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1 mês

Bolsonaro de novo exime seu governo de culpa e ataca CPI: 'Produziram ódio'

Do UOL, em São Paulo

20/10/2021 12h57Atualizada em 20/10/2021 15h21

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a atacar, durante evento no Ceará, a CPI da Covid e disse que o seu governo "não tem culpa de absolutamente nada" em relação à pandemia do novo coronavírus.

A manifestação de Bolsonaro ocorreu ao mesmo tempo em que o relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), lia em Brasília o relatório final, que apontou ao menos nove possíveis crimes do presidente por sua conduta na pandemia. Outros membros do Governo, como o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o atual Marcelo Queiroga, também tiveram pedido o indiciamento pela comissão.

Durante seu discurso, Bolsonaro foi interrompido por gritos de "Renan vagabundo" e iniciou os ataques à comissão. "A voz do povo é a voz de Deus. Como seria bom se aquela CPI estivesse fazendo algo de produtivo para o nosso país. Tomaram tempo do nosso ministro da Saúde, servidores, pessoas humildes e empresários. Nada produziram, a não ser ódio e rancor", disse.

Bolsonaro também tentou eximir seu governo de responsabilidade em seu discurso no Ceará e rebateu o relatório que contesta a conduta do presidente e de seus ministros. "Nós sabemos que não temos culpa de absolutamente nada, fizemos a coisa certa desde o primeiro momento", disse.

O Brasil já registrou mais de 603 mil óbitos pela covid-19 desde o início da pandemia. Durante esse período, Bolsonaro por repetidas vezes adotou discursos negacionistas. Ele é contra o uso de máscara, medida recomendada pelos médicos, mentiu sobre as vacinas — ele declara que não vai se vacinar — e criticou de forma enganosa os decretos de governadores e prefeitos para o isolamento social — diversos estudos científicos apontam que o isolamento não só foi importante para salvar vidas, como para conter os danos econômicos decorrentes da pandemia.

Tratamento ineficaz

No discurso, Bolsonaro voltou a defender medicamentos ineficazes contra a covid-19 no tratamento da doença, um dos motivos que levaram Renan a pedir seu indiciamento.

Em determinado momento, ele questionou a plateia sobre quem teria tomado ivermectina e cloroquina, remédios que não têm eficácia contra a covid-19 e que são incentivados pelo presidente sem base científica.

Bolsonaro disse que teve "coragem" e chegou a falar em solução, ignorando a ineficácia dos medicamentos.

"No momento que ninguém sabia como tratar aquela doença tive a coragem de me apresentar, depois de ouvir muita gente, em especial médicos, para uma possível solução. E obviamente a solução estava calcada na autonomia do medico brasileiro", disse.

Bolsonaro minimizou a pandemia, aponta FGV

Estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) concluíram que o Brasil tinha os mecanismos necessários para lidar com a pandemia. Contudo, segundo o estudo, as escolhas do presidente Jair Bolsonaro transformaram o combate à crise sanitária foram consideradas um fracasso.

Os autores da pesquisa afirmam que Bolsonaro usou todos os poderes constitucionais para fazer valer a sua agenda, minimizar a pandemia e boicotar ações de estados. O estudo lembra que o presidente iniciou, em abril do ano passado, uma "campanha agressiva" em apoio ao uso da cloroquina, remédio considerado ineficaz para a Covid.

Esse posicionamento acabou derrubando dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, e colocando o general Eduardo Pazuello no cargo. O texto aponta que Pazuello trocou técnicos por militares em cargos gerenciais importantes no Ministério da Saúde, "decisão duramente criticada pela comunidade da saúde pública".

Ao longo da pandemia, o presidente também editou medidas provisórias para atrapalhar as ações de governadores, como a que incluiu dezenas de serviços na lista de essenciais —de igrejas a salões de beleza. Essa foi uma tentativa de impedir o fechamento de atividades, ação importante para garantir o isolamento social e diminuir a disseminação do vírus.

O estudo da FGV também aponta que Bolsonaro defendeu políticas de saúde que refletem a "pseudociência" e o "negacionismo" e contribuiu para a desinformação sobre a pandemia. Ele ignorou reiteradas vezes as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde) e as políticas de saúde baseadas em evidência.

O estudo compila análises de cerca de 60 pesquisadores sobre as políticas públicas de controle da pandemia adotadas em 30 países de todos os continentes. Os resultados mostram que países que tiveram desempenho melhor durante o período analisado seguiram as orientações da OMS e aliaram medidas de saúde a políticas sociais.

Governo 'assentiu com mortes de brasileiros', diz relator

No relatório final, Calheiros afirma que o governo "assentiu com a morte de brasileiras e brasileiros" ao, de acordo com o seu entendimento, promover deliberadamente a disseminação do novo coronavírus. O objetivo seria proporcionar a chamada "imunização de rebanho", quando se atinge uma quantidade suficiente de pessoas imunes ao vírus, interrompendo a transmissão comunitária.

Segundo o documento, Bolsonaro, ministros de Estado, membros do governo federal e integrantes do chamado gabinete paralelo agiram para que a covid-19 se propagasse em meio à população, tendo responsabilidade direta pelas mais de 600 mil mortes registradas no país.

Com esse comportamento o governo federal, que tinha o dever legal de agir, assentiu com a morte de brasileiras e brasileiros."
Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid

"Após quase seis meses de intensos trabalhos, esta Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia colheu elementos de prova que demonstraram sobejamente que o governo federal foi omisso e optou por agir de forma não técnica e desidiosa no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus, expondo deliberadamente a população a risco concreto de infecção em massa", diz o texto.

Ainda segundo o relatório, "comprovaram-se a existência de um gabinete paralelo, a intenção de imunizar a população por meio da contaminação natural, a priorização de um tratamento precoce sem amparo científico de eficácia, o desestímulo ao uso de medidas não farmacológicas. Paralelamente, houve deliberado atraso na aquisição de imunizantes, em evidente descaso com a vida das pessoas".

O relatório atribui a ações e declarações de Bolsonaro o objetivo de promover a contaminação em massa da população —um dos pontos usados pelo relator para pedir seu indiciamento por diversos crimes.

"Visando ao atingimento da imunidade de rebanho pela contaminação, o governo federal, em particular o presidente Jair Messias Bolsonaro, com o uso da máquina pública, de maneira frequente e reiterada, estimulou a população brasileira a seguir normalmente com sua rotina, sem alertar para as cautelas necessárias, apesar de toda a informação disponível apontando o alto risco dessa estratégia", afirma o relator.

"A ênfase do governo foi em proteger e preservar a economia, bem como em incentivar a manutenção das atividades comerciais, inclusive, com propaganda oficial apregoando que o Brasil não poderia parar."

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