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Firmas entravam em esquema por medo de diretores, diz delator da Lava Jato

Lucio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados
O empresário Augusto Mendonça, delator da operação Lava Jato, durante depoimento à CPI Imagem: Lucio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados

Bruna Borges

Do UOL, em Brasília

2015-04-23T11:57:02

2015-04-23T14:00:24

23/04/2015 11h57Atualizada em 23/04/2015 14h00

O empresário Augusto Mendonça, delator da operação Lava Jato, disse nesta quinta-feira (23) que as empreiteiras que são suspeitas de pagar propina para a Petrobras participavam do esquema porque os ex-diretores da estatal Paulo Roberto Costa (Abastecimento) e Renato Duque (Serviços) tinham “poder de atrapalhar” os negócios. 

“Os diretores não tinham autonomia para aprovar aditivos aos contratos. O poder de um diretor de atrapalhar é enorme, de ajudar é menor. Na minha opinião, eles vendiam mais dificuldade. As companhias participavam muito mais por medo que por vantagem”, declarou Mendonça à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras na Câmara.

Mendonça é presidente da empresa Setal e foi um dos primeiros delatores a relatar a existência de um cartel de empreiteiras que mantinham contratos com a Petrobras através do pagamento de propina. A partir de seu depoimento e o de Júlio Camargo, outro executivo que fez delação premiada, que a Polícia Federal deflagrou a sétima fase da operação Lava Jato, em novembro do ano passado, que passou a investigar e prender os empresários das principais empreiteiras do país.

No depoimento de hoje, o executivo reafirmou que pagou propina aos ex-diretores de Serviços e Abastecimento. Ele também confirmou que existia um cartel de empresas que pagavam a comissão aos ex-diretores para serem convidadas para participar de licitações. Este cartel teria sido formado no final da década de 1990 por “iniciativa própria” das empreiteiras para que elas pudessem “se proteger” no mercado em geral. Para Mendonça, a corrupção na Petrobras só foi ocorreu durante a atuação de Duque e Costa à frente das diretorias de Abastecimento e Serviços, quando o "clube de empreiteiras" adquiriu "efetividade".

O executivo disse ainda que, antes da deflagração da operação Lava Jato, o grupo se desfez. Segundo ele, o cartel acabou quando os diretores saíram do comando de suas diretorias. “Depois da operação, as empresas nem se conversam entre si”, declarou.

O relator da CPI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), questionou Mendonça se a corrupção é generalizada na Petrobras, como afirmou Pedro Barusco, ex-gerente de Serviços. O executivo negou que houvesse corrupção em toda a companhia.

"Quando o Pedro Barusco fala que era generalizada, ele tem razão em um sentido: de fato, dentro da diretoria de Serviços era generalizada porque queriam aplicar em todos os contratos", respondeu Mendonça. 

Mendonça também reafirmou que os pagamentos de propina eram feitos ao doleiro Alberto Youssef, preso após a Lava Jato. Também eram feitos repasses ao exterior. O executivo estima que mais de R$ 70 milhões a Duque e outros R$ 30 milhões a Costa em propina.

Vaccari e o PT

Mendonça assumiu que fez doações legais ao PT a pedido de Duque. Segundo ele, João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, nunca fez uma ameaça formal ao executivo, mas era "evidente" que, se ele não fizesse a contribuição ao partido, os negócios com a Petrobras seriam dificultados.

“Duque ofereceu algum benefício a suas empresas na Petrobras?”, perguntou o relator da CPI. “Ele não oferecia vantagens. Era mais no sentido de não atrapalhar [os contratos]”, respondeu.

Sobre o pedido de doações ao PT feitas a Duque, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) afirmou que Mendonça foi procurar o "arrecadador de propinas" do partido ao se referir a Vaccari. Isto porque Mendonça afirmou que procurou o ex-tesoureiro em 2008 para tratar de doações, mas Vaccari só assumiu a Secretaria de Finanças em 2010.

O executivo também afirmou ter pago R$ 2,5 milhões ao PT por meio de depósitos feitos como pagamentos por supostos anúncios em uma revista editada pela Gráfica Atitude, em São Paulo.

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