puramente repressiva não dá certo.

Em relação ao aborto qual é a posição do PV?

O mais importante é ter o planejamento familiar e educação sexual nas escolas para evitar a gravidez precoce. Mas, enquanto isso não acontece, eu não posso deixar as mulheres ao relento. O Ministério da Saúde calcula que sejam centenas de milhares de mulheres por ano que recorrem à interrupção de gravidez clandestina. Essas mulheres são evangélicas e católicas, como 95% da população do Brasil. Toda mulher sabe que o aborto é uma coisa traumática, mas às vezes ela não pode ter o filho, por diversas razões. Quem sou eu - pastor, padre ou juiz - para julgar essa mulher? Isso é de uma brutalidade e um machismo absurdo e faz com que os políticos mintam para garantir o voto evangélico e católico. O PV não quer fazer isso.

O PV tem receio de perder eleitores ao ser relacionado a essas medidas mais polêmicas?

Eu não fujo de nenhum desses temas que podemos classificar como políticas públicas órfãs, que ninguém quer assumir. Os candidatos, principalmente dos grandes partidos, se omitem ou até mentem quando tratam de temas como drogas e aborto. Eu não fujo disso, mas às vezes fico triste porque os meios de comunicação querem empurrar o PV para um gueto verde ou tratar apenas dessas questões mais polêmicas e não perguntam o que achamos da reforma política, da reforma da previdência, da política internacional.

E quais são as principais propostas do PV fora dessas áreas polêmicas?

Um dos principais pontos defendidos é a adoção do parlamentarismo, que é a reforma política de verdade, porque exige um trabalho constante e responsável do Congresso e do Executivo. A gente quer relançar a ideia do parlamentarismo porque hoje o que existe é um presidencialismo imperial. Com exceção dos Estados Unidos, todos os países com democracia mais consolidada são parlamentaristas. E, mesmo nos Estados Unidos, o poder do presidente perante o Congresso é muito reduzido, não é essa espécie de reizinho que temos aqui no Brasil. 

E como ficaria a Petrobras sem o uso do petróleo?

Infelizmente, porque a Dilma e o PT pertencem ao século 20, eles acorrentaram a Petrobras ao petróleo. Você não vai abolir o uso do petróleo da noite para o dia, mas tem que ir reduzindo progressivamente. A Petrobras deveria caminhar para se transformar em uma empresa geradora de energia, investindo, pesquisando e disputando os novos mercados nessa área. O programa do etanol, que é uma coisa fantástica que o Brasil fez, é mantido pela Petrobras como um patinho feio. A Petrobras não investe na energia solar, daqui há alguns anos corremos o risco de o Brasil, um país que foi abençoado com o sol, ter que comprar toda a tecnologia para o uso de energia solar de um país frio como a Alemanha, que já está investindo nessa área. Se continuar o governo do PT, a Petrobras é uma empresa fadada a ficar na história.

O PV teve medo de perder eleitores com a saída da Marina do partido?

O eleitorado que votou na composição PV/Marina é muito complexo. Ele vai do ambientalista mais rigoroso até o fundamentalista religioso mais conservador. O perfil da candidatura atual é bem diferente. Podemos ganhar por um lado e perder pelo outro, só a votação é que vai dizer.

Como será feito o financiamento da campanha? O PV é a favor do financiamento público?

O financiamento da campanha vai ser o mais econômico possível. Não somos contra o financiamento público, mas também defendemos a possibilidade de haver contribuições de pessoas físicas, porque isso dá à sociedade civil uma liberdade de intervir nesse processo, não fica meramente um financiamento estatal. A única coisa de que faço questão é que seja totalmente transparente, que qualquer pessoa que queira ajudar tenha sua contribuição publicada no site da campanha para todo mundo saber quem contribuiu, com quanto e por quê. 

Qual é a posição do PV em relação ao Bolsa Família?

Somos a favor do Bolsa Família, mas ninguém diz que a quantidade de recursos desse programa é igual ao orçamento do Benefício de Prestação Continuada, que garante um salário mínimo para idosos e deficientes incapacitados para o trabalho. Por que se fala tanto do Bolsa Família e não se fala desse benefício? Porque ele foi feito por todos nós na Assembleia Constituinte, então não se presta a uma exploração política e partidária. E o Bolsa Família tem esse viés de aproveitamento político e partidário. É detestável que um partido político utilize o sofrimento da pobreza para formar uma clientela política. É uma vergonha que um partido de esquerda faça isso.

Você é a favor da reeleição?

Para ter esse reizinho de quatro em quatro anos, eu sou contra. Os efeitos nocivos da reeleição nesse caso são evidentes. Agora, no caso do parlamentarismo, ter reeleição ou não é irrelevante, porque o poder não está nas mãos de um presidente messiânico, de um pai da pátria, mas nas mãos do Congresso.

Você foi preso duas vezes durante a ditadura. Como vê movimentos como a Marcha da Família, que prega a volta da intervenção militar no governo do Brasil?

O Brasil avançou nas áreas sociais, mas na área política a gente tem regredido, a ponto de hoje a crise de legitimidade da nossa democracia representativa ser dramática. Uma população que não tem apreço nenhum pelos seus políticos é algo gravíssimo em um país democrático. Isso abre espaço para o surgimento de pensamentos autoritários à esquerda e à direita. Assim como tem gente à esquerda que sonha com a reedição de um chavismo no Brasil, há as "viúvas" dos militares. Essas pessoas acreditam que o autoritarismo é melhor, mas quem viveu a ditadura sabe que não é.

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