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Flávio Bolsonaro mente ao relacionar fome com lockdown em Araraquara

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) - Pedro França /Agência Senado
O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) Imagem: Pedro França /Agência Senado

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

01/05/2021 12h02

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) mentiu ao publicar em sua conta do Instagram um vídeo e um texto em que relaciona uma ação de entrega de cestas básicas ao lockdown adotado na cidade de Araraquara, no interior de São Paulo.

No vídeo publicado pelo parlamentar, um homem mostra uma fila de pessoas que estariam aguardando para receber doações de alimentos da Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) na cidade e relaciona as doações às medidas restritivas para conter a disseminação do novo coronavírus e a superlotação dos hospitais. Esse homem afirma que o vídeo é da última quinta-feira (29).

Flávio Bolsonaro escreveu um texto ao publicar as imagens, onde disse que o "produto do lockdown em Araraquara/SP" é o "desemprego e a fome". "Com a política do 'fique em casa que a economia a gente vê depois,' (sic) apoiada pelo PT, PSDB, PCdoB, PSOL, REDE, PDT... O socialismo bate em nossas portas", mentiu o senador.

O UOL Confere já desmentiu a mesma desinformação dita por Flávio, mas que antes foi propagada pelo presidente da República e seu pai, Jair Bolsonaro (sem partido) durante uma live semanal.

As doações organizadas pela Ceagesp são recorrentes, segundo o prefeito da cidade, Edinho Silva (PT). O UOL encontrou no site da prefeitura ações semelhantes organizadas desde 2017.

Já a relação direta do fato de parte da população de Araraquara estar passando fome com o lockdown adotado na cidade é incorreta. Além da vacina, a principal forma de evitar mortes pela covid-19, um vírus altamente transmissível, é a adoção de medidas de restrição de circulação, para que as pessoas possam diminuir contato uma com as outras e evitar novas contaminações, conforme afirmam pesquisadores do tema.

O lockdown é a medida de restrição mais severa e quase sempre adotada em momentos críticos de superlotação de hospitais e escalada de novos casos, como foi em Araraquara.

A ação foi elogiada pelo Centro de Contingência ao Coronavírus em São Paulo, pasta de médicos infectologistas e epidemiologistas que assessora o governo do estado nas ações da pandemia, principalmente porque chegou a zerar o número de mortes diárias.

O lockdown também foi e ainda é adotado em países da América Latina e Europa, e é considerado eficaz para conter novos casos de covid-19 e, assim, evitar a lotação dos hospitais. Mas, apesar de ser uma medida necessária em certos casos, agrava problemas sociais, como o desemprego e a fome, por reduzir ainda mais a circulação de pessoas.

Para corrigir essas consequências econômicas, governos implantaram auxílios financeiros para que as pessoas pudessem ficar em casa, sem trabalhar presencialmente. Após uma lacuna de três meses sem auxílio à população brasileira, o governo federal voltou a pagar o auxílio emergencial no valor de até R$ 375. Um menor auxílio emergencial inviabiliza cada vez mais a adoção de medidas de restrição, dizem especialistas.

Não há, também, relação entre o lockdown, que é uma medida sanitária, e o socialismo, que é uma linha de pensamento econômico.

Não é a primeira vez que o senador Flávio Bolsonaro criticou medidas de restrição contra a covid-19. Mas a atual fala também vai na contramão do que o parlamentar defendeu recentemente em sua fala para defender que a CPI da Covid, que investiga os erros do governo federal na pandemia, não fosse instaurada.

"Está sendo irresponsável porque está assumindo a possibilidade de, durante os trabalhos desta CPI acontecerem mortes de senadores, mortes de assessores, morte de funcionários desta casa em função da covid porque em algum momento as audiências e as sessões terão que ser presenciais", disse o senador na ocasião.

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