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Queiroz recolheu R$ 2 milhões em rachadinha, 70% em dinheiro vivo, diz MP

18.jun.2020 - Fabrício Queiroz, de boné, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, chega ao IML (Instituto Médico Legal) em São Paulo, após ser preso em Atibaia (66 km da capital) - Nelson Almeida/AFP
18.jun.2020 - Fabrício Queiroz, de boné, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, chega ao IML (Instituto Médico Legal) em São Paulo, após ser preso em Atibaia (66 km da capital) Imagem: Nelson Almeida/AFP

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

19/06/2020 09h06Atualizada em 23/06/2020 17h52

Resumo da notícia

  • Ao menos 11 ex-assessores eram ligados a Queiroz, diz MP
  • PM reformado é apontado como suposto operador de rachadinha na Alerj
  • Esquema era operado por pessoas próximas a Flávio Bolsonaro, aponta MP

Fabrício Queiroz recolheu mais de R$ 2 milhões em um período de pouco mais de dez anos em um suposto esquema de "rachadinha" entre servidores da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) vinculados direta ou indiretamente ao ex-deputado Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), aponta o MP-RJ (Ministério Público do Rio). A informação consta na decisão do juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, que determinou a prisão de Queiroz, detido ontem em Atibaia (SP).

Ainda de acordo com o MP-RJ, 70% desse valor foi depositado na conta de Queiroz em dinheiro vivo —ao menos 11 ex-assessores tinham relações de parentesco, amizade ou eram vizinhos do ex-assessor de Flávio Bolsonaro, hoje senador. Os pagamentos, segundo a investigação, eram feitos próximos às datas de pagamentos dos servidores da Alerj entre abril de 2007 e 17 de dezembro de 2018.

O MP-RJ também identificou que 26,5% dos repasses foram feitos por transferências bancárias e outros 4,5% em cheque.

Com o afastamento do seu sigilo bancário, a investigação ainda detectou uma intensa rotina de saques na conta de Queiroz de cerca de R$ 3 milhões.

O UOL procurou o advogado Paulo Emílio Catta Preta, que disse ter tido uma conversa de 20 minutos com Queiroz no parlatório do presídio de Benfica. Na ocasião, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro disse não entender o motivo de sua prisão.

O senador Flávio Bolsonaro sempre negou irregularidades em seu gabinete na Alerj. Em nota, a sua assessoria disse que ele foi vítima de uma campanha de difamação orquestrada por políticos rivais.

No Twitter, Flávio disse ontem que encara a prisão com "tranquilidade" e que "a verdade prevalecerá". "Mais uma peça foi movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro. Em 16 anos como deputado no Rio nunca houve uma vírgula contra mim. Bastou o presidente Bolsonaro se eleger para mudar tudo! O jogo é bruto!", escreveu.

A prisão de Queiroz

Queiroz foi localizado e preso em um imóvel que pertence ao advogado Frederick Wassef, que esteve na posse do novo ministro das Comunicações, Fabio Faria (PSD). Wasseff é advogado de Flávio e do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Na casa onde Queiroz estava em Atibaia, policiais apreenderam celulares, cartão de crédito e dinheiro em espécie (a quantia não foi revelada).

A esposa de Fabrício Queiroz também teve prisão autorizada, mas não foi localizada até o momento.

Quem é Fabrício Queiroz

Queiroz já foi policial militar e é amigo do presidente Bolsonaro desde 1984. Reformado na PM, trabalhou como motorista e assessor de Flávio, então deputado estadual pelo Rio.

Ele passou a ser investigado em 2018 após um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indicar "movimentação financeira atípica" em sua conta bancária, no valor de R$ 1,2 milhão, entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. Queiroz foi demitido por Flávio pouco antes de o escândalo vir à tona.

O último salário de Queiroz na Alerj foi de R$ 8.517, e ele teria recebido transferências em sua conta de sete servidores que passaram pelo gabinete de Flávio. As movimentações atípicas levaram à abertura de uma investigação pelo MP-RJ.

Cheque de R$ 24 mil em conta de Michelle Bolsonaro

Uma das transações envolve um cheque de R$ 24 mil depositado na conta da hoje primeira-dama, Michelle Bolsonaro. O presidente, na época, se limitou a dizer que o dinheiro era para ele, e não para a primeira-dama, e que se tratava da devolução de um empréstimo de R$ 40 mil que fizera a Queiroz. Alegou não ter documentos para provar o suposto favor.

Em entrevista ao SBT em 2019, Queiroz negou ser "laranja" de Flávio. Segundo ele, parte da movimentação atípica de dinheiro vinha de negócios com a compra e venda de automóveis. "Sou um cara de negócios, eu faço dinheiro... Compro, revendo, compro, revendo, compro carro, revendo carro. Sempre fui assim", afirmou na ocasião.

Peça-chave em apuração sobre 'rachadinha' de Flávio Bolsonaro

Queiroz é peça-chave para a investigação da suposta "rachadinha" por ex-colaboradores de Flávio lotados em seu gabinete na Alerj. Isso poderia configurar lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa.

Flávio, que sempre negou irregularidades, se posicionou ontem, no Twitter.

Outros investigados

Também na operação, foi determinado o cumprimento de medidas cautelares contra outras quatro pessoas. Uma delas foi Alessandra Esteves Marins, ex-assessora de Flávio Bolsonaro na Alerj e atual assessora dele no Senado. O gabinete de Flávio não se pronunciou sobre o caso.

Luiza Paes Souza, assessora de Flávio entre 2011 e 2012, também foi alvo da ação. O UOL não conseguiu contato com sua defesa. Matheus Azeredo Coutinho, funcionário da Alerj desde setembro de 2018, também não foi localizado pela reportagem. Luis Gustavo Botto Maia, advogado da campanha de Flávio Bolsonaro ao Senado, não respondeu aos questionamentos do UOL.

A operação Anjo não incluiu Flávio como um de seus alvos. Ele, entretanto, é investigado pelo MP-RJ. Em dezembro de 2019, uma operação do MP-RJ cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Flávio por indícios de que ele tenha lavado até R$ 2,3 milhões com transações imobiliárias.