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Vendedor da Davati relata à CPI 'insistência' do governo e suposta propina

Hanrrikson de Andrade, Luciana Amaral e Thais Augusto

Do UOL, em Brasília e em São Paulo

15/07/2021 04h00Atualizada em 15/07/2021 18h37

Representante da empresa Davati Medical Supply, Cristiano Carvalho disse hoje, em depoimento à CPI da Covid, ter sido procurado insistentemente por Roberto Ferreira Dias, ex-chefe de Logística do Ministério da Saúde, semanas antes do jantar em Brasília (em 25 de fevereiro) no qual teria ocorrido suposto pedido de propina por parte do ex-servidor.

A suposta cobrança de vantagem ilícita, fato que se tornou público após relato de Luiz Paulo Dominghetti (policial militar e revendedor da Davati nas horas vagas), seria uma contrapartida destinada a Dias e/ou terceiros vinculados para que fosse fechado acordo entre o governo federal e a empresa.

A Davati, com sede no Texas e sem representação formal ou CNPJ no Brasil, ofertava suposto lote de 400 milhões de unidades da vacina AstraZeneca, ao custo de US$ 3,50 por ampola. A propina seria de US$ 1 por dose. Em depoimento à CPI, Dias contestou a narrativa de Dominghetti, negou ter cometido qualquer irregularidade e chamou o policial de "picareta". Segundo ele, o episódio relatado "nunca ocorreu".

Custo das vacinas compradas pelo governo Bolsonaro - Arte UOL - Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Carvalho disse hoje à CPI que a primeira tentativa de contato de Dias para falar de vacinas ocorreu em 3 de fevereiro —três semanas antes de um jantar no restaurante Vasto, em Brasília, quando Dominghetti teria testemunhado o suposto pedido de propina. Carvalho afirmou não ter participado do encontro e que só tomou conhecimento do suposto ato criminoso em 12 de março.

"Dada a insistência das pessoas em me procurar, eu vi como uma oportunidade de realmente prestar um bom trabalho, ser remunerado por isso, e fiz da melhor maneira que eu podia, tá? Eu gostaria só de deixar claro que foi uma oportunidade a questão das vacinas. Eu não queria realmente participar disso, mas, pela forma insistente com que eu fui contatado tanto pelo Dominghetti quanto por alguns representantes aí do ministério, dando fulcro de credibilidade a isso, eu embarquei nesta jornada aí para tentar inclusive resolver o problema que, no Brasil, a gente tinha naquele momento", declarou Carvalho.

O depoente exibiu durante a oitiva alguns trechos de diálogos que teria tido com o ex-chefe de Logística do Ministério da Saúde e colocou o seu telefone celular à disposição para perícia. "Como vocês vão verificar nas mensagens e nas informações, eu nunca entrei em contato com o Ministério da Saúde. O Ministério da Saúde é que me procurou através do senhor Roberto Ferreira Dias."

"'Boa noite, Cristiano'. Eu até achei estranho, porque eram 19h10. 'Roberto Dias, diretor de Logística do Ministério da Saúde'. Aí, às 19h40... Eu não retornei. Na verdade, às 19h40 eu não retornei... Na verdade, eu vou ser bem sincero com os senhores: eu estava absolutamente incrédulo que era um funcionário do Ministério da Saúde que estava entrando em contato comigo às 19h, porque não fazia muito sentido."

Carvalho afirmou que não teria respondido imediatamente a Dias, pois não sabia quem ele era e se, de fato, ocupava posto de comando no ministério. O ex-servidor teria então insistido para que eles conversassem. O retorno ocorreu às 21h do mesmo dia.

"(...) ele conversou rapidamente comigo, se apresentou, que ele fazia a contratação das despensas internacionais de vacinas e tal. Eu fui até checar isso na internet, porque eu realmente estava achando que era fake news, ou coisa que o valha, e cheguei a verificar que realmente ele era o diretor de Logística. Era o diretor de Logística e inclusive tinha sido indicado para a Anvisa. Então, realmente verifiquei que era um funcionário público no exercício da função."

A narrativa feita hoje por Carvalho à CPI da Covid coloca ainda mais suspeitas em relação às informações que foram prestadas por Dias, também em depoimento ao colegiado.

Em 7 de junho, o ex-chefe de Logística do Ministério da Saúde afirmou que tinha encontrado Dominghetti por acaso durante o jantar no restaurante Vasto, em 25 de fevereiro, e atribuiu ao vendedor da Davati a iniciativa de oferecer ao governo as doses da vacina AstraZeneca.

De acordo com o relato do ex-servidor, a proposta não teria sido levada adiante depois que a pasta observou que Dominghetti não possuía uma carta de credenciamento da fabricante.

Mensagens mostram que Cristiano manteve conversas com Dias, o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, coronel Élcio Franco, e Marcelo Blanco, coronel da reserva e ex-assessor de Dias na pasta, antes mesmo da formalização da proposta da Davati para o fornecimento de vacinas contra a covid-19.

Ao fim do depoimento, Dias acabou preso após o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), considerar que ele mentiu à comissão. Ele pagou fiança de R$ 1,1 mil e foi solto na mesma noite.

Carvalho tentou se desvincular do tema referente ao suposto pedido de propina e atribuiu toda a narrativa a Dominghetti. "Atuei só como vendedor [da Davati] no Brasil. Não compactuei com nenhum tipo de medida, pedido de propina, não presenciei e não tenho nada para falar a respeito disso."

Apesar de negar ter participado do jantar do dia 25 de fevereiro, o depoente afirmou que soube do episódio em 12 de março e relatou que os envolvidos usavam um outro termo, "comissionamento", para se referir à possibilidade de algum tipo de desvio de recursos.

Na CPI, o representante da Davati afirmou ainda que a suposta propina seria destinada ao "grupo" ligado ao coronel da reserva Marcelo Blanco, ex-funcionário do ministério e próximo a Dias.

A informação que veio a mim, vale ressaltar isso, não foi o nome propina. Ele [Dominghetti] usou comissionamento. Ele se referiu a esse comissionamento sendo do grupo do tenente-coronel Blanco e da pessoa que o tinha apresentado ao Blanco, que é de nome Odilon."
Cristiano Carvalho, representante da Davati no Brasil

O nome "Blanco" se refere ao coronel Marcelo Blanco, que, segundo Dominghetti, teria sido o responsável por criar um elo inicial entre a Davati e o governo. Já "Odilon" seria Guilherme Filho Odilon, um interlocutor entre Dominghetti e o coronel Blanco.

Servidores públicos não podem receber comissionamento ou propina em troca de negócios.

"Inicialmente, foi passado que era o grupo do Blanco. Com o passar do tempo, depois do fim das negociações, ele se mostrou com uma mágoa muito grande pelo Roberto Dias, tá? Sempre reclamava do Roberto Dias, da comissão e tal. Então, isso me levou a acreditar que realmente existiu o suposto jantar...", afirmou Carvalho em outro momento.

Ao longo do depoimento, Carvalho indicou que foram buscados dois caminhos para a venda de vacinas junto ao Ministério da Saúde: um seria através do coronel Blanco e Roberto Dias; o outro, que chegou ao coronel Élcio Franco, por intermédio do Instituto Força Brasil, liderado por Helcio Bruno.

Questionado pela senadora Leila Barros (PSB-DF) se havia divergência ou disputa entre esses dois grupos, Carvalho disse que, "como um não sabia de que o outro estava negociando e com quem, aparentemente tinha alguma coisa divergente entre eles ali".

Ele disse ainda que Élcio Franco nunca lhe pediu propina ou pressionou por qualquer tratativa.

Houve ainda uma intermediação do reverendo Amilton Gomes de Paula. Ele preside a Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários), que, apesar do que o nome possa levar a entender, é uma instituição privada. Até 2020, a Senah se chamava Senar (Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos).

O depoimento de Amilton à CPI estava previsto para ontem, mas ele apresentou atestado médico para não falar aos senadores. A expectativa agora é que ele vá à comissão somente em agosto, após o recesso parlamentar.

Blanco teria sido o único a pedir de Carvalho documento que comprovasse que ele era representante da Davati, informou o depoente.

O UOL pediu um posicionamento ao Ministério da Saúde sobre o conteúdo do depoimento de Cristiano Carvalho. Se houver uma manifestação, este texto será atualizado.

Suposta propina seria de US$ 1 por dose

O suposto pedido de propina foi narrado por Dominghetti, primeiro em entrevista à Folha de S.Paulo e posteriormente em depoimento à CPI da Covid.

Segundo o policial, o crime teria ocorrido durante um jantar no restaurante Vasto, em Brasília, em 25 de fevereiro. Na ocasião, Dominghetti disse ter ouvido de Roberto Ferreira Dias que o acordo com a Davati estaria condicionado ao desvio de US$ 1 por dose. As negociações eram para venda de 400 milhões de unidades da vacina AstraZeneca.

A versão se tornou um dos principais pontos de interesse da CPI e deu luz a suposta tentativa de ato corruptivo em meio a assunto de extrema relevância no contexto do enfrentamento à pandemia: a demanda por vacinas.

Na CPI, Dias negou ter solicitado propina para que o suposto negócio fosse concretizado.

Durante o seu depoimento, o ex-dirigente do Ministério da Saúde tentou desconstruir a narrativa de Dominghetti e alegou que não houve uma proposta formal, e sim uma insistência do PM em levar ao governo uma oferta inicial da Davati. A mesma teria sido rechaçada.

Oficialmente, a Davati negou ter conhecimento do pedido de propina e reforçou que Dominghetti não representa a empresa no Brasil. Somente Cristiano seria seu representante credenciado. Segundo Dominghetti, a solicitação da propina foi relatada a Cristiano e este teria sido o responsável por estimulá-lo a revelar o suposto esquema.

Segundo Carvalho, o valor de US$ 1 nunca foi mencionado a ele por Dominghetti. "Porque também é uma coisa tão absurda que ele nunca chegou a me dizer isso; só falou que havia sido pedido um comissionamento, tá?"

Na versão de Carvalho, que teoricamente seria o "chefe" de Dominghetti, sua função era apenas fazer a ponte entre a Davati e o Ministério da Saúde. Ele negou ter vínculo empregatício formal com a empresa americana e/ou exercer cargo de posto hierárquico elevado.

"Não tenho vínculo empregatício [com a Davati]. Foi dito aqui na CPI que eu seria CEO na empresa, que nem tem CEO ou representação aqui no Brasil. A Davati, através de um amigo, pediu para que eu intermediasse a relação com o Ministério da Saúde e o senhor Dominghetti."

"Eu nunca enviei nenhuma proposta de preço nem proposta de compra e venda. Elas sempre foram enviadas através do escritório central da empresa nos Estados Unidos. Eu não tinha influência de preço, só fazia a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, passando as necessidades expostas por interlocutores locais", completou.

Carvalho chegou a ser descrito como CEO da empresa no Brasil durante o depoimento de Dominghetti à CPI da Covid. Ele classificou as falas do policial como "fantasiosas".

"[As falas de Dominghetti] são fantasiosas. A própria empresa desmentiu em nota oficial. Como a gente pôde acompanhar através da imprensa existem coisas fantasiosas, se criou um folclore sobre as pessoas envolvidas. Talvez ele não tenha feito por mal, mas não me apresentei a ele como CEO."

A CPI da Covid só deve retomar as sessões em 3 de agosto devido ao recesso parlamentar. Após a aprovação do projeto da LDO, que deve acontecer hoje à noite, o Congresso Nacional pode entrar em recesso entre 18 e 31 de julho.

A comissão foi prorrogada por mais três meses. O prazo inicial de término era 7 de agosto, então, agora, poderá funcionar até o início de novembro. Os trabalhos podem ser encerrados antes, se os membros assim o desejarem.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.